Viagem progressiva em Lucifer Rising

 photo AnjoGabriel_zpse4e3b812.jpg

por Jeder Janotti Jr.

Nem sempre a viagem esperada é permitida. Mesmo que envolva expectativas, horizontes e bagagens alinhavadas; muitas vezes, inesperadamente, estamos diante de uma inevitável queda livre. Se para os aficionados do revival udigrudi psicodélico, o primeiro disco da banda Anjo Gabriel, O Culto Secreto do Anjo Gabriel, foi uma viagem astral pelas veredas instrumentais do início dos anos setenta, o pretensioso Lucifer Rising está mais para uma bad trip.

São cerca de 35 minutos que demoram a passar, e como! Mas que não se iludam os otimistas do tempo, não se trata de outros modos de vivenciar suas passagens, e sim, do acionamento do lado conservador e diletante de parte do rock progressivo; pastiche da forte psicodelia dos sessenta, com volteios em paisagens musicais cujos efeitos parecem ser só o de evocar reiteradamente a própria construção dos efeitos. Como aquele clichê do observador estático diante das obras congeladas na paisagem dos museus.

Como paliativo, deve ser lembrado que se trata de uma obra, no mínimo singular, o fazer de uma trilha sonora alternativa ao controverso projeto homônimo (um filme de início dos anos setenta) do diretor Kenneth Anger, musicada, renegada, pelo guitarrista Jimmy Page e só lançado em poucos vinis em 2012. Na verdade, a ideia da banda foi gestada dentro do “Play the Movie”, um evento do Festival No Ar Coquetel Molotov, em que músicos dos arrecifes e arredores, imaginam novas trilhas musicais para filmes já realizados.

Como se pode imaginar, o projeto é no mínimo arriscado. Mesmo levando-se em consideração as críticas animadas que circulam na internet e um suposto distanciamento da proposta inicial de Page, muitas delas parecem fruto de uma defesa do circuito restrito, e cult, dos colecionadores de vinis raros e de curto alcance, do que de análise da proposta sonora. Até porque, ao contrário do que foi propagado em muitos desses sites, como trilha sonora em sentido amplo, a música de Jimmy Page é bem mais efetiva. Quando comparadas, percebe-se na proposta do guitarrista do Zeppelin uma preocupação na articulação com as imagens, o que fica difícil de ser notada diante do preciosismo da Anjo Gabriel, que parece querer desgarrar-se das imagens para afirmar a grandiosidade da paisagem musical.

A parte um, ou lado A do vinil, consegue reeditar o lado mais egóico e individualista de álbuns como Ummagumma, do Pink Floyd. Mesmo que a faixa 2, ou o lado B do LP, acionem um riff à la Black Sabbath com Deep Purple, o lado alienado da escuta progressiva, já decadente em meados dos anos setenta, insiste em permanecer como matriz de uma escuta. Assim como, na primeira faixa do disco, somos lembrados todo o tempo, de forma insistente, que estamos diante de lagartos e volcanos, da lisergia psicodélica que já não acontecia no campo, nos espaços amplos bucólicos fora das cidades e sim, nas arenas criadas para simular essas escutas e sensações.

Ainda bem, que logo depois surgiram o punk e a disco, para nos fazer rever todos esses espaços autocentrados normativos dos jovens brancos, másculos, classe média, oriundos dos conservatórios que queriam transformar o desbunde de Hendrix e Doors, com seus erros e deslizes, em uma exibição masturbo conservatória perfeccionista.

Não que o progressivo não tenha produzido grandes momentos no rock e sim, que tal, como a trilha Lucifer Rising, da Anjo Gabriel, também é cheia de egolombras. Para quem, como eu, esperava algo próximo ao Culto Secreto do Anjo Gabriel, fica a lição. Esse ranço de ojeriza, esse desenlace de algumas facilidades da canção e suas simplicidades pode agradar aos tais ouvintes defensores de uma escuta pra poucos, pra músicos, mas essa viagem pode ser uma bad trip, reservada somente aos iniciados no mundo das pequenas tiragens que não conseguem dormir se tiverem de partilhar, para além dos preciosismos, algo com aqueles que não sentem prazer somente de sonoridades exclusivas e excludentes (ou de filmes cultuados visto por poucos e comentados por uns poucos mais).

 Publicado originalmente na 2ª edição da revista Outros Críticos.

 

Categorias

Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

Um comentário

  1. Valquíria
    25 de agosto de 2016
    Responder

    ninguém comentou, né? Pq será??? O disco é muito Phoda!!!!!!!!!! ahahahahahaha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.