Toda a crença musical de Russo Passapusso

 photo russo-passapusso_zpse07fdc0f.jpg
O disco é produzido por Curumin, Lucas Martins e Zé Nigro. Conta com parcerias com Tatiana Lírio, em “Areia”, e B Negão e Fael Primeiro, em “Autodidata”. O álbum conta com apoio da Natura Musical. Foto: Fábio Bitão

por Marina Suassuna.

Saber quem produziu um disco nos revela muito sobre a natureza de uma obra. Desde os anos 1960, quando os produtores assumiram um papel mais direto no processo musical, como criar arranjos e cuidar da engenharia da gravação, a sonoridade e o conceito de um álbum deve grande parte àqueles profissionais. A assinatura estilística do produtor acrescenta bastante em termos de linguagem, tornando-o, muitas vezes, tão relevante quanto o artista no resultado final da obra. O que seria, por exemplo, dos Beatles sem George Martin, responsável por lapidar boa parte das músicas do grupo e por isso chamado de quinto Beatle? Ou mesmo dos Beastie Boys sem Mario Caldato Jr.?

No entanto, a visibilidade e o reconhecimento do trabalho destes artesãos do som são quase sempre mínimos. Menos para aqueles que se dispõem a mergulhar num disco e ‘’dissecá-lo’’ de cabo a rabo, incluindo aí o conhecimento da ficha técnica. Quando Russo Passapusso decidiu gravar as músicas do repertório de Paraíso da Miragem (2014), seu primeiro disco solo, os três produtores e também músicos – Curumin (baterista), Zé Nigro (tecladista) e Lucas Martins (baixista) – já haviam dado vida própria às canções que, até então, eram apenas poesias dedilhadas no violão de maneira rústica.

Não é difícil perceber a influência do trio de produtores em cada faixa. Quem acompanha seus diversos trabalhos, sobretudo o de Curumin, que gravou em seu último disco duas faixas de autoria de Passapusso (“Passarinho” e “Afoxoque”), facilmente irá se familiarizar com os timbres que compõem cada textura dos arranjos. A pegada da bateria e as vozes suavizadas, em falsete, ou mesmo as emissões rítmicas de estilos como o dub, funk e hip-hop são algumas das características de Curumin que marcam presença em Paraíso da Miragem.

Para Russo, o que o trio de produtores fez foi o equivalente a uma mágica. “Por isso que eles são produtores e parceiros do disco. Têm interpretações deles ali que são muito fortes. As composições são minhas, eu canto, mas eles estão em tudo. (…) Até hoje capturo pedaços de trechos nas canções, aqui foi fulano, aqui foi sicrano, tá tudo misturado e eu consigo sentir””, disse Passapusso à revista Noize.

Mais conhecido pelos seus trabalhos à frente do Baiana System, Bemba Trio e Ministereo Público, o baiano traz em sua estreia solo não só as diferentes visões daqueles que aderiram ao projeto (produtores e músicos convidados) como também uma poética bastante pessoal. As composições de Russo Passapusso são norteadas pela métrica da pergunta e resposta, ambientando o ouvinte em paisagens musicais genuinamente brasileiras. As manifestações espontâneas da música de raiz como samba, capoeira, afoxé, coco de roda, além de ritmos tradicionais da Bahia como o samba-reggae reverberam em todo o repertório, reforçadas ainda por um caprichoso trabalho de vocais de apoio. A tradição dos coros – sejam eles de samba, femininos, religiosos ou de vendedores de feira – aparece em grande parte das músicas, entre elas “Paraquedas”, “Anjo”, “Matuto” e “Relógio”.

De outro lado, há uma faceta mais eletrônica, que pauta músicas como “Devagar” e “Autodidata”, esta última com a participação de BNegão. Se para Russo, suas canções precisavam de fôlego para serem gravadas, houve quem preenchesse os vazios. Enquanto Anelis Assumpção faz dueto com o cantor na comovente “Sem sol”, além de ter gravado backing vocal em “Flor de plástico” (uma das mais singelas e belas poesias do disco), Marcelo Jeneci assumiu os teclados em faixas como “Sangue do Brasil” e “Sapato”, esta gravada com a voz de Thalma de Freitas. Também engrossaram a presença feminina Laurinha da Nenê e Clara da Nenê, da ala de coro da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, de São Paulo.

Apontar a riqueza de Paraíso da Miragem parece simples, a princípio. Mas é na escuta minuciosa e reprisada que a alma do disco vai se revelando. Tudo soa como uma oração, um ritual de proteção que invoca anjos, santos, mandingas e outros símbolos da fé, tendo a poesia e a rima como principais alimentos.

Publicado originalmente na 6ª edição da revista Outros Críticos.

SERVIÇO

Russo Passapusso apresenta o álbum “Paraíso da Miragem” no Festival Rec-Beat, no sábado de Carnaval (dia 14), às 23h10.

Categorias

Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

seja o primeiro a comentar

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.