Polivox

Uma forma esquisita de curadoria
Envie o máximo de e-mails que puder
Desrespeite o edital e suas áreas especializadas
Desista dos prazos que você mesmo estabeleceu
Essa expressão que detesto usar dead line
Traga outras vozes para a curadoria polivox
Não seja o curador seja o que envia os e-mails
Quantos responderão ao chamado?
O que for de mais potente
O que estiver na ponta da língua rumor boca voz cabelo pele 
política estética utopia o que quer ser dito escuta, fala
 
Esta seção da revista Outros Críticos ouvirá sempre o que retornar 
uma espécie de série de timbres 
sobre os temas que circundam as nossas inquietações
 
O que pode o corpo?, eis o mote a provocação da vez

O QUE PODE O CORPO?

Deisiane Barbosa
@andarilla_

Escritora de cartas, artista visual, andarilha e costureira de papel. Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Investiga a interdisciplinaridade entre artes visuais e literatura e as possíveis contaminações de linguagens a partir desse diálogo.

Primeiro me ocorre de pensar a pergunta pelo seu contrário: o que NÃO pode um corpo? Em termos de permissividade, embora se ouse impor restrições, não deveria haver o que limite as autorizações do corpo dentro da arte. Em termos de potencialidade, um corpo segue podendo bastante. Falo do lugar de artista-visual-da-palavra e devo afirmar que ele é a minha matéria-prima. O que tenho criado surge como uma literatura “inquieta” / nasce palavra-verbo, mas vai sempre expandido noutras estéticas / é o corpo o grande articulador disso.

Através dele me ocorre o processamento de escritas poéticas, é ele quem sente e quem movimenta o que primeiro me nasce em palavra-escrita. Em seguida, ou simultaneamente, ele investe maneiras de seguir ampliado esse conteúdo: seja atribuindo som, reverberando voz, produzindo imagens visuais, pesquisando maneiras de inscrevê-lo em outros espaços para além do papel, por exemplo.

Meu corpo é quem age o texto que faço. Autor, ferramenta, leitor, mediador. Ele quem inspira, idealiza, transpira, expressa, usufrui, ritma.

Estando eu na confluência de linguagens artísticas / da literatura, à videoarte, ao livro de artista, à performance / é justamente o corpo o único mais apto a traçar essas encruzilhadas. É ele quem me coloca no mundo, me leva para caminhar, me arrisca nos percursos, me insere nos espaços.

Mitsy Queiroz
@mitsyqueiroz

Artista-pesquisadorx no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFPE e atualmente prepara algumas emboscadas para sair das programações do aparelho fotográfico como corpo sensível. Integra o coletivo OCUPIRA que investiga as visualidades do pós-pornô e sua performatividade política e atua como arte/educadorx em projetos de formação em Arte contemporânea e Fotografia.

Há tanto me pergunto o que pode meu corpo, que achei por bem entender primeiro o que não pode a minha corpa. E me lancei no chão como um copo americano que cai da pia. Recolhi os cacos de vidro mais visíveis e tive atenção especial com os que rolavam para debaixo e atrás da geladeira, certamente uma revelação em tempos de faxina e mudança. Guardei comigo, no lugar cativo da primeira gaveta, junto com as contas do mês, algumas dessas arquiteturas de resistência; não como uma coleção de colheres ou rótulos de água engarrafada, mas como um mapeamento para investigação do território que é meu corpo. E no espaço de poder que disputa e suga as potencialidades desse corpo, tornei-me um pedaço de caco de vidro na mão do transviado. Um corpo quebrantado e fragilizado que renasce bélico. E nesse ponto, parece que encontramos maneiras de reinventá-lo no tensionamento entre seus limites, onde corpas desconhecidas nascem na compreensão dos seus trincos.

Assim, as tentativas de encontrar o começo ou fim de todas as potencialidades dessa corpa é um espelhamento de processos de criação de si. E sem dúvida, sistemas de autopoiese elastecem as fronteiras, produzindo deslocamentos na corporeidade, recuperando o gesto imaginado e abrindo novas salas para a experiência desse Eu encarnado. As imagens que produzo, tem essa mesma pretensão de encarnar sensivelmente uma experiência disjuntiva, de repetição e produção de diferenças, enquanto se equilibra na duração/tempo desse corpo. De maneira que tenho investigado o programa fotográfico, para então pressionar suas rachaduras e abrir co-autoria para o acaso, que legisla a partir daí insubordinado. A quebra da unidade, por exemplo, na experiência com a função panorâmica, se dá primeiramente na compreensão que formula esse texto científico que é a imagem, para entender de que modo sua ruína é latente.

Na verdade, o que busco são imagens latentes de um corpo sensível que ora se perfaz máquina, ora músculo, contraindo e dilatando para construção de mundos impossíveis; pois ambos aspiram a reinvenção de seus programas genuínos de corpo e forma através da quebra.

Annaline Curado
@aratuartefloresta
Foto: Paulinho de Jesus

É professora do Centro de Formação em Artes na Universidade Federal do Sul da Bahia. Artista visual por formação, fotógrafa-desenhista por paixão-andarilha, educadora em eterno aprendizado-partilha.

CORPO-CASCA (de cobra, ou não)

A história (ainda) vive nas entrelinhas do corpo de cada um. Corpo que sussura um passado latente, corpo-presente, corpo-caderno, espaço de memória corrente. História mutável e mutante. Quanto mais passa o tempo e maior é o contato com a vida do lado de lá, maior é a necessidade de trocar. O corpo pede pele nova, feito cobra que cresce, feito encontro de rio. Eis aí o maior desafio: viver a mutação sem mudar a tradição? Toda criança vira adulto, ou será que não? Quanto mais eu cresço, mais entro em contradição. A história que contei ontem, hoje pede ponto de interrogação. Quem era desconhecido, vejo agora refletido na minha própria confusão. Quem são eles, quem sou nós? Amálgama de tempo, passado presente e futuro em estado de presentificação.

Em algum lugar entre São Gabriel da Cachoeira e Manaus-AM, 16 de agosto de 2013.

Ao Recife (de onde não sou, mas onde estive aprendendo a ser de minha terra, também), com carinho.

Seu incômodo me desacomoda, vem como ventania de pensamentos, me convida a dançar, mas me estremece o chão. Fico sem saber como pisar. Você me diz “em terra alheia, pisa devagar”. Ontem uma pessoa me disse que admirava meu modo de andar. Comentou que lhe parecia como um flutuar, mas com o pé inteiro no chão. Tomei como elogio, as aulas de dança pareceram funcionar. A professora sempre me diz que eu preciso ter os pés mais firmes no chão. Nas aulas de dança venho tentando aprender a pisar. Feita de água e ar, talvez esteja mesmo acostumada ao alto mar. Toda terra me parece alheia, toda terra me parece a terra toda, todas possibilidades de desaguar, atracar, desembocar, desembarcar, desaprender a flutuar. Toda terra me questiona: como chegar? Pisar com o corpo inteiro, reconhecer em cada chão suas forças de reação ao meu peso. Devagar, sim, perceber como água, terra e ar podem tramar diálogos coesos. Como chegar sem causar enchentes, tsunamis, sem impor densidades? Aprender com o encontro que a chegança não se dança só. Recife, setembro de 2017.

Kalor Pacheco
@umapinoia

Co-autora roteirista da série “Bia Desenha”, animação pernambucana, e criadora da série transmidiática #tecnologiaaservicodaorgia

Além de ser 1ª titular da Comissão Setorial de Artes Visuais de Pernambuco, a artista e comunicadora colabora com os coletivos CARNE, Trovoa, Distro Dysca e Afoitas.

Cobri o Festival Coquetel Molotov 2015 como estagiária do extinto Caderno C do Jornal do Commercio. Minha função naquele dia era fazer uns posts nas redes sociais do JC, e a partir daí eu tinha uma credencial para acessar o evento na Coudelaria Souza Leão, local que dificilmente eu teria acesso não fosse a carteirada – de fato, com os estudos em comunicação social pude adentrar portas cujas chaves dificilmente se encontram aqui na quebrada.

Chegando lá meu colega de crítica cultural e de estágio, GG Albuquerque, além de viabilizar a fruição mais lisérgica do festival, recomendou que eu aproveitasse a oportunidade para assistir ao show da banda paulista Ludovic. Então segui para a área externa do Festival, onde Jair Naves declararia ao público que iria cantar uma canção em homenagem às mulheres que naquele dia marchavam em São Paulo contra o ex-presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha. “Boas Sementes, Bons Frutos” era o nome da música que eu acabara de conhecer e me tocou profundamente, lembrando-me da mãe que há em mim. Então olhei para a roda de pogo, cheia de homens de camisas pretas e alguns sem camisa, e pensei: é injusto que apenas eles possam sentir calor e despir seus troncos! Porque tetas que amamentaram não podem dignamente serem ostentadas, tal como o peitoral masculino é exposto, sem maiores consequências? Então, ali mesmo, tirei a camisa do ACRE Recife que tinha comprado lá na feira mesmo (pobre só economiza pra poder gastar). E foi emblemático. Me lembro que não resisti ao topless, e sem camisa, ao lado de pessoas do gênero masculino, nem melhor, nem pior e diferente nem tanto, extravasei. Deitei no chão exausta e um rapaz desconhecido me estendeu a mão, ajudando-me a levantar e dizendo: “Isso é rock’n’roll, porra!”

A natureza é um excelente condutor corporal, e nisso o Coquetel Molotov e o Guaiamum Treloso, ambos no Recife, acertam em cheio ao combinar a celebração da música ao ambiente externo e ao clima de Mata Atlântica que um dia não teve dono. A adrenalina foi tanta que nem sei se me lembro de olhar pro rosto de Igor Marques mirando para o meu crachá entre os meus seios. “Karol Pacheco – repórter”, dizia o documento de identificação do JC – e no dia seguinte fiz uma clipagem relâmpago para conferir se a minha epifania estampava alguma hashtag. Não encontrei nenhuma pista.

Teria tudo aquilo acontecido, ou o suco de acerola colhida ao amanhecer no quintal haveria refrigerado a minha memória? O que pode um corpo? Incorporar seu poder. O corpo pode tudo quando a ele nos permitimos. Se foram os corpos oprimidos que construíram o mundo tal qual vivemos hoje – viciado, insensível, repressivo – é o corpo também capaz de destruí-lo e reconstruí-lo. Para decolonizar a natureza, começar a decolonizar a natureza do próprio corpo. A colonização e outras estratégias civilizatórias armaram e nos amarraram. Acho que apenas a autêntica presença no corpo é capaz de romper paradigmas institucionais. Aqueles corpos antes exilados, deslocados, marginalizados, agora centralizam-se em si mesmos alterando a órbita. Aquele corpo antes alheio, agora se engaja.

Desde então a minha produção criativa esforça-se em retroceder a dominação biopolítica: seja na série animada infantil “Bia Desenha”, na qual as crianças protagonistas, Bia e Raul, tem seus corpos naturalizados para além do gênero; ou ainda nas partes da série adulta #tecnologiaaservicodaorgia, pelas quais o meu corpo em performance atravessa os limites colonizadores por meio de uma hipérbole visual que questiona a naturalização de toda essa violência e repressão, física ou simbólica, investida contra o corpo feminino, e que atenta muito mais contra o corpo das mulheres racializadas, sobretudo as mais empobrecidas pela hegemonia em voga.

Renata Santana
@historiasdeumagata

Jornalista, bibliotecária, mestra em ciência da informação. Fez parte do programa Café Colombo, dos Coletivos Literários Nós Pós e Dremelgas Literárias, que organizava recitais em espaços e bibliotecas públicas. Participou das antologias No entanto: dissonâncias (Castanha Mecânica), Coisas de Mulher (Mariposa Cartonera), entre outras. Em 2019 lançou Na terceira margem do agora (Castanha Mecânica).

“Mulher gostosa não escreve bem!”

Foi isso o que me disse um poeta há dez anos quando comecei a recitar meus textos pelo Recife. Lá vinha eu do subúrbio, pele escura, mulher violão que todo mundo quer tocar, acompanhada de assovios pelas ruas. Os quadris explícitos pra fora da margem. Faltava-me a descrição do corpo das poetas cobertas de tecidos e décadas nas fotos dos livros de literatura? Faltava talvez a pele clara, o terno cáqui, o cigarro entediado de Clarice? O que me faltava se eu tinha um corpo, todo meu. E ora, que puxa, não se pode dançar e descer e ralar e depois cavar o oco da palavra (mesmo de shortinho)? Que sacro tem nesse lugar onde meu corpo não poderia entrar? Que templo não o recebe? Pior, que palavra é porteira dos surdos no Reino das palavras e deporta um violão? Não sei.

Escutei aquilo e meu corpo também. Ficamos de mal (no início). Depois afinamos.

E o que é ser gostosa?

Falava de curvas? Temia então a minha cartografia serpente e serpentina?

Um corpo de mulher, vivo, em um círculo. Um corpo que também falava faiscando os desenhos invisíveis do verso. Com toda lonjura dos braços, remando, para trazer o impacto. O sólido que se dissolve na noite efervescendo o estômago da zona cabeça da cidade.

Um segundo texto.

Onde queriam um corpo apócrifo.

“Gostosinha assim não escreve bem”

E a noite cheia de dedos… de olho.

Hoje, aos 30 (e 3), meu corpo e eu vamos juntos. Riscos de textos e linhas.

É tudo que tenho.

Danço pela casa e o Reino das palavras me recebe. E dança comigo.

Arte: Laíza Ferreira @laihza

Publicado originalmente na ed.13 da revista Outros Críticos.

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Outros Críticos Escrito por:

Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

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