Ruínas por José Juva, Paulo do Amparo, Eduardo Amorim, Sidney Rocha e Anco Márcio

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Foto: Igreja do Rosário dos Pretos da Muribeca por Marcelo Ferreira.

A revista Outros Críticos, na edição sobre o tema “Ruínas e Cultura”, provocou diferentes autores a nos enviarem relatos sobre suas experiências com as ruínas da cidade, aquelas encontradas por acaso, ou mesmo as que nascem de suas reflexões sobre o lugar que as cidades estão ocupando atualmente, suas transformações.

José Juva – Poeta e ensaísta, publicou ‘deixe a visão chegar’, ‘vupa’ e ‘breve breu’.

o grande e o pequeno fiteiro do comerciante universal

vendemos um poema para cada janela
enquanto passeamos, vira-latas na via láctea,
com os olhos engolindo um pouco de luz
que escapa da fiscalização do trânsito celeste.

gigantes de pedra morreram asfixiados.
apesar disto, a erva cresce no final
do corredor. nossas dores escorrem
pelo caule da árvore, pingando por suas raízes
aéreas. esfinges fingem não roer as unhas
quando olham as ruínas da conciliação.

a pele dos prédios descama cotidianamente
e o sol retorcido das pixações faz carinho no lodo.

Em 2014, eu participei de uma rápida oficina sobre criação poética com Wellington de Melo, dentro da programação da Semana Manuel Bandeira, do Espaço Pasárgada. Entre várias provocações e gatilhos para a escrita, Wellington sugeriu uma deambulação por ruas adjacentes ao espaço da velha casa do poeta Manuel Bandeira. Na Rua da Aurora, ali perto do Museu de Arte Aloísio Magalhães tem um prédio abandonado, mas cujo interior é possível observar por algumas frestas. Eu vi bastante grama e lodo colorindo o cinza e o preto daquele prédio, com persistência. Mas o grande reencontro mesmo foi com a Loja Maçônica Conciliação. Ela fica ali na Avenida Conde da Boa Vista, mas não é possível enxergá-la passeando de carro, de ônibus, até mesmo a pé. Só por acaso ou pela instigação de alguém que já saiba da existência do prédio desta loja Maçônica é possível encontrá-la, ali, por trás dos edifícios, nos fundos da loja da Habib’s. Eu já havia me deparado com a loja, lá pelos idos de 2007, quando fiz o documentário sobre o músico Cinval Coco Grude para concluir a graduação em jornalismo, pela UFPE. Mas passados todos estes anos, eu simplesmente havia esquecido da existência dela. A loja havia retornado ao campo de enigmas sob nossos pés. Reencontrá-la aquela tarde, perambulando pela cidade com o propósito de captar fissuras, brechas no caroço da realidade, fendas no cotidiano para mobilizar a escrita poética foi como um transporte numa máquina do tempo. Enquanto duas funcionárias do Habib’s tiravam uma pequena folga fumando lá no pátio do fundo da loja, nós estávamos ali absorvidos pela presença estranha daquela loja maçônica, como que pousada entre os prédios habituais da avenida. Duas esfinges protegem a entrada e lá no alto da fachada podemos ler: Conciliação, logo abaixo do esquadro e do compasso. Foi uma experiência e tanto, foi uma suspensão do tempo ordinário. Depois descobri que a loja foi fundada em 1822. Apesar de parecer abandonada, suspeito que ainda haja reuniões e ritos lá. Desta experimentação surgiu o poema que transcrevi antes do depoimento.

Paulo do Amparo – Artista Visual e músico

Eu tenho um fascínio natural por ruínas, sonho muito com ruínas invadidas pelo mar, algo semissubmerso, aquela urgência na variação da maré, fluxo, processos etc… Voltei a frequentar Pau Amarelo quando meu amigo Ernesto herdou uma casa na beira-mar bem perto do forte, exatamente no auge do avanço do mar e das obras para contê-lo. A casa bem velha, mas não tão antiga, precisando visivelmente de manutenção. O mar invadiu algumas vezes e salgou o jardim. Grades se desfazem em ferrugem, cupins, sol e chuva. Combina com a personalidade de meu amigo: filho e neto de perseguidos políticos, ele próprio meio desconfiado de tudo, tomando conta pra que a casa/terreno não seja invadida por nada nem ninguém. O silêncio e a escuridão do quarteirão, as ondas batem na obra de contenção e estrondam, a casa é como as ruínas que sonho. Cheiro de sal e sargaço. A luz do poste projeta um facho na maresia. Tudo isso me sugere algo profundo e espiritual, algo gigantesco: o tempo, o universo, o processo de desaparecimento da informação no meio da enxurrada de informações novas, transcendência… Mundos dentro de mundos.

Eduardo Amorim – Jornalista, mestrando em Comunicação pelo PPGCOM-UFPE.

Uma das cenas mais saudosas da minha infância é andar de cavalo com meu pai (ou meu avô) por perto do Sítio Três Irmãos. Hoje conhecido como “Paraíso” pela comunidade local, a propriedade foi deixada pela família para o meu pai, que ali plantou pitanga, cajá, acerola, coco e outras árvores frutíferas. E me deu de presente um cavalo chamado Estrela. Muitos anos depois da morte do meu pai, em uma obrigação de trabalho, finalmente fui levado a reconhecer o cenário da Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Muribeca. Como jornalista, foi incrível perceber que não era mentira inventada pelos meus ancestrais, que aquelas pedras eram resquícios do tempo da segregação entre negros e brancos. Uma das poucas regiões que guardam áreas rurais da segunda maior cidade pernambucana, a Muribeca é conhecida por um lixão desativado, um aterro sanitário e um enorme conjunto habitacional e uma longa história de luta por moradia de centenas de famílias que foram obrigadas a sair do Conjunto Muribeca pelo risco de desabamento. A Muribeca dos Guararapes do início do Século XVI, um dos primeiros engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco, é uma história ainda quase absolutamente desconhecida. Trazendo ainda mais caldo para as marcas deixadas naquelas ruínas hoje tomadas de mato, rochas já cobertas por lodo e com uma falha de proteção para não permitir a invasão. A história dos pretos da Muribeca ainda está a ser redescoberta, mas me deparar com o cenário da vida deles me trouxe de volta à infância por alguns instantes.

Sidney Rocha – Escritor, é autor de ‘O destino das metáforas’, vencedor do prêmio Jabuti de Literatura.

Talvez pudesse erguer meu depoimento sobre as ruínas, de Ítalo Calvino. Ou mais perto: ao sonho dos homens que inventam cidades, de Carlos Pena, que é a mesma energia, mais ao Sul, de Borges, com seus deuses incendiados nas ruínas do templo. Mas todo discurso é ruína como a memória é ruína sobre ruína. Talvez por isso Francisco Brennand tenha construído seu ateliê sobre a ruína de uma fábrica construída sobre as ruínas de um engenho. Há no Recife tantas camadas de ruínas, tanta sede de se diluir o passado, que não é errado falar de recifes que soterram recifes. Inteiras. Recife é a cidade que o Recife engoliu. “Tudo ali sofre a morte mansa/ do que não quebra, se desmancha”, dizia João Cabral num poema sobre canaviais e cupins. Enfim, Recife é madeira que cupim. Ando pela cidade. Hoje, há pouco para se ver. Mas ouço vozes. São essas vozes de certa paisagem desaparecida. Para mim, sons e silêncios são também paisagem. Uma grande floresta de silêncios desapareceu: o beco do vento, de silêncios, nos anos 80. A madrugada na Ponte d’Uchoa, onde a manga, caindo no pátio do colégio, acordava o bêbado, no banco. O silêncio do domingo à tarde na Ilha do Leite, da rua da Glória. Seus Afogados, Aflitos — que devem seus nomes a catástrofes, e se erguem também sobre suas próprias ruínas, mudos. O mundo do Engenho do Meio, da Várzea, o silêncio. Sem silêncios, dormimos e acordamos sem pensamentos, sem reflexões, sem futuros. Aquele Recife acabou. E não adianta imaginar que foi o mundo que vi, que começava no Recife. Acabou, como Cartago, que os romanos passaram décadas para varrer da face de Roma. Quem estava lá, não me deixa mentir: os romanos derrubaram muralhas, demoliram casas, galpões, estelitas, e mataram a população, os que resistiram, que não se dobravam escravos. Depois, semearam sal nas plantações para que nada mais ali crescesse. Era paisagem desoladora. Contam que Emiliano, o general invasor, chorou quando viu. Aqui, também, Emiliano, imperadores de novos recifes tentam salgar o Recife todos os dias, há décadas. Como aqui romanos não choram, é torcer para que a cidade pense mais. E resista. Ah, lembrando o resto da história: Certo dia, acordando de sonhos intranquilos, Roma acordou e Roma havia caído. Arruinada. Sem choro. Sem torres. Sem vela. Silêncio.

Anco Márcio Tenório – Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE.

O Recife tornou-se nas últimas décadas um aglomerado de ruínas. Uma estranha e fantasmagórica ruína, pois ela não está à vista de quem queira vê-la ou senti-la em sua decrepitude arquitetônica, em suas paredes descascadas ou caídas, em suas portas e janelas arrancadas, com seus espaços vazios dando para outros espaços vazios, putredinosos, oferecendo-nos uma leve ideia do que fora em passado recente ou remoto; uma estranha e fantasmagórica ruína, pois ela não reside apenas e somente nas memórias efêmeras dos homens e mulheres que foram suas testemunhantes ou nas imagens que a congelaram em fotos, quadros, filmes, poemas, crônicas, narrativas ficcionais…; uma estranha e fantasmagórica ruína, pois ela só se faz visível por subtração, pela volumetria e os traços arquitetônicos que estão, assim como a imaginação, suspensos no ar; uma estranha e fantasmagórica ruína, pois são como os ossos e as carnes putrefeitas que os túmulos e os jazigos guardam e tornam invisíveis. Sim, por trás de cada novo edifício, de cada nova via que é aberta, há uma ruína suspensa no ar. Seus ossos e as suas carnes putrefeitas não estão à vista, como não estão também à vista nos cemitérios, mas sabemos que eles jazem ali. Não dá para falar desta ou daquela ruína, dos corpos que repousam nas pedras do IML ou dos que são velados nos velórios, quando toda cidade vai se constituindo em um grande cemitério. E como todo cemitério, ela guarda por trás dos jazigos caiados, dos novos túmulos que são erguidos, os restos mortais daqueles que um dia povoaram a paisagem de uma cidade que já não existe mais. Homens e mulheres que, assim como Recife, só existem agora nas memórias dos que lhes sobreviveram, nas fotos guardadas pelas famílias (algumas fixadas nos jazigos, assim como os nomes que batizam as novas construções) e nas imagens em movimento que nos dão a falsa impressão de que os mortos e as ruínas conseguem ressuscitar e assombrar a nós, os vivos. Recife é um grande cemitério com suas ruas permanentemente visitadas pelos vivos, lamentando a morte dos que se foram e temendo a sua frágil existência, como se ele, o Recife, vivesse um eterno dia de finados. O cemitério é o lugar que esconde a ruína e a memória dos que viveram entre nós; o Recife é um cemitério formado por jazigos de quarenta andares, caiados com azulejos e cerâmicas, fermentando suas carnes sob um calor de 40 graus.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: Bruna Rafaella Ferrer – Entre as ruas Turiassú e Av. Antártica (São Paulo-SP)

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Outros Críticos Escrito por:

Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

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