Sobre deslocar paisagens: diálogos com Thelmo Cristovam

 por Ana Luisa Lima.

Quando o reencontrei recentemente, estávamos numa residência artística promovida pelo JA.CA –  e Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, dividimos por quase um mês os cômodos de um apartamento localizado no hipercentro da cidade. Fui lá convidada para pesquisar e ser interlocutora dentro do programa de residência que, naquele período, além dele, estava recebendo mais dois artistas brasileiros e um pesquisador polonês. Thelmo estava imerso numa rotina metódica. Seguia fielmente um cronograma de captação dos sons no centro da cidade em horários precisos. Cá comigo pensava: o controle sobre o método o permite criar variações de sua própria construção poética.

“A obra faz(ia) parte de uma série de experiências desenvolvidas ao longo dos últimos dez anos, utilizando processos matemáticos/simbólicos no desenvolvimento e processamento de sons originalmente captados em campo e retransformados a partir de certas regras, desenvolvidas principalmente como um exercício em alguns aspectos da psicoacústica, como espacialização, percepção táctil do som, preenchimento espacial, percepção de frequências inaudíveis, percepção sonora fantasma, sendo preenchido mentalmente por sons que não se encontram realmente na fonte sonora”.

“Uma pergunta inevitável que se deve fazer é: interessa a quem a necessidade implacável de adjetivar as experiências estéticas?”

Há muito tenho pensado no descuido conceitual o qual reiteramos na prática, criando às vezes a possibilidade de reinvenção da própria linguagem. Por exemplo, já não deveria ter sido superado o uso da palavra “artes visuais” para designar a complexa produção contemporânea no campo das artes? Nos anos 1950 e 1960, experimentações táteis, olfativas, sonoras já haviam sido incorporadas no repertório das experiências estéticas. Trabalhos desenvolvidos por John Cage, Yoko Ono, Hélio Oiticica e Lygia Clark já não eram possíveis de serem apreendidos apenas pela percepção visual. Desde então, criou-se uma pressa no desejo de “engavetar” as experimentações que foram surgindo. Uma pergunta inevitável que se deve fazer é: interessa a quem a necessidade implacável de adjetivar as experiências estéticas?

Nesses quase oito anos de pesquisa junto às artes (ditas visuais), tive a chance de acompanhar de perto a trajetória de muitos artistas, bem como as (re)formulações institucionais e mercadológicas ocorridas nesse período. Ao testemunhar esses processos, tudo me leva a crer que quase sempre ao surgir algum adjetivo “conceitual” para a arte, é menos a construção de um repertório teórico cuidadosamente proposto para o alargamento do conhecimento sobre, com e para a arte, e mais uma criação açodada de delimitação do campo da experimentação em arte para caber nas demandas de consumo desta enquanto produto.

Em sua essência, a arte é um campo da experimentação intrínseca. A expressão artística jamais quedou delimitada por qualquer fronteira. Todos os conhecimentos humanos construídos, tanto quanto os mistérios da natureza, estão (sempre estiveram) na iminência de se tornar parte constituinte de uma obra de arte.

Certas manhãs, me levantava da cama muito cedo e ia perambular pelo apartamento ainda naquele estado límbico de quem ainda não está pronta para ceder à realidade, quando o encontrava desperto tomando café. O equipamento de captação do som já estava acuradamente acoplado na janela e com o relógio ao lado ele marcava o tempo exato de duração daquela captura. Sentava ali do lado, para lhe acompanhar no café, e de repente, esses momentos se transformavam numa troca inimaginável de conhecimento sobre arte, música, ciência, filosofia e todo o resto que diz respeito a isso que chamamos vida.

Uma das questões que sempre nos ocorria era a dificuldade que tinha de desenvolver sua pesquisa poética por ter que justificar demasiadamente seus processos dentro de uma linguagem delimitada por uma adjetivação. O que ele fazia era arte sonora? Estava no campo da arte e tecnologia? Por que não poderia ser considerado uma pesquisa no campo da música?

“A musicalidade de um povo não está circunscrita a manifestações previamente denominadas musicais, […] mas também na sonoridade da língua, na fala e sotaque das ruas”

“A musicalidade de um povo não está circunscrita a manifestações previamente denominadas musicais, organizadas em grupos, bandas, registros fonográficos históricos, mas também na sonoridade da língua, na fala e sotaque das ruas, nas chamadas dos ambulantes, no ir e vir das pessoas, o som desse movimento, as caixas de som nos postes, o som das ondas do mar, as carroças, o trânsito, nas feiras. Isso se chama paisagem sonora, ou ambiente acústico total, a totalidade dos eventos e características sonoras particulares de um local, e de um tempo, que singulariza tão bem a urbe e sua população.”

Não há dúvidas de que a profissionalização do campo da arte foi um catalisador de recursos (humanos, financeiros, tecnológicos etc.) que sem os quais certas pesquisas na arte jamais seriam possíveis. No entanto, contraditoriamente, essa demanda profissionalizante, que em outras palavras, diz respeito a uma funcionalização do trabalho de arte, trouxe também um atrofiamento nos seus modos de ser e fazer. Ora, quase não há mais relação humana possível sem que essa esteja entranhada dos modos mercadológicos de troca. Na arte, isso se demonstra claramente na necessidade de transformação do trabalho em produto. E dentro dos procedimentos do capital, todo produto é reflexo de uma demanda preexistente.

É nesse imbricado fenômeno que a arte se vê esmagada. Se de um lado é respondendo às demandas de sua adjetivação em que se é possível ter acessibilidade aos recursos para a pesquisa, por outro lado o seu lado experimental cada vez mais fica comprometido pela necessidade, a priori, de se deixar caber na adjetivação.

“Essa pesquisa fonográfica/gravações de campo/field recordings, realizada na região do entorno da residência, será utilizada para construir um pequeno mapa sonoro da cidade, é uma extensão de outras pesquisas que venho desenvolvendo, tais projetos em desenvolvimento (e com estimativa de conclusão nos próximos dez anos, em tese) para o World Listening Project [projeto de escuta mundial], que dedica-se, entre outros pontos, ao mapeamento, registro fonográfico e construção de bancos de dados sobre as características sonoras singulares dos locais, com dois objetivos primários, primeiro de tentar entender a partir desse mapeamento como se dão as mudanças sonoras em volta do mundo e, talvez o mais importante, preservar em bancos de dados sonoros, acessíveis gratuitamente na internet, sons de agora para as gerações futuras.”

Dentro desse sistema de mercado, algumas iniciativas, tais como o JA.CA, conseguem fazer certas barricadas para que a pesquisa em arte esteja preservada em sua característica mais potente que é sua pulsão experimental. Apesar de todo processo de esmagamento, a arte ainda é o fôlego de uma construção de um novo mundo por vir.

Thelmo Cristovam é pesquisador independente em psicoacústica, músico/improvisador/ruidista, artista sonoro e radioasta, além do campo sonoro, atualmente também pesquisa e trabalha com fotografia, vídeo e texto. Cursou o Bacharelado em Física e Matemática, pela UFPE, pesquisou as áreas de Sistemas Dinâmicos (Caos Determinístico e Teoria da Catástrofe) e Lógicas Não-Formais (Meta matemática). As passagens, no texto, são citações diretas do artista Thelmo Cristovam.

Arte de capa do site: “O capim tá alto”, de Maurício Castro.

Publicado originalmente na 4ª edição da revista Outros Críticos.

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Ana Luisa Lima Escrito por:

Crítica de arte e pesquisadora.

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