Para além do Estelita!

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Foto – Coletivo Coexistir: Diogo Lopes, Pedro Andrade e Renata Pires. Projeto de light painting sobre ocupação, resistência e existência no espaço urbano, nascido dentro do movimento #ocupeestelita. As fotos foram tiradas na área de ocupação do Cais José Estelita, contra o Projeto Novo Recife.

por Ricardo Maia Jr.

O Ocupe ou Resiste Estelita vem escancarando questões políticas que vão além dos argumentos urbanísticos propostos pelo movimento – motivações estas que não vou abordar no texto que segue, pois o que pretendo é lançar questionamentos que transbordem, de certa maneira, a “real” causa do Ocupe recifense. O mais evidente é a população percebendo que política não resume-se às eleições, e sim deve ser contemplada, cada vez mais, com atuações cotidianas na malha social através de micropolíticas que resvalam nas grandes estruturas de poder!

Outro ponto interessante – ou bizarro – é ver o sistema dos poderosos brasileiros, pernambucanos e recifenses, com todas as suas mazelas expostas, pois eles fazem parte, grosso modo, de uma conjuntura que se maquia como a única prática política viável, mas que na verdade é uma máquina de falcatruas burocráticas onde representantes políticos viram magnatas e ostentam poderes em proporções que desafiam o funcionamento de qualquer regime democrático saudável! E se cidadãos tentam imprimir ações políticas que fogem ao estabelecido direito de votar é quando vemos essa camuflagem democrática cair e, assim, podemos constatar as dissimuladas relações de poder!

E a partir daí, ficam explícitas questões cruciais que tornam a nossa democracia mais do que corruptível e com ares aristocráticos de ostentação! Com o Ocupe Estelita, dois problemas que saltaram aos olhos mais críticos foram: as vias de financiamento das campanhas políticas através de grupos empresariais que querem o retorno em forma de projetos públicos que viram, no final das contas, privados – o que traz à tona as reformas política e eleitoral, pouco debatidas e sempre escanteadas por interesses evidentes de manutenção de poder e de uso indevido de verba pública – e por último, a manipulação da comunicação pública através da máfia das grandes mídias que fazem questão de dissimular a prática jornalística com assessoria de imprensa, marketing e publicidade, mais um ponto colocado em segundo plano que reflete também a principal problemática da nação brasileira que é a concentração de poder! E dessa maneira ficamos à mercê de interesses privados maquiados de públicos, como lamentou Jomard Muniz de Britto sobre essa dissimulação dos poderosos: “Nossa Senhora, nos proteja dos atos secretos destes políticos”.

“A política não pode ser confundida com polícia nem com consenso, ela faz parte da ordem do dissenso, o que também não significa violência gratuita, mas sim debate a partir da polifonia democrática!”

A política não pode ser confundida com polícia nem com consenso, ela faz parte da ordem do dissenso, o que também não significa violência gratuita, mas sim debate a partir da polifonia democrática! Por isso, nós temos que lutar pela política da amizade, como propôs Giorgio Agamben, em que representantes políticos sejam tratados da mesma forma que são os cidadãos comuns e não como uma classe privilegiada em que o principal interesse é criar fortunas e patrimônios – o que, no final das contas, forma representantes políticos e uma elite com poderes comparáveis aos impérios totalitários e aos patrulhamentos ditatoriais, inviabilizando o debate!

É importante perceber problemáticas que ultrapassam o propósito da movimentação no Cais José Estelita, assim como outros pontos que aproximam a luta às outras tantas! Pois, o que há, de fato, é a falta de ligação entre as “minorias” que são a maioria, na prática! Na maior parte das vezes, as lutas são fragmentadas para enfraquecer reivindicações que deveriam ser agregadas, pois as causas podem ser somadas, dessa maneira, ganhando mais corpo! Movimentos como o Sem-terra, o Sem-teto, as lutas por territórios indígenas e quilombolas, além de outros projetos urbanísticos que ofendem a cidade – só para dar mais dois exemplos locais: a Fábrica Tacaruna que será o centro de pesquisa automotivo da FIAT e os Jardins da Aurora, projeto prevê a implantação de cinco torres residenciais de mais de 30 andares às margens do rio Capibaribe – devem partilhar das pautas semelhantes sobre ocupação de terra e distribuição de renda mais justas. Esses são os pontos gerais de toda essa discussão levantada no Cais José Estelita – além do debate sobre um planejamento urbano em que todos possam opinar com a mesma equivalência – que perpassam todas essas causas sociais: partilhas mais igualitárias de terra, de renda e de poder!

E mais uma outra perspectiva relevante do movimento Ocupe Estelita é a formação de uma elite intelectual jovem mais atuante e crítica, politicamente falando! Estamos vendo, na prática, indivíduos e grupos vivenciando uma política renovada e com esse aprendizado podemos vislumbrar a atuação de cidadãos inconformados com o sistema brasileiro corrente. Mas não adianta só estar à margem das grandes instituições públicas e privadas, é preciso criar o interesse para que novos representantes queiram desmantelar as regras do jogo e não se acomodem com as benesses que os cargos oferecem aos eleitos. Que venham novos líderes a fim de explodir o sistema vigente e que saibam como fazê-lo!

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Ricardo Maia Jr. Escrito por:

Pesquisador, professor e músico da Ex-Exus.

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