Revirar escombros: reconstruções do jornalismo

por Bruno Nogueira.

Nos últimos três anos, a quantidade de jornalistas demitidos em massa das redações dos veículos tradicionais de imprensa – os jornais impressos, os canais de televisão, emissoras de rádio e portais de notícia – seria suficiente para lançar pelo menos dois grandes conglomerados de mídia. As notícias assustam quando estamos em sincronia cronológica com os fatos: no Recife, o Diario de Pernambuco demitiu 30 repórteres em março; já em São Paulo, o Grupo Folha afastou 50 no mês seguinte. Nos Estados Unidos, veículos como o Chicago Sun-Times se desfez de todos – isso mesmo, todos – os fotógrafos.

Os afastamentos, quase sempre justificados pela queda da circulação e audiência e a reajustes no setor financeiro, criam uma atmosfera de ruína para o jornalismo. Mas esse cenário faz parte da composição de uma das controvérsias mais interessantes da atividade: existe um certo glamour compartilhado na sociedade em ser jornalista, que faz a formação ser uma das mais concorridas nas universidades. Um universo que mistura a ansiedade de chegar lá, com a desilusão e frustração de se estar lá, como aconteceu com Natalie Caula Huff, do periódico The Post and Courier, e Rob Kuznia, do Daily Breeze. Ambos deixaram a profissão para desempenhar outras atividades – serviço público e relações públicas – com um prêmio Pulitzer, o maior reconhecimento da área, na mochila. Kuznia, especificamente, deixou a profissão afirmando que o salário não o permitia pagar o próprio aluguel.

Essas controvérsias, como dito, fazem parte da essência do próprio jornalismo. O pesquisador português Nelson Traquina, uma das principais referências no estudo sobre o jornalismo no mundo, lembra que um dos percursos mais difíceis da atividade foi a de ser considerada, de fato, uma profissão como a de advogado e médico. E não somente um trabalho de menos prestígio e sem uma perspectiva individual. O desafio, lembra Traquina, está no fato do jornalismo parecer, primeiramente, se tratar de um saber técnico (escrever e apurar) e estar recheado de interesses sindicais e empresariais que minam o esforço intelectual.

Para alguns, entretanto, a crise que o jornalismo vive hoje, especialmente no Brasil, é bem diferente. José Flávio Júnior, que tem textos assinados nas revistas Bravo, Rolling Stone, Billboard, Vip, Playboy, Capricho, Isto É Gente e nos jornais Folha e Estado de São Paulo, faz uma conexão com o momento político e econômico do país. “O que o brasileiro corta primeiro quando precisa apertar o cinto? Não é a farinha. Internamente, a gente sabe que a Copa do Mundo deu uma camuflada na situação trágica pela qual as empresas jornalísticas estavam passando. Editoras e jornais seguraram as pontas para poder receber a grana vinculada à Copa, e aí dar um respiro. Mas parece que a Copa não foi lucrativa para ninguém”, contextualiza.

“Eu costumo dizer que toda pessoa num chat do Facebook está produzindo conteúdo e tirando audiência de alguém. Não há outro jeito: as empresas de jornalismo têm que trazer histórias e features interessantes” – Márvio dos Anjos

Editor Geral do jornal Destak, que apresenta um modelo diferente de jornalismo no Brasil, principalmente pela distribuição gratuita, o jornalista Márvio dos Anjos concorda com o contexto, mas vai um pouco além. “Essa crise não é exatamente recente, mas, em cenários econômicos de retração, como o que estamos vivendo, ela tende a se acentuar. Ela força uma transição, que os jornais estão buscando, de uma forma ou de outra, seja pela redução de papel, seja pelo posicionamento on-line”, diz, apontando para uma perspectiva de mudanças. “Eu costumo dizer que toda pessoa num chat do Facebook está produzindo conteúdo e tirando audiência de alguém. Não há outro jeito: as empresas de jornalismo têm que trazer histórias e features interessantes”, completa.

Olhar para a Internet como uma perspectiva de mudança parece ser um caminho natural. José Flávio Júnior, no entanto, traz um contraponto que esbarra, mais uma vez, em outros contextos maiores do país e aponta um culpado: o próprio leitor. “Por que o problema seria da credibilidade dos veículos? Mesmo os mais contestados seguem publicando reportagens relevantes, revelando falcatruas que depois se provam grandes casos de corrupção”, defende. “Podia ser melhor? Claro. Mas o leitor também poderia ser mais qualificado. Mas não é o jornalismo que forma as pessoas”, lembra o jornalista. “O problema vem da qualidade de nossa educação e de nossa fraqueza econômica. Por que uma nação com tantos analfabetos funcionais e com tanta gente passando por necessidades teria um jornalismo pujante?”, alfineta José Flávio.

Isso é algo que muda, para Márvio dos Anjos, quando você trabalha em um veículo de comunicação de acesso 100% gratuito. “Ser de graça nos faz pensar que somos não apenas indexadores das melhores histórias, como também temos participação num processo de capacitação dos nossos leitores para a cidadania, para a gestão de finanças e para o debate, que é o grande legado das redes sociais hoje em dia”, diz. Para o editor do Destak, essa prestação de serviço ganha uma importância maior em tempos que todos querem ter uma opinião, por isso o jornal precisaria ser menos informativo e mais contextualizador.

Se o Brasil não consegue cultivar esse jornalismo pujante na prática, ele ainda persiste no imaginário. Foi o que levou a universitária Elen Taline a escolher pelo curso da Universidade Federal de Pernambuco. “Eu achava que jornalistas podiam mudar o mundo”, conta ela, que na época do vestibular passou por um teste de aptidão promovido pela sua escola, que a fez desistir do curso de Artes Cênicas. Elen estava longe de ser diagnóstica com a síndrome de Clark Kent que sofre, por vezes, os profissionais da área, e tinha uma abordagem mais prática. “Se as pessoas têm acesso à informação sobre um direito que antes elas não usufruíam e passam a exigir ele, isso é mudar o mundo, de alguma forma”, diz a estudante, que está no penúltimo período do curso.

Ao traçar uma proposta de divisões sobre como o jornalismo pode ser compreendido, o jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense, Felipe Pena, lembra que parte da profissão é puramente ritualística. Em uma perspectiva gnóstica, tem o jornalismo que se aprende e o que se faz. A percepção do mercado de Elen Taline mudou quando ela passou a estagiar numa trajetória comum do curso: primeiro em assessorias de comunicação, depois em veículos. “Foi quando ferrou tudo”, conta. “Os interesses da empresa são reais e acontecem com frequência. A pior coisa era ter que cobrir evento da empresa e colocar no ar. Tinha matéria que não tinha valor notícia nenhum. Só estava lá porque o dono mandou mesmo”, lembra.

Com as demissões em massa, ficam nas redações um volume maior do repórter mais jovem e desencantado com a área. “Os jornalistas mais jovens que acompanhei nos últimos anos chegaram às redações e rapidamente perceberam que escolheram uma profissão furada, sem futuro”, conta José Flávio Júnior. “Eles não valorizam certos aspectos da profissão que as gerações anteriores valorizavam. Num encontro com uma personalidade, preocupam-se mais em tirar uma foto com o entrevistado do que em realizar uma boa entrevista. Há pouco capricho no texto final. E eles leem bem menos, no geral. Se pintar uma demissão, o foca até agradece. Um motivo a mais para ele cair fora da roubada”.

À frente de um jornal que tem sucursais em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Recife, Márvio entende que a engrenagem da mídia dificulta. “O problema do jornalista novo é que o convite e as forças que o reduzem a uma mera engrenagem são muitos. O principal motivador que esse jovem precisa manter é o de escapar dessa redução”, conta, mas também identificando problemas no novo repórter. “Para ser efetivo e ter histórias próprias, o jornalista tem que saber alternar a demanda diária com a história que ele pretende alcançar. O que eu sinto é que poucos se arriscam, poucos tentam seduzir o editor com uma história nova e poucos negociam a saída do ritmo diário em busca de algo que realmente seja diferencial”, diz o editor.

Enxergar uma saída para esse cenário de ruína parece ser difícil. “Blogs? Já estão inseridos no jornalismo tradicional. Sempre estiveram”, conta José Flávio. “Blog costuma ser uma coluna com mais atualizações. Buzzfeed e sites com legendinhas engraçadas são um sinal dos tempos. Típico dessa geração de idiotas que está na dianteira do universo”, provoca o jornalista. “Foi difícil entender que é possível fazer jornalismo fora das empresas”, complementa a estudante Elen Taline, que hoje tem como meta profissional trabalhar em comunicação pública. Sua vontade está alinhada com o contexto geral apontado por editores como Márvio e jornalistas experientes como José Flávio: trabalhar comunicação na base da carência maior hoje do país, que é o setor público. Essa é uma perspectiva real e menos utópica, que tem aparecido como uma saída para um jornalismo com mais comprometimento. É o caso da Agência Pública. Sem fins lucrativos, eles produzem reportagens que buscam alinhar alguns dos problemas apresentados aqui: prestar um serviço de qualificar o leitor e mostrar ao novo jornalista um caminho diferente para seguir. Concentrado no eixo temático dos preparativos da Copa do Mundo, os investimentos na Amazônia e a ditadura militar, a agência encontra financiamento para distribuir em “bolsas-reportagens”, para aquele que se aventurar sair da zona do conforto dos releases de assessorias e se aventurar em apurações em profundidade.

“Os jornalistas são participantes ativos na definição e na construção das notícias e, por efeito, na construção da realidade” – Nelson Traquina

De volta às reflexões de Traquina, por mais que o contexto econômico reforce esse cenário de ruína, a importância do jornalismo é evidente. “Os jornalistas são participantes ativos na definição e na construção das notícias e, por efeito, na construção da realidade”, destaca o autor. Outro importante pensador da comunicação contemporânea, Pierre Lévy, dá uma dimensão ainda maior, ao afirmar que “o exercício moderno da democracia está ligado ao desenvolvimento dos mass media, a ponto de podermos afirmar que não há democracia sem liberdade de imprensa e de livre expressão da opinião. Ter mídias livres é uma condição básica para o exercício da democracia”.

“Talvez seja a hora de aparecer um híbrido entre jornalismo e videogame”, reflete José Flávio Júnior, pensando no contexto do jovem leitor. Os chamados “newsgames” já estão em pauta desde 2012 e ajudam a complementar um tripé para o futuro do jornalismo: repensar as condições de produção – como o jornalismo sem fins lucrativos da Agência Pública –, repensar as condições de consumo, como ilustrado por essa fusão de plataformas e experiência de recepção de conteúdo, e repensar a relação entre jornal e leitor, sendo parte de uma formação complementar ou de fomentador dos cada vez mais infinitos debates travados pelo público nas redes sociais on-line.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: Bruna Rafaella Ferrer

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Bruno Nogueira Escrito por:

Jornalista, Doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, atualmente desenvolvendo pesquisa de Pós-Doutorado na UFPE.

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