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27 de fevereiro de 2017 /

No centro do quadro, largado em cima de um sofá velho empurrado num canto de uma sala escura com paredes mal acabadas, Juninho lê em voz alta uma carta escrita por ele: “caro Cezinha filho da puta, você tá ligado que você é um cara muito importante pra nós e eu também quero te dizer que você é um cara que não merecia tá aí nesse inferno”. Esta dedicatória enviesada, para além de ser a introdução da carta que abre…

2 de fevereiro de 2017 /

No lugar de fazer uma mera adaptação do cinema para a literatura, os cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz criaram uma nova obra ao transportar para o papel o conteúdo do filme Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. O livro homônimo é um objeto dotado de linguagem própria, que combina fotografias (e “frames”), palavras e um projeto gráfico editorial bastante original para transmitir as ideias, sensações e emoções sobre as relações entre afeto, distância e paisagens já expressas no…

25 de janeiro de 2017 /

Nessa terceira e última escrita para os Outros Críticos faço um movimento de insistir em algumas questões levantadas em minha última coluna. A insistência aqui revela uma ação política de sustentar um diálogo até emergir algo diferente. As perguntas que me atravessam nesse momento continuam sendo mobilizadas pelo atual momento político, pelas relações que nele acontecem e por pensar como fazer arte nesse contexto. Uma de minhas suposições é que vivemos uma crise ética, de relação com o outro. E…

17 de janeiro de 2017 /

todo lo que le ocurre a la tierra le ocurrirá a los hijos de la tierra; si los hombres escupen en el suelo, se escupen a sí mismos. la tierra no pertenece al hombre, es el hombre el que pertenece a la tierra. todo va enlazado, el hombre no tejió la trama de la vida; él es solo un hilo de esa trama indio noah sealth e o que é a espiritualidade? (…) ao invés de assumir a ignorância, preenchi…

9 de janeiro de 2017 /

Saudações multicolores! Confesso, amigos: meio sem saber sobre o que escrever para esta (talvez) última contribuição para Outros Críticos, topo por acaso com uma edição recente da ARTFORUM trazendo, entre seus textos, uma matéria do artista Joseph Grigely sobre “Soundscaping” (Soundscape). Como devem lembrar, “Paisagem Sonora” foi também o tema da 3ª Edição de Outros Críticos (em 2014). O fato não apenas me surpreendeu por sua oportunidade, coisa que Grigely definiria como “serendipity” (acaso feliz), como também me fez pensar…

20 de dezembro de 2016 /

Durante a infância, por algum motivo eu tinha pânico de seres do outro planeta. Não consigo dar uma definitiva resposta sobre o motivo disto. Talvez tenha sido a influêcia de algum filme, algo impróprio para minha idade. Lembro de ter assistido, na TV, o clássico Alien, de Ridley Scott, quando criança, durante férias da família em uma praia sergipana. Aquilo me apavorou tanto a ponto de um tio-avô meu, que assistia ao filme comigo, me consolar dizendo “isto não é…

22 de novembro de 2016 /

Jonathas de Andrade está cada vez mais ligado ao cinema. O artista alagoano, que vive e trabalha no Recife, já realizou cinco filmes e quer entrar no circuito de festivais, depois de já ter consolidado espaço em bienais, galerias e museus. Apresentado na Bienal de São Paulo em 2016, o média-metragem ‘O Peixe’ retrata um fictício ritual de abraço e despedida entre os pescadores e os animais pescados. Exibido pela primeira vez na Galeria Vermelho (SP) também em 2016, o…

3 de novembro de 2016 /

O que existe do Outro Lado, se perguntava o homem barbudo, os pés descalços; o que existe do outro lado da persiana? *             O homem descalço – a partir daqui, seu nome é Bob – arrastava, em suas andanças pela cidade, seus únicos pertences: dois lençóis grossos, uma mochila rasgada com roupas, um sacolão cheio de latas. Sua companhia era uma cachorra, que ele talvez chamasse:             – Balela, balela.             Ou talvez não. É que o homem tinha…

31 de outubro de 2016 /

Como um meteorito contemporâneo a tomar de assalto uma tradicional paisagem urbana, a Casa da Música da cidade do Porto é também melodia para os olhos. Saudações multicolores! Se em agosto comecei minha existência de colunista, agora inicio minha existência de “correspondente internacional”, aproveitando a estada na cidade do Porto, em Portugal, para apresentar aos leitores de Outros Críticos a Casa da Música do Porto, verdadeira Gesamtkunstwerk[1] em ato e de fato. Para os que felizmente já a conheçam, permitam-me…

10 de outubro de 2016 /

inúmeras mortes num espaço-tempo de 4 horas (…) a força corporificou a partir da primeira chamada entoada pelo guia. os sentidos ficaram confusos, a visão turva, as mãos suadas, o corpo todo apresentou dormência, a mente acelerada, desordenada, sem filtro. tudo estava sob controle. luto contra, não aceito, o apego à normose é uma grande ilusão, é uma mentira, aprisiona, fere e decepciona. a imagem do pai-nosso vem à mente. esboço uma reza, não consigo chegar até o final. tento…

6 de outubro de 2016 /

Existe uma velha dualidade que paira como um espectro na nossa história, é a dualidade entre corpo e mente (que Platão entendia como o mundo sensível e mundo das ideias) que trouxe dos gregos para os cristãos a mensagem que o mundo que é apreendido pelos nossos sentidos é falso, sujo e enganador, ao contrário do mundo das ideias (posteriormente compreendido como Reino dos Céus). Como herdeira direta (e várias vezes não assumida) dos processos dogmáticos religiosos, a ciência pega…

13 de setembro de 2016 /

Um convite para escrever como colunista no site Outros Críticos. Um encontro. Assim, uma ideia de dança me veio como proposta de escrita. Um dos meus interesses de investigação em dança atualmente é a improvisação como prática, como exercício, para a composição cênica. Entendendo cênico aquilo se apresenta ao outro, com fins estéticos, como esse texto. Na dança, um dos caminhos de utilização do improviso para compor é delimitar algumas bordas, regras, que sempre podem ser subvertidas. Mas é nesta…

6 de setembro de 2016 /

Nos últimos 20 anos, entre Baile perfumado (1996) e Aquarius (2016), diferentes teorias têm surgido para tentar explicar o êxito do cinema pernambucano nos maiores festivais de cinema nacionais e internacionais. Mesmo que os filmes produzidos no estado ainda não tenham alcançado um sucesso absoluto nas bilheterias, é inegável a contribuição estética e a originalidade das obras, respaldas pela crítica e provocadoras de discussões para além do campo artístico. Nenhuma das hipóteses levantadas, no entanto, conseguiu identificar precisamente as razões…