Sobre a cópula dos gigantes de pedra: Sangue Azul

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Foto: Victor Jucá

por Rodrigo S. Pereira

Tenho na memória encerramentos grandiosos do festival Janela Internacional de Cinema do Recife. Em 2011, Barry Lyndon (1975) de Stanley Kubrick; em 2012 foi a vez do diretor David Lean com seu épico Lawrence da Arábia (1962), e, em 2013, uma sessão histórica com Metropolis (1927), de Fritz Lang, acompanhado com música ao vivo pelo trio Mudos por el Celulóide. Este ano de 2014, um ano marcante para muitos pelas perdas, pela Copa, pelas eleições presidenciais, encerrou-se com um dia cheio nas duas salas tradicionais do festival, o Cinema da Fundação e o São Luiz. Cada espectador reservou desta data uma lembrança especial, seja o retorno de David Lean ao São Luiz com A Filha de Ryan (1970), Phillipe Garrel com J’entend plus la guitarre (1991) no Cinema da Fundação ou o belo momento em que Pedro Severien, representando a ABD, convidou o público do festival a compor uma fotografia à frente da tela, num apelo para equipar o cinema São Luiz permanentemente, visto que a sala é equipada pelos eventos que a ocupam com projetores digitais alugados. Encerrou a noite Sangue Azul, o aguardado e premiado novo filme de Lírio Ferreira, conhecido principalmente por Baile Perfumado (1996) que codirigiu com Paulo Caldas, mas que traz também no currículo Árido Movie (2005) e O Homem Que Engarrafava Nuvens (2009).

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Foto: Victor Jucá

Iniciado em preto e branco, com o mar, a ilha, a embarcação Solaris e um vômito, Sangue Azul só se permite revelar as cores vibrantes de Fernando de Noronha e de seus personagens bronzeados após apresentar seu protagonista, Zolah, ou Pedro (Daniel de Oliveira), o homem-bala. Dividido em capítulos, o filme acompanha o retorno e readaptação deste personagem, nativo da ilha que a deixou para trás ainda novo, quando partiu com o circo Netuno liderado por Kaleb (Paulo César Pereio). Sendo seu ponto forte a fotografia premiada de Mauro Pinheiro Jr, o filme exibe belas composições de paisagens e corpos, entre apresentações circenses, mesas de bar e sexo. Inebriado pelos números de ilusionismo, beleza, força e destreza, chega a ser um esforço não aplaudir junto à plateia da ilha, mas conforme a trama principal se desenrola, os ares festivos se dissipam e Sangue Azul assume uma postura de ébria melancolia.

“Uma crônica de tesão e saudade, Sangue Azul dá atenção aos detalhes, às pequenas curvas nas trajetórias que narra.”

Uma crônica de tesão e saudade, Sangue Azul dá atenção aos detalhes, às pequenas curvas nas trajetórias que narra. O filme abre um extenso leque de personagens e situações sem aprofundar-se neles, tornando-os mais concretos à distância, como que ao espectador restasse apenas testemunhar sua existência, não compreendê-la, como é fora das telas. Com sutileza constrói o misto de orgulho e rancor que Zolah guarda e sua controversa paixão por Raquel (Caroline Abras), sua irmã. A carência do noivo da moça, que rendeu prêmio no Festival do Rio a Rômulo Braga; a solidão de Rosa (Sandra Corveloni), mãe de Pedro e Raquel; a crescente angústia da trupe que se vê presa à ilha, quando Zolah assume o comando no lugar do desaparecido Kaleb, que conversara com Mubembo (Ruy Guerra) e descobriu-se cego, morrendo de fome.

O roteiro flaneur pode incomodar o espectador que não for seduzido pelo ritmo de praia, em que há bebida e sexo, e é difícil ter vontade de sair. A cada capítulo o filme se estende conscientemente para lugar nenhum, como que planejasse se perder. Conforme regenera seu protagonista, reconstruindo seus laços com a ilha, enfrentando seus demônios, medos, traumas, os demais personagens se veem imersos num caos moroso, e com frequência crescente lançam olhares desesperançosos ao longe, sem saber o que estão esperando ou de que fome padecem: sabem que esta os consome lentamente e que assim agonizam, mas nada é capaz de saciá-la.

Mubembo narra às crianças uma lenda sobre gigantes que copulavam incessantemente e foram petrificados em punição, deixando expostos sobre a ilha e o mar seus gigantescos seios e pênis. É assim que o personagem Ruy Guerra, olhando para a câmera e além dela, busca o ponto final do filme, mas encontra apenas reticências.

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Rodrigo S. Pereira Escrito por:

Estudante de Cinema da UFPE.

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