Visões musicais de Steve Lacy

 photo steve_lacy_by_guy_le_querrec_zpsd2eae509.jpg
Foto: Guy Le Querrec

Saxovision

We don’t determine Music

The music determine us

We only follow it

To the end of our life

Then it goes on without us

It Begs to be born and,

Wants to go it’s own way

We just make it up

And : then we let it out

Music speaks for itself

And needs no explanation

Or, justification

Either it is alive

Or it is not

(Steve Lacy, 1994)

 

Conheci Steve Lacy (1934 – 2004) em meados de 2007 através da antiga comunidade do ortkut Jazz Brasil. Foi uma revelação. Continua sendo. Chamou-me a atenção, primeiramente, como instrumentista, depois como improvisador, compositor, pensador e, finalmente, como personagem; a sua história e escolhas são fascinantes. É uma das vozes musicais que mais admiro entre as que já pisaram no planeta terra. Esse é um artigo em homenagem aos 10 anos do seu desaparecimento, que foi em 04/06/04.

Lacy foi o primeiro instrumentista ligado ao jazz que se dedicou inteiramente ao saxofone soprano. Sidney Brechet, inspiração de Lacy para tocar esse instrumento, utilizou o soprano antes dele, porém, além do soprano, este também se dedicava ao clarinete. Como exemplo do impacto dessa escolha, é sabido que John Coltrane passou a utilizar o soprano apenas após conhecer a música de Lacy. Ele iniciou a sua carreira aos 16 anos, no estilo chamado de Dixieland, tocando com os grandes músicos desta corrente (Pee Wee Russel, Cecil Scott, Rex Stewart etc) e passando por todas as suas principais escolas: New Orleans, Chicago, St. Louis. Após esse período, ele é chamado por Cecil Taylor (com quem ficou de 1953 a 1959) para integrar o seu grupo. Ele não tinha ideia do salto que estava dando, para ele foi uma troca natural, mesmo que percebesse que Cecil Taylor estava-o “colocando no fogo” com a sua nova música.

 “What i learned with Cecil Taylor was strategy and survival and how to resist getting discouraged”*

“Look Lacy, nevermind things, go for the thing (Cecil Taylor)”

Através de Cecil Taylor, ele descobre aquele que seria a sua principal referência musical para toda a sua vida: Thelonious Monk. Taylor também lhe mostrou a música de Bartok, Stravinsky, entre outros. Steve Lacy foi o primeiro músico a dedicar um álbum inteiro com composições de Monk (Steve Lacy – Reflections). Obstinadamente aprende todas as músicas deste e chega a tocar no seu quarteto por 16 semanas (ampliado para quinteto por este período). Segundo Lacy, as músicas de Monk eram um material perfeito para ele poder estudar e mergulhar fundo, suficientemente complexo e aberto para permitir a apropriação necessária dele e para manter o apetite musical. Ele sempre repetia da importância de manter este apetite. Além do material musical das músicas de Monk, outro importante estudo que ele fez neste período foi o de transcrever para o saxofone todas as canções de Anton Webern. Há um famoso documento, fácil de encontrar, onde Steve Lacy anotou uma série de conselhos que Monk lhe deu. (Uma preciosidade !) Nesse período ele também inicia uma longa relação musical com Gil Evans que só termina com a morte deste.

No início dos anos 60, ele monta junto com Roswell Rudd (trombone) um grupo dedicado apenas às músicas de Thelonious Monk. Esse grupo seria futuramente chamado de School Days, período determinante, segundo Lacy, pois eles puderam por alguns anos aprofundar e realmente entrar dentro da música que eles queriam. Em entrevistas ele enfatizava que era necessário lutar para poder tocar o que queremos. Tocar é uma posição política. Não há como separar a poética da política. A maior parte dos concertos feitos por este grupo eram organizados por eles próprios.

 “Before the work comes to you, you have to invent work”

“If you have music you want to play that no one asks you to play, you have to go out and find were you can play it. It’s called : do or die”

 photo 1_zps75d17801.jpgO saxofonista Evan Parker, em entrevista, relembra ter visto esse mítico grupo na sua primeira ida a Nova York e que Steve Lacy introduzia os concertos com algo assim : “Somos um grupo que aceita pedidos…(estranhamento da plateia)… vocês podem pedir qualquer música de Thelonious Monk”. Evan Parker prontamente pediu umas das mais difíceis: “Four in One”. E prontamente o grupo a tocou em uma versão, segundo Parker, incrível! No final da vida de Lacy eles retomaram esse grupo com nova formação, segue uma amostra :

Em 1965 ele sai de Nova York. Não havia mais trabalho para a música que ele queria fazer. A pressão comercial era grande demais. O estopim para essa decisão foi terem lhe oferecido um contrato para gravar um disco de easy listening tocando uma versão jazzística das 4 estações de Vivaldi. Era demais para alguém com personalidade e visão artística como Steve Lacy. Ele toma uma decisão radical e vai tentar a sorte na Europa, primeiro na Itália, onde fez parte do MEV, e depois na França, onde se instala em 1970, morando neste país até 2002. A principal produção musical de Steve Lacy acontece durante esse período na França. O seu principal grupo é seu sexteto (às vezes quinteto) com voz/violino, contrabaixo, bateria, dois saxofones e piano:


Nesse grupo podemos ver a extensão do universo musical de Steve Lacy. Escutamos referências a diversas tradições musicais, indo muito além do jazz. Em “Prospectus”, por exemplo, Irene Iebi (vocais) canta de uma forma muito próxima à operística. “Prospectus” é o resultado de Lacy musicar um poema de mesmo nome de Blaise Cendrars,além disto, é uma música totalmente construída com notas da tonalidade de Dó maior, porém organizada de uma forma não tonal. Como Lacy enfatizava, Dó pode ser infinito!Ele compôs dezenas de canções durante toda a sua carreira. Entre outros, ele musicou poemas de Apollinaire, Brion Gysin, Samuel Beckett, 10 peças do Tao Te Ching, diversos Haikus etc.

“Art é uma das minhas composições favoritas e foi escrita sobre um poema de Herman Melville:

Art

In placid hours well please we dream

Of many a brave unbodied scheme

But form to lend, pulsed life create

What unlike things

Must meet and mate,

A flame to melt, a wind to freeze

Sad patience, joyous energies ;

Humility, yet pride and scorn

Instinct and study ;

Love and Hate

Audacity reverence

These must mate,

And fuse, with Jacob’s mystic heart,

To westle with the angel

Art

(Herman Melville)

Além de poetas, Steve Lacy trabalhou com escultores como Alain Kirili e bailarinos como  Simone Forti, Pierre Droulers, Sheela Raj e Shiro Daimon. O pianista Danilo Perez conta que antes de um concerto, ele foi com Lacy para um exposição de quadros e Lacy lhe disse : “Hoje à noite pintaremos quadros sonoros”. Após assistir um concerto solo de Anthony Braxton no início dos anos 70, Steve Lacy resolve também se arriscar nessa formação, gravando e realizando centenas de concertos solos ao longo da sua carreira. Na minha opinião, as gravações solo de Lacy talvez sejam as mais profundas da sua carreira. Nelas podemos escutar bem a sua forma particular de lidar com o som, sua imensa gama timbrística e de dinâmicas. E, sobretudo, a forma com que ele lida com o tempo e espaço sonoro. Como ele alarga as formas e muitas vezes parece flutuar. São gravações de uma poética incrível, com muita sutileza e uma enorme riqueza de detalhes.

Outra das grandes formações que Lacy trabalhava era em duo com o pianista também americano e radicado na Europa Mal Waldron (1925 – 2002). Juntos resultavam em uma combinação espetacular. Em seu repertório eles tocavam, sobretudo, Thelonious Monk e composições próprias. O espaço sonoro e a interação desse duo são únicos.

Eu poderia comentar várias outras músicas e colaborações que ele realizou na sua carreira.

“I think it is in collaboration that que nature of art is revealed”

Porém, para concluir, falarei um pouco do método de saxofone que Steve Lacy lançou em 1994. Findings (ed. Outre Mesure) é um método (acompanha um cd) para saxofone soprano bastante incomum. Sou guitarrista e violonista, porém, na minha opinião, o método de instrumento mais interessante e com o qual mais aprendi foi desse livro de Steve Lacy. São várias sugestões, é um catalogo de ideias, de formas de praticar escalas, arpejos, intervalos, ritmo, dinâmica, técnicas estendidas, sugestões para escutar o próprio corpo e a natureza. Vêm também com transcrições de algumas das suas composições e de alguns improvisos gravados especialmente para este livro, além de alguns estudos para saxofone solo. O principal, a meu ver, é a poética e a maneira sugestiva com que ele demonstra o material. No prefácio do livro, Lacy já nos deixa claro que nada nele é absoluto. Totalmente condizente com a sua forma de compor e improvisar. A atenção que ele dá para a preparação, a importância do tempo que deve ser gasto com a música. Trabalhar minuciosamente o som e o material. Que é fundamental trabalhar com limites. Que um simples intervalo entre B e C é um universo infinito passível de exploração por toda a existência.

“You have to sound sad first, than maybe later you can sound good”

“Play difficult and interesting things. If you play boring things, you risk losing your apetite”

Ele nos deixa claro que há dois tipo de jazz: o ofensivo e o defensivo. Todas as mudanças nessa música foram feitas por músicos “ofensivos”. Obviamente, houve e há ótimos músicos defensivos, porém não inovadores. Nos aconselha a escutar os grandes músicos, a não aplaudir música ruim e sair da sala de concerto assim que você perceber a pobreza desta, antes que você se sinta obrigado a vaiá-la.

“Risk is at the heart of jazz. Every note we play is a risk”

Frédéric Rzewski nos conta que nos anos 60, na época do MEV, ele perguntou para Steve Lacy para este explicar em 15 segundos, qual era a diferença entre composição e improvisação:

“The main difference is that in composition you have all the time you need to think about what you are going to say in fifteen seconds, whereas when you improvise you only have fifteen seconds to say what you want to say”

* Todas as citações não referenciadas são de Steve Lacy, optei por mantê-las em inglês, elas foram extraídas de entrevistas suas ou do seu método Findings.

Share Button

Categorias

Fred Lyra Escrito por:

Musicólogo e doutorando em filosofia na Universidade Lille 3.

seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.