Um beijo para quem ama “Volta”

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por Thiago Soares.

Quando terminei de ouvir Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!, lembrei logo de um show de Johnny que fui num inferninho do Recife Antigo, ele ainda Candeias Rock City, aquela profusão de rebeldia no palco, pensei comigo “Johnny é foda” ou algo como “Johnny vai acontecer”. Lembrei dessa noite porque música tem algo de energia, algo que vaza, algo que borra e turva. E que Johnny era uma neblina na cena de música pernambucana, excessivamente “hétera” (a cena), excessivamente geolocalizada, excessivamente recifense – num sentido meio pejorativo de “recifense”, sorry.

A energia de Johnny era outra. Era Recife, ok, era Recife Antigo, ok, mas era outra coisa. E lembrei do final de Onde Andará Dulce Veiga?, aquele romance policial-kitsch de Caio Fernando Abreu, em que perguntam a tal Dulce Veiga o que ela quer, o que ela quer cantar, o que ela quer para a carreira dela. E Dulce é evasiva: “eu quero outra coisa”. Johnny era outra coisa num certo Pós-Mangue, anos 2000, década de um Recife de ressaca de tanto caranguejo, tanta lama, tanto “cérebro”. Notaram que o Manguebeat não tem uma grande música de amor? Como pode? Corta.

Daí, outro show, Johnny fez um tributo a Madonna, no primeiro andar do Pina de Copacabana, aquele bar ali, em frente à estátua de Chico Science (“oh my God, look at his butt!”, imagino uma drag dublando “Anaconda”, de Nicki Minaj, em frente à estátua de Chico, perdão a heresia), num lembro de muita coisa, eu tinha bebido um pouco além da conta, mas lembro de Johnny cantando “Get Together”, de Madonna, numa versão estranha (nem gostei na ocasião), mas tudo isso, esse delírio tropical, autorreferente e reflexivo veio porque ouvi “Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”, e pensei: é a hora de Johnny ou aquele trecho de Ana Cristina César (é ela?) “é agora, nessa contramão”.

Johnny Hooker estava na contramão de uma cena. Talvez a rebeldia excessiva de Candeias Rock City fosse o incômodo dele com a coisa toda, com estar e não estar. Daí achei incrível quando vi Johnny assumindo a veia pop: foi pro Multishow, reality show, o escambau, ninguém na cena do Recife se arriscou daquele jeito. Até novela rolou. E talvez fosse a coisa de esperar “enquanto eles se batem, dê um rolê”. Johnny deu. Apareceu, sumiu. Ficou fazendo o dele e esperando o momento de gritar “eu sou, eu sou amor da cabeça aos pés”. Nesse ínterim, Recife mudou: a cidade que era epicentro da música foi cedendo espaço para o cinema, virou metáfora da classe média emergente worldwide, “O Som ao Redor”, a cidade fez uma autorreflexão às avessas, expurgando o fantasma de Setúbal como este imenso entrelugar, meio azulejo de banheiro, meio porcelanato de hall de prédio, Recife se encaretou e se encapsulou nos arranha-céus que são falos de uma classe média – como diria Judith Butler – melancolicamente heterossexual. Corta.

E veio Tatuagem, veio o #OcupeEstelita, veio o brega, tipo Michelle Melo, aquele tecladinho, MC Sheldon, o embaralhamento do brega com a coisa de ser cult, veio uma certa carnavalização desse Recife-espelhado (ai que coisa mais cafona) e daí Johnny lança Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!. Chegou aquela “outra coisa” que imaginei ter ouvido ele falar da boca de uma Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu. Não tem uma música que eu não goste. Não pulo uma. Quando ouvi “Segunda Chance” pela primeira vez, fiquei assim PAM com aquele verso “pra você restou a vida que escolheu, mas pra mim, só a voz que Deus me deu”, achei tão Caetano, tão Bethânia cantando “A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa”. A voz de Johnny achou um tom que atravessa gêneros: é meio masculina, meio feminina, super ambígua, lembro de Cássia Eller, lembro de Caetano (de novo) cantando “Eu Sou Neguinha” (desculpem se não cito artistas pernambucanos, ai ai). Tem algo no disco que é uma paisagem do Recife da Boa Vista, um Recife de quem caminha na sombra, adoro a poética cafuçu de “Boyzinho” naquele baixo incisivo que emerge em “boyzinho corta o cabelo, boyzinho arranja emprego” esperando fevereiro. O Carnaval é um atravessamento, seja em “Desbunde Geral”, seja em “Chega de Lágrimas” – e já tô louco para assistir a um show de Johnny Hooker no Carnaval, alô Prefeitura!

Quando ouvi “Você Ainda Pensa?”, imaginei Johnny fazendo algo estilo “se você pensa que vai fazer de mim, o que faz com todo mundo que te ama, acho bom saber que pra ficar comigo, vai ter que mudar”, aquele Roberto Carlos raivoso, mas não, a coisa aqui é mais simples, nada de mudar o outro (ah, utopia, viu Roberto?), aqui a coisa é “você ainda pensa em mim quando você fode com ele?”. Eu sei que sim, eu sei que sim – cantei no show de lançamento de Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!, no Teatro Luiz Mendonça. E veio “Amor Marginal”, aquela entrega que me lembra demais Ney. E, para mim, uma frase que sintetiza o amor-ódio de alguém magoado do disco inteiro: “a solidão vai ser o seu castigo!”. Corta.

Um beijo para quem ama “Volta”.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: Érica Colaço

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Thiago Soares Escrito por:

Jornalista e professor da Pós-graduação em Comunicação da UFPE.

4 Comentários

  1. 14 de julho de 2015
    Responder

    “Notaram que o Manguebeat não tem uma grande música de amor? Como pode?” E Risoflora é o quê? (ok tem caranguejo/mangue no meio)

  2. 17 de julho de 2015
    Responder

    Johnny é foda e PONTO FINAL!
    O Mangue beat tinha uma música de Amor sim, uma não Várias!
    Aff esses críticos que acham que tem que escrever um livro ilustrativo “labirinti-toso” pra parecer cabeça!
    VTNC
    Johnny apaga essa merda da sua Timeline!

  3. 18 de julho de 2015
    Responder

    Adoro Jonny Hooker é o novo Ney MTOGROSSO….veio na hora….doida pra vê-lo pessoalmente.

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