Solidões de passagem por Recife Nº2

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Foto: Tiago Calazans

por Carlos Gomes.

“O auditório de concertos é quase sempre formado de elites sociais que, na verdade e na maioria das vezes, não gostam da música, e sim do gênero, estilo ou autor que está na moda.” – Heitor Villa-Lobos

Os chinelos de Villa-Lobos na Semana de Arte Moderna em São Paulo. Os tênis All Star de Vitor Araújo na gravação do DVD no Teatro Santa Isabel em Recife. Anedotas desse tipo pouco ajudam a obra, a música do artista, servem mais como detalhe anódino, típico parentesco entre o que é visível e trivial com o que pouco importa na avaliação crítica ou na contextualização de uma obra.

No entanto, a música erudita tem sido construída midiaticamente por um tipo bem restrito de performance: sóbria, clara, sem alardes, no qual a música basta. Quando surge um jovem pianista desatando e refazendo nós onde cabem Villa-Lobos, Tom Zé e Radiohead, sem a sobriedade característica das salas de concerto – com seus distintos rituais -, uma pequena ruptura se dá, e, à distância, é possível perceber que poucos sabem lidar com isso. A primeira impressão é facilmente tornar o artista uma caricatura de si mesmo. Um número de adjetivos são colados a ele e, em muitos casos, a música é deslocada a um segundo plano.

Diante do espanto em que a música de Vitor surgiu, um silêncio proveitoso se fez a seguir, com ele, um disco incrivelmente especial, que transforma os nós a que me referia em soluções das mais belas. A/B: A sequência de solidões como linha torta do que é arte; Baião e as experiências com os gêneros, todos filhos de ruptura e do acaso. A tradição merece realmente ser achincalhada de seu lugar confortável. Vitor faz isso, Tom Zé faz.

Ao chegar em Tom Zé, recordo da música do álbum quase esquecido Estudando o Samba (1976), que por uma sequência de acasos: grafar Samba, arames farpados na capa, David Byrne, voltou para as graças do público leitor de jornal: “Toc”, o músico sobre o piano, dentro, corporificado na própria madeira. Arte e vida se fazem da mesma condição. “Solidões” e seus vários números, encadeamentos de uma mesma obra, a lembrança-homenagem a Heitor, o “Baião” e a paisagem sonora do rádio que vai e vem nos loops ordinários, e a música de modo surpreendente continua ali, espreita, atenta. A sequência de aplausos do grandioso Santa Isabel confirma que a música meticulosa de Vitor Araújo tem lugar cativo aqui e em algum outro lugar.

No mais, quando buscar sobre Heitor e 22, Vitor e hoje, saiba que algumas coisas valem mais do que catequizar espaços de escuta, disciplinar a música em compartimentos e repercutir chilenos e tênis, a música requer um pouco mais que isso. Dá tempo.

P.S. Solidões de passagem por Recife (nº1)

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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