Questões incômodas são bem-vindas ao metal

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A sueca Crucified Barbara é uma das bandas analisadas no livro de Janotti Jr. O título do livro é de uma das canções do grupo.

por Wilfred Gadêlha.

Dando uma olhada na bibliografia brasileira sobre heavy metal, o resultado pode ser desanimador. Sem que haja um título que sintetize, ou melhor, sistematize o cenário do País, o que deixa a situação menos desalentadora é notar que, pelos quatro cantos do Brasil, pesquisadores vêm desbravando o terreno, apesar de todos os obstáculos. É com esse espírito que podemos aplaudir iniciativas como a de Jeder Janotti Júnior.

Longe de ser um iniciante ou amador no assunto, Janotti, no seu novo livro, Rock me like the Devil – A assinatura das cenas musicais e identidades metálicas, lançado pela Livrinho de Papel Finíssimo, busca mais inquietar do que responder – o que não deixa de ser uma provocação ao espectro conservador que assola o metal há décadas.

Rock me like the Devil – título emprestado de uma música das suecas do Crucified Barbara – discute vários assuntos relacionados ao metal, mas não é uma publicação para (apenas) headbangers. Aborda temas como gosto, performance, mistura de sonoridades, a participação feminina, , entre outros aspectos que dizem respeito a este gênero musical que nasceu do rock, mas que criou suas próprias regras e “milita” independente já há algumas décadas.

É interessante justamente porque são temas que nem sempre são aprofundados nas mesas de bar e que encontram guarida na academia, trilhando um caminho que vem sendo seguido por inúmeros pesquisadores. Não é um livro sobre a cena pernambucana, mas Pernambuco também se faz presente, “representado” aqui pelo Cangaço, uma banda que busca se diferenciar dos seus pares locais por mesclar sonoridades regionais ao extremo metálico, em uma discussão justa e perspicaz sobre identidades – um dos trunfos de Janotti em sua abordagem reflexiva.

O livro do professor do Programa de Pós-Gradução em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco usa uma linguagem a que os headbangers talvez não estejam acostumados. São como aqueles álbuns que você tem que ouvir mais de uma vez para entender. E que termina se tornando obra de cabeceira.

Para traçar um paralelo apropriado, ele se assemelha às tradicionais baladas do Metallica. Começa de maneira mais reflexiva, até certo ponto lenta, para depois ir num crescendo até, finalmente, explodir em riffs poderosos, com um clímax à lá Fade to black ou One.

RMLTD vai um pouco mais além porque é provocativo. As questões que ele suscita mexem com a ideia do metal como gênero acabado, lapidado. Não, não é e nem vai ser. Porque, com suas contradições, com seu conservadorismo travestido de rebeldia, o metal reflete as idiossincrasias de seus adeptos. Em uma sociedade complexa como a que vivemos hoje, questões que incomodam são bem-vindas.

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Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, coordenada o grupo de pesquisa Mídia e Música Popular Massiva e é autor dos livros Aumenta que Isso Aí é Rock and Roll e Heavy Metal com Dendê. Foto: “Outros Críticos convidam” – Fora do Eixo – Coquetel Molotov: Divulgação

ENTREVISTA

Como se deu o processo de produção do livro?

Bem, o livro surgiu de uma dupla necessidade: 1) colocar para fora algumas reflexões que vinha desenvolvendo sobre música, valor, gosto e metal. 2) o livro Heavy metal com dendê (meu outro livro que também trata do metal) é uma pesquisa mais localizada, que trata da cena metal de Salvador no final dos anos 90. Já este livro aborda o metal como um lugar para discussões de questões mais amplas sobre identidade e música, performances de gosto, o feminino e música.

Este não é o seu primeiro livro. Como você o compara com os anteriores?

Como todo trabalho recente, este me parece mais amadurecido. Tenho tomado um pouco mais de cuidado ao abordar o metal para observar também suas contradições e não só o que enxergo através de meus olhos românticos de headbanger.

Como você vê a pesquisa sobre metal no Brasil?

Acho nossa produção de primeira qualidade, como a tese de Pedro Alvim sobre a cena metal no Rio defendida no programa de antropologia do Museu Nacional, a dissertação de Leonardo Campoy publicada em livro sobre o metal extremo Trevas sob a Luz, a dissertação em mestrado de Bernad Silva defendida no mestrado em história da UFPA sobre a construção da cena metal de Belém.

Onde o livro pode ser encontrado?

Sua versão digital está disponível na amazon.com.br, na Livraria Cultura, na Apple Store e na Google Store.

E quais são os próximos projetos?

Ir a muitos shows, beber e curtir. Brincadeiras à parte, estou desenvolvendo uma pesquisa junto com meus alunos sobre cenas culturais de Recife em seus aspectos espaciais e estéticos.

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Wilfred Gadêlha Escrito por:

Jornalista e autor de "Pesado – Origem e Consolidação do Metal em Pernambuco".

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