Super qualquer no meio do Teatro Santa Isabel

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Fotos: Tassia Costa

por Jeder Janotti Jr.

Tanto o rock’n’roll quanto o teatro são dispositivos de captura. Cada um a seu modo embalam sonoridades e atenções de formas, usualmente, diferentes. Se os shows de rock acionam poéticas que envolvem consumo de cervejas e muito burburinho, o teatro é um templo cujo foco é a atenção densa ao que está sendo dito, cantando, interpretado. Mesmo que boa parte dos encontros entre rock e teatro seja engolido pela sisudez da ribalta (vide os concertos sinfônicos de bandas como Deep Purple e Metallica), esses enfrentamentos também exigem uma escuta atenta por parte de ouvintes que usualmente trabalham o som como eixo central de uma ambientação sonora dispersa no tilintar de garrafas, buchichos e intensidades nem sempre sonoras.

Este cenário de encenações em confronto talvez seja a melhor descrição para o show de lançamento do segundo disco de Juvenil Silva, Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum. Musicação que aconteceu na última sexta-feira (03 de outubro) no centenário teatro recifense, o Santa Isabel. Fruto de um edital lançado pelo Teatro para ocupação diversificada de seu palco, o show também fez com que um público acostumado a dançar e gritar nos shows focasse melhor seus ouvidos nas texturas sonoras de um dos ícones da autonomeada “Cena Beto”.

Se a faixa que abre o disco, “Bodeado”, parece destoar da pressão silenciosa do teatro: “Eu quero dançar até o sol raiar/ Quero acompanhar amigos de copo/ Eu quero dançar ao som do rock’n’roll/ Sem me preocupar com todo esse sono” e das evocações que o som de Juvenil faz de Raul e Bob Dylan, por outro lado, o palco pomposo do Santa Isabel permitiu ao Bardo Beto mostrar profundidades que vêm de seus agenciamentos do desbunde psicodélico pernambucano dos anos 1970 em canções como “Não Faça Bicho” e “Exorcismado”, com a participação luxuosa de Juliano Holanda na viola de 10 cordas. Canções que levam a memória ao Nordeste Oriental de Lula Côrtes.

Aliás, o choque encarnou-se nos sucessivos recomeços justamente de “Não Faça Bicho”, música de cancioneiro em que além de Juliano Holanda, Juvenil foi acompanhado pelo cello de Johsi Guimarães. Ali, naquele momento, o templo teatral parecia cobrar seu preço, ora a microfonia tornava quase insuportável o início da canção, ora Juvenil acelerava o início da levada 6/8, não tão usual às escutas roqueiras centradas no 2/4. Só que foi neste ponto que o show transubstanciou-se. De recomeços e ritornelos Juvenil descontraiu-se, abraçou o público e fez um dos melhores show do ano nos arrecifes.

Não que tenha sido um carrilhão de acertos afinados. O que aconteceu é que a tradição do teatro foi rendida na encarnação da marcha rock-frevo-bolero “Horrorshow”, “Quando um sentimento exala/ uma espécie de odor/ E o artista morde a isca/ Presa na revista pornô/ Nenhum nexo ou complexo/ Nem reflexo também/ Tragam meu galeto completo/ Deixe o Resto pra que vem/ Vem do horrorshow”.

E foram esses espíritos, galetos complexos, que baixaram na voz de Cláudio N. e na poderosa entrada em palco de Isaar. Revirado pelo avesso, o público assumiu a escuta rock e começou a desabitar o peso da arquitetura e dos vigilantes dos bons costumes que rondam a ideia de teatro. O rock, o soul, enfim, os corpos se soltaram com as presenças, também mais donas de si, de Aninha Martins e Raquel Bourbon em “Eu vou Tirar Você”, composição de Juvenil gravada por Feiticeiro Julião para a trilha do filme Tatuagem.

Foi bom perceber no enfrentamento com o teatral, o amadurecimento rocker da banda de Juvenil, cada vez mais assentada no palco. O show serviu para azeitar as tensões entre às impurezas sonoras do primeiro disco, Desapego, e as ambições de Super Qualquer.Para os roqueiros mais ranzinzas, há um preço um tanto incômodo, além da falta das cervejas, o teatro passa o rodo, limpa distorções e sujeiras. Mas exige maturidade de quem topa enfrentá-lo (ou então vos engole!).

Ao final, refazendo a narrativa do show, lembrando a apresentação carinhosa do show por Roger de Renor, reconhecido agitador cultural do Recife e a presença da turma dos Betos no templo teatral, torna-se possível repisar a ideia de que mesmo em tempo de nichos capilarizados de consumo musical, o Recife começa a descongelar aos poucos da Maldição Mangue.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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