‘Temporada Beto’ é mais que Beto

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Jean Nicholas e Graxa no ensaio para o primeiro show da Temporada Beto. Foto: Juvenil Silva

por Carlos Gomes.

A partir do próximo domingo, o Boratcho Bar, localizado na Zona Sul do Recife, vai receber uma temporada de apresentações musicais da auto-intitulada Cena Beto, que segundo o release do evento, é formada por “um grupo de músicos, cineastas e produtores culturais que quer mais é tirar o Recife da cara”. Os shows serão em duplas, com músicos “tocando uma a música do outro ou acompanhado o outro tocar, e com um formato mais enxuto. Mais viola, bateria reduzida ou sem bateria. Com percussão e umas surpresas legais”, como informa Juvenil Silva, que fará um dos shows da temporada. Além das bandas, a temporada também contará com DJs e a apresentação dos Ex-exus, que não farão shows, mas “entrevistarão a plateia e os músicos presentes, num formato ‘freak-show de auditório’”.

A Temporada Beto é apenas mais uma das ramificações que faz com que a música pernambucana tenha lugar de destaque no simbólico jogo cultural que vivenciamos década após década na música brasileira. Entre regionalistas, armoriais, mangues, indies, multiculturais e rancorosos, a música feita em Pernambuco tem sobrevivido acima das categorizações simplórias. Essas novas velhas bandas se acostumaram à margem do mercado, como temos nos acostumados quase todos nós. A falência crítica e artística do Mainstream está diante de todos os que queiram ter olhos para enxergar. A corrente principal, seus fluxos e tendências, não define mais grande parte dos artistas brasileiros.

Diante disso, a produção que escorria pela internet, apreciada por um grupo reduzido de ouvintes, artistas, críticos e produtores culturais, se vê (ou se faz ver) como denominação de uma cena. Mas o que diabos definiria uma cena musical? Como vocês devem ter percebido, uma simples chamada para uma temporada de shows, se transformou num texto crítico sobre a cena cultural em que estamos inseridos. Pois bem, os diferentes autores do site Outros Críticos têm procurado refletir sobre a música pernambucana e suas diferentes ramificações. A nossa ideia é criar questionamentos, ruídos e alguma clareza. A resposta sobre o que é Cena Musical continuará sendo dada e reescrita nas diferentes postagens, textos e publicações. “Cenas musicais são obras em progresso”, me adverte o colunista Júlio Rennó.

Enquanto colhia informações sobre a temporada de shows, resolvi lançar algumas perguntas sobre o tema para Juvenil Silva, eis as perguntas e respostas, sem cortes ou edição:

o nome cena beto surgiu como ironia, né? mantê-lo é assumir a ironia como estratégia de mercado? é preciso mesmo nomear esse grupo de artistas? o que tu pensa disso? acho que só vi claudio n e evandro q não gostando da associação ao nome.

eu acho de boa pois não quer dizer muito literalmente mas em essência quer dizer muito, o espírito da coisa mesmo. Pois somos realmente arriadores mesmo, e tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo… E que continue, no que vai dá eu não faço a menor ideia e nem penso nisso.

fora juntar as bandas, tu acha que a temporada beto pode funcionar como uma ocupação de espaço? mais um lugar na cidade onde vocês possam divulgar futuros trabalhos?

Sim. falei sobre isso até com o dono lá Waldélio. muito massa, será um novo lugar de ocupação lá pelas bandas da zona sul no qual não costumamos frequentar e tal. mas tudo começou quando Roger ligou pra mim. ele disse que tinha esse espaço lá e que o cara queria fazer uma temporada comigo, saca aí. fiquei de pensar pois não me via numa temporada de todo domingo e tal, curto fazer cada show diferente do anterior e talvez não rolaria legal, sei lá. sei que me veio essa ideia de fazer a temporada beto. fiz um comunicado e convidei todos pra uma reunião no próximo dia, uma segunda. aí quem veio, veio. e deu nisso aí. a turma agregou umas ideias e fechamos nesse conceito.

A realização da temporada Beto é uma ótima oportunidade para refletirmos sobre a produção cultural feita em Pernambuco. Não só como produção artística em si, mas como desenvolvimento do debate que deve sempre estar ativo no mercado cultural brasileiro. Entre todos os debates gerados, sensos e dissensos, sintetizo no seguinte questionamento: A Indústria Cultural nos servindo ou ao nosso serviço?

SERVIÇO

03/11, 17h, show de “Jean Nicholas + Graxa” e DJ Renan Ferraz (do Agito Pesado);
10/11, 17h,  show de “Juvenil Silva + Jalu Maranhão” e o DJ Jedernight (professor da UFPE e crítico musical);
15/11, 21h, “D Mingus + Zeca Viana” e o DJ Rafoso (repórter da revista Mi);
24/11, 17h, “Matheus Mota + Aninha Martins” e o DJ Evandro Q?, do Iraq.

Apresentação: Ex-exus
Av. Herculano Bandeira, 513 (Galeria Joana D´arc)
Entrada Franca / no Boratcho Bar

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Outros Críticos Escrito por:

Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

2 Comentários

  1. 31 de outubro de 2013
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    Não acho ruim meu nome ser associado ao nome cena Beto, só acho que ou o nome não retrata a real cena musical atual no Recife ou chamam de cena ao que não é. Não estou morto, nem sou de épocas passadas e muito menos estou fora do que esta acontecendo, tanto é que os dois primeiros shows de Juvenil solo aconteceram por causa de mim, até porque a monstro Amor (banda da qual sou integrante) tocou no Desbunde Elétrico, até porque estarei sendo DJ deste evento no Boratcho, até porque está no meu set list dos eventos que participo músicas desta galera (DMingus, JuveNil Silva, Graxa). Vivo a qualquer cena que perpasse por mim, tenha o nome que for (cena macho, cena idiota, cena autista) e já vivi isso. Uma outra banda da qual faço parte (Garapa Nervosa) saiu numa lista do Diário de Pernambuco em 1996… numa matéria assinada por Beto Rezende chamada “Novos crustáceos saem na cena”… eu fiquei de cara! Éramos uma banda cheia de distorções de guitarras e batida post-punk e não tínhamos em nada relação com a brasilidade e o regionalismo encabeçado pelo Chico e o Fred 04. Daí entendo que pode se chamar de cena a um fenômeno onde há um recorte local, temporal, que envolve vários elementos da cadeia produtiva e que estão associados a uma certa estética e/ou público. Não a um coletivo de artistas (que acho que é o que está acontecendo) e suas ações isoladas diante de tudo que a cidade vem produzindo e diante de tudo que o mesmo público destas bandas vem consumindo esteticamente. Diferentes atores ainda terão que ser “contagiados” e não “inseridos” ou “convidados”. Chamarei de cena quando eu ver este fenômeno acontecendo e começar a ser uma terra sem-lei ou sem-dono. Não acho ruim meu nome ser associada a tal cena Beto (uma vez que ela exista)… o que acho ruim é um pequeno coletivo ser reconhecido como cena (abram os olhos jornalistas!) e acho ruim o nome… que é feio pra CARALHO até porque surgiu como uma greia do Graxa e que alguns poucos jornalistas estão querendo que a onda pegue. O bom é que toda esta discussão ta dando visibilidade aos artistas que estão participando. Se pegar…pega geral! E eu tô dentro! Ta dado o recado!

  2. 31 de outubro de 2013
    Responder

    uando a música pop pernambucana dos anos 90 foi reconhecida e comercializada – passando toda a cena ser reconhecida como cena mangue, os jovens da classe média (incluindo os músicos), as emissoras de TV (incluindo a MTV) e todo os veículos de comunicação da época tiveram que de certo modo subir o morro, entrar nas favelas e ver o que estava de fato acontecendo na cidade. As bandas que surgiram das comunidades mais pobres chegaram a tocar nos maiores palcos. Por incrível que pareça, com tanta tecnologia o apartheid cultural tem aumentado cada vez mais. Era uma época que o faça-você-mesmo dependia sim do showbusiness e de políticas culturais. Não precisávamos importar a lógica FdE de que os artistas se cooperam e que artista era igual a pedreiro… A realidade ainda bem mais fora de qualquer eixo é que o artista favelado não tinha sua câmera na mão, não tinha seu home studio, e não tinha internet (a realidade ainda é assim… me desculpem mas a miséria tecnológica ainda impera meus queridos…) e ninguém nunca teria grana pra se bancar e rodar o país… a primeira vez que as bandas da cena 90 saíram do Estado foram através da ação do embrionário Rec-Beat. Muitos artistas mal conseguiam a passagem para tocar em algum bairro distante (sim, porque se fosse perto iria a pé). A tal reconhecida cena mangue (reconhecida a partir do movimento mangue – e pra mim há diferença entre uma coisa e outra) para alguns foi um monstro, um terror, para outros um raio de esperança. Mas de todo modo deu visibilidade para o potencial mercadológico da música (e independente de estética e valores culturais sobre a evolução da arte) onde poderia ser a salvação de meio de produção e renda para alguns jovens periféricos. Existia um potencial mercado que deveria ser incentivado e onde a política cultural que tivemos falhou deixando reféns vários artistas e produtores em dependerem unicamente das ações do Governo para ganhar algum trocado. Infelizmente vivemos num país capitalista e onde não existe ainda uma política cultural que possa garantir a sobrevivência de quem faz arte sem apelar para os modelos pre-estabelecidos pela grande mídia. Na situação que temos hoje quando muda-se a gestão muda-se também os atores beneficiados. Eu quero ver agora é a parte favelada da chamada cena Beto (se é que ela existe), quero ver agora que política cultural teremos e se mais uma vez uma geração inteira será refém do Governo e ainda continuaremos sem um mercado local forte, amplo e sustentável. Se liguem galera… Se liguem: centro e também a periferia!!! No mais: força ao artista e trabalhador Zé Brown que fez parte de toda esta historinha que contei e teve que partir para São Paulo (como nossos velhos retirantes) para poder dar continuidade ao que sabe fazer com mais amor.

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