Entrevista: Paulinha Xcamosa

Paulinha Xcamosa em ensaio fotográfico para Priscilla Buhr

Era final da tarde de uma sexta-feira. Paulinha Xcamosa chegou com Ton Petersburgo, seu produtor, numa bike azul, pela pista local da Agamenon Magalhães, em Santo Amaro. Enquanto a gente esperava os carros passarem pra atravessar a avenida, ela contou que muita gente já morreu ali, tentando atravessar. “Mas ninguém se importa não”, comentando a ausência de faixa de pedestre. Quando a gente chegou na Fábrica Tacaruna, um youtuber famoso filmava dançando passinho. Do outro lado, uns meninos cantavam um brega, quando a gente começou a fazer as fotos e curiosos perguntaram quem era. “É Paulinha Xcamosa”, gritou Ton. “Eita ela que canta ‘Vem sozinha’ né? A pihha é loka” um dos meninos respondeu! O brega funk tava ali, pulsando, vivo, nas ruínas de um dos espaços mais incríveis da nossa cidade. “Podia ter tanta coisa legal acontecendo aqui, né?”. Mas naquela tarde aconteceu: uma conversa e uma sessão de foto com uma mulher cheia de sonhos, de sorriso fácil, que pisa firme no chão e não alivia: Paulinha chega, ela acontece, não passa despercebida e quando canta, vira rainha, a Rainha do Brega Funk. Essa é Paulinha Xcamosa, 23 anos, olindense com o DNA de Santo Amaro, do beco dos casados, uma mulher que não dá pra definir com uma frase simples, nem texto rebuscado. Paulinha é mulher que tem que se olhar nos olhos e ouvir o que ela tem a dizer, porque ela tem muita ideia na cabeça. Em 10 anos de carreira, de muito corre e batalha, ela encara de frente, mas não sem emoção, as dificuldades e responsas de ser mulher, dentro de uma cena em que homens, tradicionalmente, subjugam e estereotipam seus corpos e suas vidas.

Priscilla Buhr

Priscilla Buhr entrevista Paulinha Xcamosa

Priscilla Buhr: Como começou sua relação com a música?
Paulinha Xcamosa: A música surgiu na minha vida, quando eu tinha treze anos, assim, né, profissionalmente. Participei de uma banda, junto com dois amigos meus, mais uma brincadeira, mas a coisa foi crescendo, outra pessoa me chamou pra outra banda, onde eu tive o prazer de estar por três anos. E aprendi muita coisa, sabendo realmente o que era o movimento brega, o que era show, o que era entrevista, o que era televisão, aprendi muito, então, foi muito bom pra mim esse começo.

Priscilla: E como é esse teu processo de criação e produção das tuas músicas? Você participa ativamente de todos os momentos?
Paulinha: Eu escrevo minhas próprias letras. Eu mesma consigo ajeitar os arranjos, vou lá, converso com o DJ, “olha eu quero assim, faz assim”. Eu não sabia fazer nada de produção musical, né? E aí eu comecei a estudar pra poder aprender e ter autonomia, porque até então era mais participação com a galera. Então, eu me senti na obrigação de querer aprender a escrever, de estudar, de entender como tudo funcionava, porque era aquilo que realmente eu queria pra minha vida. Hoje eu faço as minhas letras, eu mesmo faço os arranjos das minhas músicas. Quando eu chego pra gravar, já tá tudo certo na minha mente, chego e já digo “eu quero isso, faz isso, junta isso com aquilo”, tenho segurança no que tô fazendo, hoje me sinto uma artista completa.

Priscilla: E quando nasceu de fato a Paulinha Xcamosa?
Paulinha: Foi bem engraçado como surgiu a Paulinha Xcamosa na verdade, né? Eu cantava romântico, aí tinha parado, tinha desistido, não queria mais e decidi fazer o meu nome: Paulinha Pérola, onde eu era MC, ainda cantava romântico, mas cantava de um tudo. Só que aí surgiu a oportunidade de gravar a música, “Vem Sozinha” e foi o maior sucesso, mudou tudo. E a galera começou a me chamar de escamosa, onde eu chegava era “Escamosa! Paulinha! Escama!”… Então, na verdade, quem me nomeou foi a galera. E eu abracei, com toda a força do mundo e gostei muito, porque era uma coisa que eu sempre quis fazer, sempre quis ser MC. Quando eu cantava na banda, eu já tenho um bloco com o meu repertório, onde eu cantava funk, e assim foi acontecendo e, hoje, eu sou a Paulinha Xcamosa.

Foto: Priscilla Buhr

Priscilla: Dentro do universo da música brega normalmente se aceita as mulheres cantando romântico, a mulher tem que ser a mulher sonhadora, a mulher que idealiza, mas quando ela assume o seu desejo, se coloca como dona do seu próprio corpo nasce o preconceito. Fala um pouco como é encarar isso?
Paulinha: Tem esse proibido, as mulheres não têm a chance de se expor verdadeiramente, dizer o que sentem, como sentem, da maneira que querem. É muito complicado, eu luto pra fazer uma letra que agrade todo meu público, eu falo pros homens o que eles falam pra nós mulheres, eu tento passar isso pra galera, passar isso pra mulherada, que a gente também pode, que a gente tem que se empoderar, que a gente também pode falar o que a gente sente, o que a gente é e sem ter vergonha. É a oportunidade que eu tenho de soltar minha voz e falar por muitas mulheres que estão caladas, que tem vergonha por medo do preconceito. E a gente tá aí na luta pra acabar com isso e uma hora vai chegar, é só a gente não desistir.

Priscilla: Como é ser mulher dentro do brega funk?
Paulinha: É muito difícil. O preconceito grita e o grito do preconceito é muito alto. Mas se a gente não tentar, se a gente não querer, não se colocar, não se esforçar, se dedicar, ninguém vai abrir espaço só por abrir. A gente tem que mostrar que a gente tá ali pra quebrar mesmo essas barreiras. É difícil a mulher no movimento, um exemplo, a gente chega num estúdio, vai gravar um som, o produtor musical não trata a mulher da mesma forma que trata o homem, você vai gravar a letra e o produtor já não gosta da letra porque ele entende que a gente tá minimizando o homem, ou num show, se a mulher for abrir um show de algum homem o público se afasta. A mulher é vista mesmo como um objeto, só interessa se chegar e rebolar a bunda. Mas se ela chega com uma ideia muito quente, muito forte e eles sentem a firmeza, eles não gostam, eles recuam. Esse preconceito é muito grande no movimento, e muita gente de dentro tenta abafar, tenta privar as mulheres que chegam com voz, que chegam empoderadas.

“você vai gravar a letra e o produtor já não gosta da letra porque ele entende que a gente tá minimizando o homem”

Priscilla: E o que você acha do teu público feminino te tendo como exemplo de empoderamento?
Paulinha: Eu sinto sim, muita gente fala, muita gente chega em mim “Paulinha, eu me espelho muito em tu, eu gosto muito das ideias que tu dá, eu me tornei MC por tua causa, eu comecei a gostar de brega funk por tua causa. Tem muito isso e eu fico muito honrada porque eu acho que eu tô fazendo um papel que muitas queriam fazer, mas não tem coragem ou oportunidade. Depois que eu virei MC, que eu me coloquei no movimento, apareceram muitas meninas também querendo ser MC, me agradecendo pela minha força, pela minha vontade e eu acho isso muito bom, só fico muito feliz.

Priscilla: Fala um pouco da relação do corpo, da dança dentro da tua música.
Paulinha: O brega funk é livre, é sensualidade e eu tento sempre mostrar isso: qualquer pessoa é livre pra dançar, pra se expressar da forma que quiser. O passinho tá essa febre toda, todo mundo conhece e as mulheres dançam da mesma forma que o homens, junto com os homens e eu acho isso muito top, é muito forte e tá quebrando uma grande barreira da mulher não ser só um objeto no brega funk. O brega funk é isso, eu vejo gente de idade dançando, gente de todos os gêneros, e principalmente crianças, eu acho isso muito massa, elas abraçaram, sentem o peso do brega funk, o que é o brega, a gente ver o brega se expandindo mundo a fora com a dança e isso brilhou muito nos olhos das crianças.

“O brega funk é isso, eu vejo gente de idade dançando, gente de todos os gêneros, e principalmente crianças”

Foto: Priscilla Buhr

Priscilla: Existe uma recepção diferente do público quando a mulher é vocalista, MC, compositora e além de tudo dança?
Paulinha: É muito diferente. Quase sempre os MCs usam o corpo da mulher como inspiração pra suas músicas que diminuem a gente. E quando a gente dança muita gente acha que a gente tá se vendendo ali. Mas a MC mulher primeiro pensa na música e só depois entra a dança e a gente usa o próprio corpo como uma forma de se empoderar. A gente tá dando uma real cantando e tá dançando também. E isso incomoda.

Priscilla: Se você pudesse fazer um outdoor pra dizer pra todo mundo quem é Paulinha Xcamosa, o que você diria?
Paulinha: Primeiramente, eu queria dizer que eu sou a Rainha do Brega Funk. Muita gente não sabe mas depois que eu gravei a música “Vem Sozinha” uma galera tentou me esconder, depois que a música explodiu, tiraram meu nome da música, tiraram minha foto da arte, tentaram me abafar, mas aí minha voz explodiu tudo e eu sou a rainha do brega funk graças a essa música. Sou a primeira MC de Pernambuco, sou compositora, produtora musical, empresária e que vem muita coisa boa por aí ainda, eu não vou parar, eu sou tudo isso e muito mais e espero que muita gente possa abraçar meu trabalho.

Fotos: Priscilla Buhr


Entrevista originalmente publicada na edição 13 da Revista Outros Críticos. Baixe gratuitamente:
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Priscilla Buhr Escrito por:

Fotógrafa, aquariana, feminista e mãe de Artur. Não necessariamente nessa desordem. Uma mulher que se olha no espelho, sem salva-vidas.

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