Público, Públicos

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Fotos: Deborah Czar

por Marina Suassuna.

É interessante perceber a disparidade no comportamento do público de um festival. Obviamente, são várias as motivações que levam as pessoas a frequentarem um evento pautado por uma programação que traz desde atrações estrangeiras a novidades da cena nacional, além de nomes fora do circuito comercial e os que unem o mainstream ao alternativo. Nenhum festival escapa dos nichos. Sempre há o público que vai ver apenas um ou dois artistas específicos. Como também aqueles que, além de desejarem curtir seus ídolos, se deslocam na expectativa de surpreender-se com artistas que não conhecem e acabam alargando seus horizontes musicais. No final das contas, sempre há música que chegue para todos. No entanto, a plateia que prestigiou a 23ª edição do Abril pro Rock, na última sexta-feira, no Chevrolet Hall, mostrou-se um tanto preguiçosa e desinteressada.

A recepção dos shows que antecederam a banda Pato Fu e a cantora Pitty – nomes de maior popularidade da programação – foi evidentemente morna. A maioria sequer levantava dos batentes onde estava acomodada para uma tentativa de aproximação com os artistas. Alguns observavam de longe, com uma certa desconfiança. Ainda que favorecida pela acústica e logística de palco (as bandas se revezavam entre dois palcos vizinhos num intervalo de tempo quase inexistente), a performance competente de bandas como Kalouv, The Shivas e Boogarins teve de lidar com um público bastante tímido. Dizer que o festival teve um número de espectadores abaixo do esperado não seria uma justificativa, já que muitas pessoas, incluindo caravanas, se encontravam presentes, porém dispersos. Seria exagero dizer que ninguém vibrou com tais apresentações, sobretudo com a Far From Alaska (RN), que se sobressaiu nesta noite com um show pra lá de energético. A banda dEUS, tida como uma das atrações gringas mais esperadas desta edição por ter sido a primeira banda internacional da história do Abril pro Rock (se apresentaram na edição de 1996) também não conseguiu atrair olhares em grande quantidade, passando até despercebido para alguns. Não se trata de questionar o mérito das bandas, que em nenhum aspecto deixaram a desejar.

“O desinteresse que se instaurou durante grande parte da noite reflete a escolha da maior parte do público presente.”

O desinteresse que se instaurou durante grande parte da noite reflete a escolha da maior parte do público presente. Foi só os integrantes da Pato Fu subirem ao palco que a falta de entusiasmo que prevalecia foi interrompida, dando lugar a um público heterogêneo que fez questão de se concentrar na pista. A banda fez boa parte do público não só ficar de pé, como expressar uma empatia geral. Os mineiros não precisaram se esforçar muito para ouvir o coro da multidão em músicas como Eu, Depois, Canção pra você viver mais e Não pare pra pensar. Durante a apresentação, Fernanda Takai brincou com a plateia em vários momentos. Num deles, comentou a presença feminina no cenário do rock brasileiro. “Muita gente me pergunta porque tem poucas mulheres tocando rock. Mas é só uma questão de quantidade, porque em termos de qualidade, estamos muito bem servidas. Este festival é a prova disto. Com Pitty encerrando então… Ou seja: há futuro.”

Pitty encerrou a noite com um show à altura de um grande festival de rock. O público febril e apaixonado não poupou energia. A cantora muito menos. Pitty fala e canta com o corpo. Aliás, seu corpo também é música. Sua banda, um espetáculo à parte. Várias gerações de jovens reunidas para ver a roqueira baiana que se firmou como nenhuma outra no rock brasileiro contemporâneo. Com um repertório consistente, que foi do álbum de estreia Admirável Chip Novo (2003) ao mais recente, Sete Vidas, o show foi, certamente, a cereja do bolo que aquela noite do festival precisava.

“Associar o êxito de um festival apenas à boa performance dos artistas […] é ignorar todo o trabalho de uma curadoria que se esforça para construir uma grade diversificada.”

No entanto, associar o êxito de um festival apenas à boa performance dos artistas e ao sucesso de um ou dois shows específicos é ignorar todo o trabalho de uma curadoria que se esforça para construir uma grade diversificada. Sem falar que é necessário levar em conta a postura do público, que tem papel fundamental na legitimação do evento. Se o público é o grande patrimônio de um festival, como disse Carlos Seixas, programador do festival português FMM Sines, faz-se necessário reconquistá-lo a cada edição, atentando para todos os fatores e pormenores que, somados, sustentam a dinâmica de um festival. E como explicar, neste caso, a mudança súbita de comportamento do público? Seria o caso de repensar se realmente havia público para tantos nomes ainda pouco evidentes no mercado brasileiro? Ou o público que está acomodado, precisando despertar os ouvidos para o que está além do seu alcance?

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Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

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