Um Abril pro Rock protocolar

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Apesar da escolha acertada da grade, a sexta-feira do festival será lembrada pelo descompasso. Fotos: Marcos Hermes/Divulgação

por Guilherme Gatis.

Completar 22 anos de existência não é fácil. O feito, em si, principalmente se pensarmos que é realizado a partir de um direcionamento alternativo aos modos de difusão e execução da música, já é motivo de respeito e celebração. O Abril Pro Rock tem uma importância histórica incontestável para a música pernambucana e brasileira, e tem na sua bagagem momentos memoráveis, seja como amplificador do movimento mangue, como marco zero dos Los Hermanos ou como principal festival para metal, hardcore e demais variações de música pesada no Nordeste. O APR tem crédito e credibilidade.

O principal desafio de um festival que já formou gerações de músicos e de público é tornar-se, ano após ano, atrativo. Nomes de apelo massivo, apostas, novidades, artistas gringos, são alguns dos elementos indispensáveis para um bom festival. Pode parecer uma receita de bolo, mas certamente os ingredientes que são usados na grade do APR, como em todo festival independente (e aqui o termo serve tanto para a música quanto para o formato de produção; trata-se de um festival privado, ainda que o Abril conte com apoios do Governo do Estado e de um patrocinador master, há algum tempo, a Petrobras) são os que podem tornar o projeto viável.

Pode-se dizer que o festival montou em 2014 uma grade de segurança. O único lamento da seleção de artistas foi a falta de Karina Buhr cantando Secos e Molhados. A cantora não veio por problemas de agenda, mas foi substituída por outro nome nacional de peso, Tulipa Ruiz. Se a Cena Beto foi explorada em festivais como o FIG, Coquetel Molotov e Rec Beat, a solução de juntar todos os artistas num único show pareceu ser um caminho acertado – não tinha como o APR deixar de contemplar quem ensejou re-movimentar, principalmente a partir do segundo semestre de 2013, a cadeia musical do Recife. Renato com os Autoramas de Blue Caps, Bárbara Eugênia, um Johnny Hooker amadurecido, Sebadoh garantindo o indie pride, Felipe Cordeiro empunhando novas tendências para a guitarra, todos os nomes da grade da sexta apontavam que o festival fez escolhas acertadas.

(Cabe aqui um parágrafo em parênteses antes de continuar o texto: a noite de sábado, que reúne os grupos de rock pesado, é a de maior público do festival. De 2011 para cá, os metaleiros e fãs das diversas correntes do som pesado comparecem ao APR em um número, no mínimo, duas vezes superior ao das atrações escaladas para a sexta-feira. Caravanas de outros estados e cidades do interior fazem peregrinações para conferir nomes de destaque nacional e internacional. Neste texto, e na maioria das coberturas do festival, o dia do metal, ou, como já se convencionou chamar, a noite dos camisa preta, é relegada a críticas superficiais e generalistas, tratando uma massa significativa como um nicho guetificado.)

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Bárbara Eugênia mostrou as músicas do álbum “É o que temos”, de 2013.

Mas, voltando… Se, no papel, a grade de sexta parecia tão certeira, como explicar a sensação de vazio – ou, aproveitando a analogia já feita acima – a falta de tempero do primeiro dia do APR? Quando Bárbara Eugênia cantou uma versão competente de “Dor e Dor”, de Tom Zé, e a música do baiano que enfartou após show histórico no Abril pro Rock de 2002, ecoou quase despercebida pela imensidão do Chevrolet Hall, ficou evidente que, apesar da qualidade dos artistas, da técnica executada com maestria, algo estava em descompasso.

A Betodélica fez um show confuso, que ganhou um ar de desarrumado devido a problemas no som do palco da esquerda, que oscilou bastante durante a noite. Faltou maior esmero da produção, junto com um som mais límpido, e aí sim seria mais agradável prestar atenção aos timbres de guitarra de D Mingus e também os arranjos do tecladista Hugo Coutinho. A mistura de todas as vozes cantando de uma só vez, em vez de amplificar o sentido das canções, deixou a apresentação desconexa. Pinçados alguns momentos, a impressão que ficou é a de que o show funcionou apenas para iniciados.

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Johnny Hooker apresentou músicas de seu quarto álbum, “Eu Vou Fazer uma Macumba para te Amarrar, Maldito!”.

Johnny Hooker soube tirar melhor proveito do seu séquito de iniciados e até conseguiu, pedindo palmas e gritos da plateia a cada nova música, chamar mais atenção. Mas o vazio, o estranhamento e o descompasso persistiram em momentos como um samba de bateria que pareceu deslocado e no final, com uma desnecessária incursão de “Madeira que cupim não rói” no meio da canção “Bandeira Branca”. Não seria o Sebadoh, com o peso das guitarras de Low Barrow, a banda que salvaria a noite. O grupo fez um show impecável, com peso nas distorções da guitarra e, por isso mesmo, como era de se esperar, sem carisma.

O público até ensaiou dançar a guitarrada de Felipe Cordeiro, mas a apatia e a sensação de vazio persistiam e é exagero dizer que o músico transformou o Chevrolet Hall em uma pista de dança. O desarranjo da noite continuou no show de Autoramas com Renato. O respeito e a reverência pelo cantor, da década de 1960, amarrou de um jeito os músicos da banda carioca que talvez tenha sido a primeira vez que Gabriel Thomaz subiu e desceu do palco sem bradar o seu indefectível “Rrrrock!” entre uma e outra música. A impressão de que a banda de apoio de luxo podia bem mais do que o que foi apresentado ficou evidente no cover de Elvis Presley, quando finalmente os Autoramas se soltaram.

A homenagem a Reginaldo Rossi, que encerrou a noite, foi pouco inventiva e, como na maioria dos shows da noite, não conseguiu cativar o público como se imaginava. Talvez pelo fato de que o Rei já vem sendo homenageado sistematicamente desde a sua morte, como na abertura do Carnaval recifense.

Dificilmente a sexta-feira do APR 2014 será relembrada daqui há alguns anos. Foi uma edição protocolar; se tudo parecia funcionar na teoria, na prática os shows não cativaram. Este é outro problema de um legado de 22 anos: um histórico bem sucedido de shows memoráveis ofuscam os shows sem pegada deste ano. Não dá pra se entusiasmar com Renato e o Autoramas quando a memória afetiva puxa o combo de tremendões que celebrou Lafayette, ainda no Centro de Convenções, por exemplo.

“Vivemos um momento de repensar velhas máximas, de mudar a chave do nosso olhar, impulsionados por uma sensação de incômodo e desconforto cada vez mais latente que o Recife nos impõe.”

Como em vários textos sobre o sobre o APR de 2011 pra cá, este vai terminar falando sobre a mais imperativa das questões relacionadas ao festival, que talvez explique, em parte, esta sensação de descompasso que permeia todo o texto: o Chevrolet Hall. E aqui não vai a defesa saudosista da volta ao Centro de Convenções. A agilidade na troca de palco, a acústica do local e outros elementos logísticos comprovam que o espaço é, de fato, o mais adequado para comportar o APR. O que é uma pena, pois a impessoalidade daquele lugar torna a sensação de vazio ainda maior.

Vivemos um momento de repensar velhas máximas, de mudar a chave do nosso olhar, impulsionados por uma sensação de incômodo e desconforto cada vez mais latente que o Recife nos impõe. Nesse sentido, é impossível não sentar num daqueles batentes de cerâmica da maior casa de shows da cidade e sentir falta de grama, de céu aberto, de um pouco mais de vida. Não há como não traçar um paralelo entre aquele espaço gigantesco e impessoal e os edifícios e muros claustrofóbicos que isolam os moradores. Olhando mais atentamente para as fotos do dia pesado, quase podemos ver os metaleiros como as crianças do playground-presídio da sequência que abre o filme “O Som ao Redor”. Tem roda de pogo, mas convém cuidado, o chão muito molhado e liso pode fazer escorregar tanto quanto o do salão de festas do prédio.

Não sei se foram os ecos de jovem guarda de Renato, ou a banda de Reginaldo Rossi fazendo este tributo tardio, mas nesse ano o APR deixou, mais do que nunca, aquela impressão de que os rockeiros estavam mesmo era fazendo uma baguncinha no templo das formaturas de medicina.

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Guilherme Gatis Escrito por:

Jornalista e DJ.

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