Uma resenha para sábado passado e uma reflexão sobre a vida noturna embalada por música ao vivo

 photo camarones-olinda_zpsdaeb277a.jpg

por Guilherme Gatis.

Sábado passado: Raybans e Camarones Orquestra Guitarrística no Solar da Marquesa

O Raybans é formada por fãs de rock oriundos de bandas de décadas passadas. Segue a escalação que eles prepararam para o último sábado: Nicola Sultanum (vocal, também membro da banda Cassady), Marcelo Gomão (guitarra, First Corinthians, Vamoz e Supersoniques), Gerardo (bateria, Badminton e Supersoniques), Djalma Rodrigues (guitarra, AMP e Cane) e Adriano Leão (Trumps).

É uma banda-de-covers, mas a explosão da execução das músicas, a secura visível desses músicos rodados em tocar Clash, The Sonics, Bowie, Chuck Berry e Kinks, e mais alguns outros, fazem o rock falar alto e tornam o Raybans uma daquelas bandas que “sempre valem a pena ver”. No solar da Marquesa, o som foi alto, muito, muito alto, ensurdecedor. E, por isso mesmo, valeu a pena ouvir os caras tocando. Especialmente “Cecilia Ann”, do Pixies. A música, instrumental, é daquelas que quanto mais alto, melhor (ainda que a “cavalgada” de Nicola tenha desviado um pouco a atenção).

 photo raybans_zpsf084354f.jpg
Raybans/Divulgação

Já o som da Camarones Orquestra Guitarrística estava mais baixo e melhor equalizado. Dava para ouvir bem os timbres da guitarra e os ruídos do teclado de Anderson Foca. A banda de Natal, que está em turnê pelo Nordeste, já tocou por aqui em festivais como o Rec-Beat e o Festival de Inverno de Garanhuns, e sempre causou impacto positivo com sua música, que é “primeiro rock, depois instrumental”, como comentou Foca, que além de teclado e efeitos, também toca guitarra. A banda ainda conta com a carismática baixista Ana Morena, o guitarrista Fausto Alencar e o baterista Yves Fernandes. Os dois últimos fazem parte da formação 2014 da Camarones.

Camarones no palco não decepciona. Peso com pegada pop bem dosados, junto com uma performance bem executada. Música pra dançar, pra acompanhar a marcação da bateria com o pé ou com a cabeça, pra sentir a vibração do baixo batendo no peito que contagia tanto quanto o sorriso de Ana, ou chapar com os ruídos e efeitos surfista-futurista-espaciais. No blog da Camarones, Foca disse que o show foi o melhor de 2014. Banda muito boa, azeitada e instigada. Uma pena que a eles tenham vindo para cá tocar para (quase) ninguém.

Com experiência e competência, a Camarones roda o país inteiro de maneira independente e competente. Exageros de Nicola à parte, que terminou o show do Raybans dizendo que vinha logo depois a maior banda do Brasil, estava ali, de fato, para um público mínimo (30, 40 pessoas?) um dos grandes nomes do rock alternativo nacional. A segunda parte desse texto vai tentar problematizar essa questão do público local com as apresentações ao vivo. Em certa medida, há um diálogo com o texto de Rafael de Queiroz, sobre a apresentação do Digital Dubs, do Rio de Janeiro, uma referência nacional no gênero,  que também não teve resposta quantitativa positiva de público.

Música ao vivo e vida noturna na Cidade

No último final de semana tivemos diversas atrações ao vivo na Cidade (por Cidade, entenda-se Recife/Olinda/Jaboatão). Na sexta-feira, no Estelita, a Bande Dessiné fez um show para lançar seu novo videoclipe. Também na sexta-feira, no Boca da Mata, uma série de bandas covers tocaram versões para clássicos do Reggae e músicas de Tim Maia. Já no Sábado, a banda Pé Preto abriu os trabalhos da festa Agito Pesado, e também rolaram esses shows comentados acima, no Solar da Marquesa. No domingo, o Santo da Casa Faz Milagre estreou o projeto Coletivo Rádio Orquestra.

Novos espaços focados em shows e apresentações ao vivo estão modificando, aos poucos, o perfil da vida noturna da Cidade. Se em 2012, espaços como o Edf. Tebas, o Francis Drinks, a cobertura do Edf. JK, o Acre e diversos outros aglomeravam muita gente que procurava nas festas apenas diversão e alguma boa seleção musical comandada por DJs e botadores de som, 2013 foi o ano em que a tragédia de Santa Maria mudou as regras do jogo e “estourou” a bolha da esquizofrenia noturna.

Nesse vácuo, abriu-se a lacuna que faltava para que as bandas autorais e/ou de covers precisavam.  Parece ser 2014, novamente, um ano bom para quem faz/trabalha com música de maneira independente. Se essa leitura parece forçada, sugiro que você clique lá na área de Eventos do seu Facebook. Confere a agenda desse ou dos próximos fins de semana: além das prévias e diversas atividades ligadas ao Carnaval, haverá, certamente, várias bandas querendo mostrar seu som. Mas mostrar para quem?

“O que faz o público daqui não se interessar por um nome relevante da cena alternativa nacional?”

Como tentar justificar o vazio do show da Camarones? Problemas de divulgação? Concorrência com a Noite do Agito Pesado, que lotou a Casa da Mãe Joana? Desconhecimento/desinteresse em ver uma banda de fora tocando música instrumental? “Pra que ver pagando o que posso ver de graça”? O que faz o público daqui não se interessar por um nome relevante da cena alternativa nacional?

Ainda que os espaços estejam abertos e o ambiente seja favorável, a vida noturna da Cidade ainda é muito volátil e depende de diversos fatores que, combinados, podem (ou não) determinar o êxito de uma noite com shows musicais. O principal deles é, ainda, a falta de cacoete para a música ao vivo. Quem antes estava hipnotizado pelas luzes brilhantes e as trilhas sonoras manjadas do som eletrônico, combinadas com altas doses de paquera, drogas e bebida, agora precisa saber onde e como se postar diante de pessoas empunhando instrumentos musicais para tocar o desconhecido, o novo, o inusitado.

Para a maior parte do público que comparecia nas festas em 2012, ir para um show e ver uma banda tocando é algo tedioso, “chato”. Há os que curtem tanto os shows quanto ficar louco com som mecânico, claro, mas arrisco dizer que o público dos shows das bandas ditas alternativas ainda está se formando e pode, dependendo de como os processos forem conduzidos, aglutinar mais gente, trazer para a rua quem não costuma usufruir da vida noturna da cidade.

Por isso, é muito importante este movimento – a pauta fixa no Solar da Marquesa, as opções abertas pelo Estelita, as produções que movimentam o Boca da Mata, os domingos do Catamarã ou os Crimes no Iraq. Já há espaço para trazer de volta a opção da música ao vivo. Falta saber traçar de forma mais segura as estratégias de sedução do público.

“Temos já um esboço de uma cadeia produtiva engrenando possibilidades de visibilidade para a nova música (bandas, técnica, público, crítica)”.

Ok, ainda vai aqui mais um último comentário: citei bandas e espaços, mas há uma terceira base que compõe esse tripé dos shows ao vivo: a técnica. Seja no Boca da Mata, Solar ou Iraq, há, ali, gente que está trabalhando para viabilizar tecnicamente as apresentações. Os técnicos de som, os roadies e a produção das bandas (quando não são os próprios músicos que acumulam essa função) são parte fundamental nessa cadeia. Temos já um esboço de uma cadeia produtiva engrenando possibilidades de visibilidade para a nova música (bandas, técnica, público, crítica). Que esse desenho saia do papel e ganhe vida autônoma. Mesmo que, para tanto, outros Camarones percam-se nos vazios de público. O vazio também faz parte do processo.

Foto de capa: Camarones Orquestra Guitarrística – Diego Marcel

Categorias

Guilherme Gatis Escrito por:

Jornalista e DJ.

3 Comentários

  1. 7 de fevereiro de 2014
    Responder

    Ficou massa o texto :)

    Eu só acrescentaria uma impressão particular: na verdade nunca teve público para show de rock aqui em Recife. Se pegar por onde Gomão já passou, por exemplo, nos shows do Badminton, passando pela Vamoz, até o do Raybans, o montante de pessoas sempre foi o mesmo (e sempre foi pouca). Já vi um show da Vamoz + Amp no Burburinho que tinha a minha mesa, que era a dos amigos da banda, e mais duas mesas com gente.

    Mesmo de bandas mais pop’s, como o Matanza, não chega a um público expressivo (não chega a dar para cobrir todos os custos). A exceção é a cena do metal, que tem bastante gente e o ocasional hardcore (quando rola um Dead Fish, etc). Mas um APR movimentado dá uns 3 mil pagantes, em média, e isso pq juntando Metal + HC + Bandas internacionais e público do Brasil inteiro.

    Não é por acaso que a cidade também tem pouca banda rock dentro desse perfil. E as que tem acabam rápido também. Recife não é uma cidade muito roqueira. :) Ah… No dia também teve Orquestra Contemporânea de Olinda, em festa de prévia de Olinda. R$ 50, ingressos esgotados.

  2. 9 de fevereiro de 2014
    Responder

    Eu concordo com muita coisa que foi escrita nesse artigo e com comentários do Bruno mas, vale ampliar um pouco mais a conversa. O Vamoz por exemplo passou 7 anos em plena atividade, no começo, 2003 colocávamos facilmente 150 pessoas num show, e haviam muitos outros shows e bandas que tinham esse mérito, depois a “coisa” foi esfriando. Também existem ondas, épocas pra tudo e isso é normal. Se voltarmos um pouco mais no passado o Supersoniques e o River Raid já praticamente esgotaram os ingressos no Downtown e as pessoas, acreditem, cantaram parabéns pro Supersoniques e cantavam as músicas, alto! Essas bandas eram pop? Havia algum outro tipo de incentivo? Não que eu me lembre, mas a gente colocava roupas de lixeiro e saiamos planfletando a cidade inteira por semanas… hoje as coisas são diferentes, adaptações… Numa época André Frank liderou um projeto fantástico chamado (Unidade Móvel) onde Astronautas, Supersoniques, Expresso 48 e Habagaceira com a ajuda de amigos importantes como Teta e Mônica lotaram lugares com o projeto. Na noite haviam 4 bandas com shows curtos, vídeo, curtas, fotografia, exposições… enfim. O que Filipe Barros, comentou também está certo, nós (todos envolvidos sem exceção) devemos fazer mais, movimentar, promover, prestar atenção na qualidade, no público, na estrutura, na divulgação e fazer valer a pena para todos, o lugar tem que ser bacana, o preço justo e o trabalho árduo, como sempre. Todos nós envolvidos já fizemos mais, e se quisermos fazer a onda rolar novamente, vamos ter que fazer mais, novamente e de qualquer forma, entender que tudo em entretenimento são ondas, elas passam, voltam diferentes… o mais difícil é permanecer fazendo as coisas em tempo de alta ou baixa. Enfim sem muita teoria ou polêmica, a noite com Camarones foi muito bacana e eu saudoso, curti demais o lugar agradável que é o Solar, as boas músicas tocadas pelo DJ, a galera animada dançando, enfim, foi massa. Espero passar mais uns bons anos fazendo e indo para essas noites de música ao vivo, boas conversas e bons dj’s… Sim, vamos nos movimentar. Olha o Estelita, os sites, os djs, muita parada rolando e se conversarmos, propusermos, as coisas acontecem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.