Três canções para entrar e sair da cena Beto

Na segunda edição da indie(gesta) “Caranguejada do Beto”, o músico Ricardo Maia Jr. (Ex-Exus) deu a definição mínima e intensa do que diabos, afinal, seria a cena musical recifense autodenominada Beto: “Uma grande trolagem”. Eu, do lado de minha assumida rabugice, continuo a achar que são um bando de “desterrados”[1], habitantes sonoros do Recife que fogem da maldição da tradição cultural dita autêntica, suposto bom gosto travestido de ecletismo insosso (e sem molho).

Foi pensando nisso que andei ruminando uma cartografia mutante e imprecisa, baseada em gostos pessoais duvidosos de um cara fruto de uma geração, que como já foi dito, foi obrigada a ler Ame e Dê Vexame, de Roberto Freire, e deixou o tal amor de lado para escorregar com tudo no Vexame. Afinal, o Recife descolado já está dominado pelos “bumba meu ovo”, eles reservaram a mesa central afirmando a diversidade musical de bandas que estão ressurgindo como zumbis do que restou do século passado, enquanto nos becos fantasmas que unem exus, desbundados e estropiados, uma música diferente força passagem sem reverenciar os mortos locais. Parece-me que esse nenhum, algum, menor que rói o coalho pelas beiradas e se afirma no rótulo “Beto”. E se não se firmar? Continuaremos a beber!

Pra começar, uma canção de um disco difícil, o primeiro álbum da Ex-Exus: “Carne Humana”. Uma mistura de peso, Black Sabbath com Walking Dead. O refrão “Eu quero comer carne humana”, sem metáforas ou joguinhos inteligentes, funciona como um mantra, um desespero doom que tem como pano de fundo uma batida 4×4 direta e minimal. Os harmônicos e os respiros da guitarra não são suficientes para possibilitar refresco diante da sonoridade opressiva: “Queria ser só mais um/ Mas te animei”! Ao final, o andamento acelerado que só aumenta o clima denso e a sensação de um amor descarnado, sem rota de fuga, opressivo como a maldição cultural de Hellcife.

04 – Carne humana by Ex-Exus

Existe um cara que é a argamassa, que dá liga entre a produção mais bem acabada dos Ex-Exus e uma boa parte da turma da Cena Beto (bom de bola?): Graxa. O álbum Molho aponta para sonoridades que se viram ao avesso e formam uma mistura diferente (não eclética, que isso é coisa de descolado da world music). Juntando teclados que ao mesmo tempo soam Jovem Guarda e Joy Division, Rock Psicodélico com Black Music. Contemporâneo sem concessões para o hibridismo. Na canção “Tendo no espelho saudades do meu cabelo”, a voz ressacada de Graxa, na linhagem Tom Waits, cria o clima de mistura melódica informada pela melhor tradição Rock + Black Music = Jimmi Hendrix + Sly & Family Stones. Os versos “E achando isso tão bom/ Espanto os grilos com o som/ E colho um quilo do bom/ E tenho no espelho saudades do meu cabelo” apontam para a música como gatilho contra o lado sacal do cotidiano. Psicodelia sem romantismo, ou seja, ressaca psicodélica na terra da maldição cultural.

11. tendo no espelho saudades do meu cabelo by graxa

Na anti-balada, “Desapego” (que recentemente virou audiovisual pelo homem vídeo da Cena (Al)Beto: Jean Santos), Juvenil Silva assume o papel do Bardo, reciclando Dylan com Raul com atitude rock em tempos de internet, isso tudo para dizer que é  residual, mas não passadista. Uma canção que abre para aqueles solos de guitarra e teclados e desenrola-se como uma história épica, mas que se desconstrói com o próprio desgarrar-se: “Só não quero mais nas coxas, não/ Eu prefiro pouca coisa/ Não espero que me esperem/ Baby, você pode ir sem mim”. Uma grande e velha canção Rock’n’Roll, sem melopeias, desgarrada da maldição batuque para descolados que assombram o Recife Antigo. Valorizando o vagar, a vagabundagem que exige sofrimento e despossuir de quem não quer sentar no banquinho da zona de conforto.

06 Desapego by JuveNil Silva

Esse mapa fantasma, que vai se moldando e se reconstruindo a cada nova canção ou disco da turma, parece apontar para uma estética tosqueira, do menor que come pelas beiradas e exige seu lugar no Hellcife. Essas canções habitam o soundcloud e o Youtube, não-lugares, por isso apontam para uma teatralização de uma Recife de seres desabitados, diferentes e desapegados, enfim, livres da maldição cultural que insiste em ser evocada pelos párocos metidos a descolados que continuam a ouvir os mesmos sons, a circular pelos mesmos lugares e a se afirmarem como ecléticos (sem molho).

por Jeder Janotti Jr.

Foto de Capa: João Marcelo Ferraz (Ex-Exus) no FIG. Por Renata Pires/Fundarpe.


[1]Antes que venham me acusar de falsário ou corsário admito que este e outros termos foram roubados da prosa do escritos Marcelo Miresola.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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