“Quem não enche a tampa no fim de semana é sem molho”

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Jean Nicholas e a Bueiragem. Foto: Juvenil Silva/Keyse Menezes

Lançamento da Coletânea O.N.I. na Casa do Cachorro Preto em Olinda

Parecia mais uma vez que a chuva iria enlamear mais um evento da tal Cena Beto. Em junho, o festival Desbunde Elétrico já havia sido adiado porque o mundo, quer dizer, Recife, estava em águas.  O domingo amanheceu sob canivetes aquáticos, que como muitos sabem, ferem nossas cidades e sensibilidades. Rapidamente, após os primeiros sinais de desânimo dos conectados de plantão, Juvenil Silva e sua trupe  invadiram o Facebook e lembraram que o esperado show iria acontecer, afinal “era só água”, que farinha no meu pirão é pouco.

Como se não bastasse aos desabitados dos editais de cultura, ter que montar, gravar, vender e bradar seus produtos botando a face à tapa, pairava o temor de mais uma frustração, uma bad trip. Mas, ao final, a chuva se acalmou e a Casa do Cachorro Preto encheu! Também era de graça, desgraça pouca é pouco para a Cena (Be)Beto.

Assim, a maldição mangue continua a assolar as ruas da Grande Recife, quiçá do mundo. A Alfaia Fantasma daquela turma que pensa que os editais de apoio à cultura eram só para a ponta de produção da cadeia da música, assombra todos aqueles que pensam em cobrar ingresso (pasmem!!!) de shows de música autoral local. Que não me venham com vale cultura e 0,20 centavos que parte dos neófitos que foram à Olinda pagar pau para um monte de coisa menos expressivas que Ex-Exus, Graxa, Matheus Mota, Jean Nicholas, Juvenil, Zeca Viana, entre tantos outros. Sem vaselina e sem pestanejar (têm festinhas de descolados que cobram até 100,00 com open bar!). Com essa grana eu contrato um pocket show para um churrasco lá no meu apê. Por isso, acho que tem que cobrar entrada sim, cinco reais que seja para exorcizar a Alfaia Fantasma e os batuques da maldição virada de nossos músicos.

Em um trecho da Caranguejada do Beto 2, Juvenil, em água dura, brada: “Ninguém aqui gosta de trabalhar, não”. Engano agridoce, do mesmo cara que depois de tocar no lançamento da O.N.I., recolhia sozinho a bateria, colocava ferragens e tambores no carro, porque artista, visse, é igual a boleiro, bebe, se esbalda, mas “trabalha”, “compõe”, grava na “despensa de casa” e carrega os instrumentos. Enquanto isso, os órfãos do Empório (não abre domingo, porra!!!) não se abatiam com a tristeza do domingo (e a segunda que já saltava no cangote), e buscavam por mais algumas doses de adiamento do fardo de cada dia.

Mas não houve negociações com a tristeza. Em águas, o domingo foi de êxtase, de chegada de gente que não conhecia a cena, e de desbunde para quem ansiava por rever na cara, Matheus Mota e Ex-Exus, dentre todos os outros. Diga-se logo que parece que a própria Cena (Ro)Beto tem inhacas com o rótulo. Não li ou vi em lugar algum a turma nomeando o lançamento da coletânea O.N.I. como algo da Cena Beto. Esse negócio é só para quem tá dentro?

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Matheus Mota na Casa do Cachorro Preto.

Matheus Mota mostrou que o trânsito de suas canções entre a ironia fina musical e colagens cotidianas, alinhando melodia e prosa, canções pegajosas e ao mesmo tempo elegantes, só se vale da produção caseira, da estética do tosco como o possível a ser feito. Quem só escuta seus discos, e não o consumiu ao vivo, não tem dimensão da força das canções do tímido, músico sagaz, do bairro do Derby. Mesmo para quem, como eu, viveu seu momento de show de final de ano do Roberto, cantando em uníssono: “Quero ver essa gente da rua correndo daqui”, percebeu que a música de Matheus não faz concessões ao fácil e sim, ao suposto familiar, como os reclames do plim plim.

Avenida by matheusmota

Aliás, falando de quem não faz concessões, é bom não se esquecer de duas personagens fundamentais da cena:

1. D Mingus, que apesar de não estar no palco de corpo presente, é  produtor (músico, compositor) que consegue fazer discos para os Betos na despensa, com pouquíssimas horas de gravação e edição, enfim, um mago dos desabitados dos editais. Imagine o disco Molho (Graxa) com banda completa, grana e tempo para flertar com o perigo?

2. Aninha Martins, a elegante cantora de interpretação forte que dá sabor único a muitas das canções de Matheus, enformando um mar de testosteronas Betos. Ainda bem que escorre beleza na terra dos mastodontes.

Após Matheus Mota, o jogo ficou nas mãos de Jean Nicholas, fusão de Iggy Pop, pegada crua e sotaque singular igual a visceralidade sem concessões. Tal como a camisa do Black Sabbath que vestia, seu show foi direto, sem rodeios; contando com o buggie-man Graxa agregando molho no contrabaixo. Nicholas tocou para roqueiros, sem “firulagens”, que isso dá indi(e)gestão. “Pisando duro/ Feito Personagem/ Um Frank Miller no Meio da Chuva”. Sem devaneios estéticos, sua voz e guitarra são diretas, herdeiras da pegadas rock’n’roll de Iggy e da “Bueiragem” de Raul. Parte do público, talvez os descolados de plantão se assustaram e se afastaram, mas para quem espera mais que sentar no pino do banquinho zona de conforto, Jean Nicholas mostrou que “ainda vai querer jogar” mas não “nesse jogo que você quer me empurrar”.

Jean Nicholas e a Bueiragem – Bueiragem by Jean Nicholas e Bueiragem

Até que os Ex-Exus incorporaram e lançaram seu porrete contra a maldição mangue.  Os Exus, o mais humanizado dos orixás, evocaram Paulinho do Amparo para fechar a noite e atravessar com sonoridades precisas e pesadas o couro da Alfaia Fantasma. Sem concessões ao singelo, performances de músicas como “Carne Humana” e “Pra Ivete Dançar” mostraram que a produção de Alex Antunes não deu conta da força da banda. É possível se afeiçoar ao disco da banda após sua performance compacta e impactante, rock singular com sotaque e peso. Ex-Exus abre caminhos para a afirmação dos Betos (ou que nome queiram dar a essa cena musical). O sentir-se, por um momento, quase satisfeito após o show é efeito dos novos aditivos sonoros que habitam o Recife.

10 – Pra Ivete cantar by Ex-Exus

A intensidade sonora do lançamento da coletânea O.N.I. fez estrondo mostrando o lado podre da receita insossa dos descolados que insistem em sentar nos pinos da zona de conforto do Recife. Contra a Maldição Mangue, restou o caótico final em que Ex-Exus, Graxa, Juvenil Silva e quem teve coragem de exorcizar os fantasmas cantaram desafinadamente o coro dos desabitados do hellcife: “Quem não enche a tampa no fim de semana é sem molho!”

por Jeder Janotti Jr.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

2 Comentários

  1. 20 de agosto de 2013
    Responder

    O escritor chegou tarde e perdeu Jazzy Grillo e Dunas do Barato, foi a chuva?

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