Velhos hábitos, novas formas de consumo da música

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O músico Graxa e o designer Mabuse (Da esquerda para a direita). Foto: Renata Pires

por Raquel Monteath.

Lá no início da década de 1990, o vinil fez sua mochila e saiu para passear. Deu uma voltinha por aí, achou esquisito ver suas belas capas de quase 30 cm serem resumidas aos 12 cm dos CDs, mas foi paciente. Sabia que voltaria, mais cedo ou mais tarde, assim como no cíclico mercado da moda. Resistiu nas casas de taco de madeira no chão e azulejos antigos, dos mais saudosistas, daqueles que cantam as músicas dos lados A e B em sequência. Não é novidade alguma que, após esse hiato de mais de 20 anos, o formato foi ganhando cada vez mais notoriedade e representa hoje um crescimento – ainda que tímido – no gráfico do consumo mundial da música. Só no ano passado, o Reino Unido movimentou cerca de 700 mil unidades, segundo dados da The British Recorded Music Industry(BPI), uma das principais associações da indústria fonográfica. O fato simbolizou o melhor resultado de vendas nos últimos 12 anos, e quem liderou a lista foi o duo francês Daft Punk, com o seu álbum Random Access Memories, lançado em 2013.

Do lado de cá, a crescente procura por vinis pode ser percebida em certos nichos de consumo, como feiras e sites especializados, sebos permanentes e megastores. Até a Polysom, única fábrica da América Latina (situada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro) reabriu as portas em 2009, diante da crescente procura do público, relançando álbuns raros, como o homônimo disco de estreia de 1973 dos Secos & Molhados, além de lançamentos, como o álbum Efêmera, da cantora Tulipa Ruiz. E a aposta esteve tão certa que a empresa alcançou, em 2013, um crescimento de 140% na produção com relação ao ano anterior. “O que vemos como um ressurgimento do disco de vinil é um fenômeno de nicho, são pessoas que querem manter uma relação material sobre a música. É bom lembrar que quando você compra um álbum no iTunes ou um livro no Kindle você está adquirindo uma licença de uso, que é bem diferente de um produto físico, que posso, por exemplo, deixar para meus filhos e netos”, comenta o músico e designer H. d. Mabuse.

“[…] temos vários caminhos para uma produção criativa, seja ela analógica ou digital. Desde que se entenda a produção como parte fundamental do processo musical, não acredito em uma diferença de valor.” – H. d. Mabuse

Pensando na discussão – e interferências – entre o digital e a cultura desde a época do Manguebeat, Mabuse criou em 2002, junto a artistas, músicos e programadores, o coletivo Re:Combo, que apesar da curta duração, incitou importantes debates sobre a cultura livre e os direitos autorais na internet. À época de sua criação, o coletivo chegou a realizar jam sessions via rede, inspirando projetos de colaboração coletiva de música. “É curioso ter em mente: na mesma medida em que uma opção estética (na música) leva a uma forma de produção, quando se mergulha na vertente escolhida, as suas características intrínsecas modificam a música (o meio é a mensagem). Para mim, isso significa apenas que temos vários caminhos para uma produção criativa, seja ela analógica ou digital. Desde que se entenda a produção como parte fundamental do processo musical, não acredito em uma diferença de valor”, afirma.

É impossível pensar essa produção desassociada à nova dinâmica que a internet passou a nos fornecer. Para o músico Claudio Nascimento, grande parte da sua influência deve-se também à rede. “Como aprecio música rítmica, o vinil é uma delícia, principalmente se o equipamento for de alta fidelidade. Mas a música é o que realmente importa, o formato é secundário. Acho massa o MP3, se estiver em sua qualidade máxima e com bons headphones ou monitores. O formato FLAC é ainda melhor. Inclusive sites como o Deezer eu acho extraordinários, já que poupam tempo (de baixar) e espaço no HD”, diz, referindo-se ao site francês de streaming musical, cuja filosofia consiste em compartilhar playlists pessoais entre amigos, como uma ‘rede social’ específica em música. “Se eu tivesse em vinil os discos que eu baixo, acho que nem teria espaço para guardá-los”, conclui Claudio. Além disso, à exceção do CD homônimo de sua banda experimental Chambaril, lançado em 2005, seus três outros trabalhos: Familiar (2008), Trilogia do Caos – O louco, O enforcado, A morte (2010) e Claudio N (2012) foram lançados inteiramente on-line e podem ser baixados gratuitamente.

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Projeto gráfico de Juliana Pontual.

Por outro lado, é possível que as facilidades de produção, distribuição e armazenamento da música na sociedade hiperconectada que vivemos possa ter instaurado certa urgência quanto à materialidade do vinil, aliado a um forte fetiche de consumo pela áurea “vintage” que ronda o formato. Para os músicos Graxa e Stela Campos, que acabaram de lançar seus respectivos Molho e Dumbo em vinis, o consumo da música de radiola vem de um costume da infância, de épocas em que saber a sequência exata do lado A ou B era de praxe. “Gravar em vinil é um sonho antigo. O LP não só tem um apelo visual muito especial, como também dá a possibilidade do artista pensar em canções para cada lado. Essa divisão de repertório fez todo sentido em Dumbo – precisei cortar quatro faixas, mas o resultado ficou bem mais coeso, certeiro”, comenta Stela, que decidiu apostar de vez no formato após ver o resultado do projeto gráfico de Juliana Pontual reduzido na prova do que seria o CD. “Foi brochante”, conta ela, que também lançou o disco no iTunes. “Ao mesmo tempo, a gente vem observando as tendências, claro. O CD é uma mídia muito desvalorizada. Ninguém coleciona mais – a coisa de pegar o disco físico, mergulhar na arte e nas letras durante a audição, transferiu-se toda para o revival do LP”, complementa.

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Projeto gráfico: Fernanda Maia

Reconhecer a importância dessa memória afetiva fez com que Graxa também optasse por lançar o seu Molho num alaranjado bolachão de 12’’, além do lançamento virtual no Soundcloud, que ele fez em duas etapas – como nos dois lados do disco. “Quando eu era guri, gastava minha grana com livros, vinis e bebidas”, brinca o músico, “mas isso é uma questão de costume, de educação para esse tipo de audição. Tem guri que nem vai se ligar no que eu estou dizendo porque foi ou está crescendo educado a escutar outro tipo de mídia”, diz o músico.

Talvez o que tenha incomodado esses e tantos outros artistas que resolveram lançar, simultaneamente, seus trabalhos on-line (em downloads free) e fisicamente (em vinis a preços mais salgados), seja o fato de que se produz muito, e aleatoriamente, no ciberespaço: recebemos e deletamos informações quase sem nos lembrarmos do que aconteceu nos últimos 20 minutos; está tudo visível e ao nosso alcance até quando torna-se invisível por uma tela desligada de computador ou do dispositivo móvel.

Seja lá qual for o jeito que se vai consumir uma música, o mais importante é que essa não fuja ao seu processo catártico. Ao invés de procurarmos grandes vilões nessa história toda, é importante considerar a coexistência dos tipos de consumo e produção, sejam eles analógicos ou digitais. As infinitas playlists disponíveis on-line nos oferecem uma nova postura diante da produção fonográfica: a de encarar que as fronteiras praticamente inexistem, são elásticas, e que você, enquanto receptor, é curador do que quer escutar. Adquirir o palpável disco de vinil ocupa, então, outra atmosfera, da subjetividade, do gosto, de um preciosismo – mas sem o peso exato da palavra: é como entender as particularidades de se produzir e consumir fotografias digitais e analógicas. A coexistência de suportes até que se apareça um terceiro, uma novidade. Seja ele qual suporte for, a criatividade humana saberá se manifestar e, se for sábia, extrair dessa produção o que de melhor tiver, sem precisar mandar nenhum formato para passear.

Publicado originalmente na 2ª edição da revista Outros Críticos.

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Raquel Monteath Escrito por:

Jornalista. Trabalha na TV Brasil.

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