OK, computer!

Abaixo de um dia hermoso, os planos mais criativos cochilam. Mas é preciso furtar palavras, antes de tudo, furtá-las. Os melhores álbuns da semana não chegarão pelos correios ou ficarão empilhados na mesa de alguma redação de jornal. Pelo contrário, é preciso disponibilizá-los para o furto. Eu não! “Ô Pereba! Você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?”, me assombra um conto de Rubem Fonseca. Então, calo, navego, estilhaço, volto, avanço, linko, destaco, copio, copio novamente, dou a fonte, a referência, e vou embora para o mesmo lugar.

A modernidade caçoa dos jovens que cultuam seus hábitos vinis. Como se no futuro pudessem caber, numa mesma prateleira, Cartola e Arcade Fire; não cabem, já que não existem mais prateleiras. Não é preciso mais entrar com os olhos turvos, carregando uma mochila com enchimento, espreitando-se pelos corredores de uma loja de discos, sob o olhar constante de câmeras emperradas e os seus escassos ângulos. Não é necessário tamanho esforço. Rir do furto com um grupo de amigos: “O que conseguiu?”.

Um ladrão de galinhas nunca se engana.

Os rituais estão cada vez mais escassos. Lembro de quando saía de casa para tomar um ônibus em direção ao centro da cidade, indo à procura de um bom disco por duas ou três lojas. Na primeira, promoções, catálogos, remasterizações, preços em conta. Na segunda, mais distante, lançamentos, raridades e hypes de galeria, fedendo a mijo na penumbra de alguma lâmpada que insiste em falhar. Também camisas, negras e brancas. As cores ainda não haviam sido inventadas. “Quem é esse cara?” “Ave Sangria, uma das bandas mais importantes dos anos 70. É daqui.” “Vou levar Samba pra burro, de Otto”. A imprensa paulista é mais confiável que um dono de loja de galeria que aluga discos e desilusões.

Na terceira, a última da jornada, localizada por trás de um velho cinema às margens de um velho rio. Caminhava já mais cansado, ainda heroico, por um outro montante de lojas: relógios, fotografias, comida barata, salas secretas, detetives. Quase sempre, uns quadros de bandas bonitas e charmosas me recebiam. João Gilberto, Belle and Sebastian, outrem. Quase sempre, uns solos de guitarra que duravam aproximadamente o tempo em que eu permaneceria na loja. Não mais, não menos. O homem, com cara de turco, não adorava receber o meu silêncio, muito menos os meus discos difíceis de encontrar: Into The Sun, de Sean Lennon; Calado, de Romulo Fróes e Máquina de escrever música, de Moreno +2, me custaram alguns telefonemas e viagens. Mas nada me aborrecia.

Outro dia – mas muito distante desses meus dias – fui pela última vez até essa loja. Levei a minha namorada para conhecer o tal lugar. Ao entrarmos, reconheci imediatamente alguns quadros e álbuns bons demais para se desfazer, já que eram quase que como quadros de uma galeria de arte particular, expostos apenas para ver e ouvir, não para levar. O homem, ainda turco, não parecia ter envelhecido, assim como o cheiro e a música do lugar. Mas aquele espaço já não cabia em mim, nem tampouco a minha companhia aparentava alegria em permanecer lá. Ela, imprensada pela pilha de discos, não achou charme nenhum na loja. Aceitei o fato de que já era de outro tempo, não mais daquele. E, sem escolhas, decidimos atravessar a ponte a caminho de uma megastore qualquer. À noite, na tela fria de uma infinidade de blogs, sites e indicações, repousamos sob a música líquida que certamente desaparecerá diante de nós. Ligeira, rápida demais.

Não há cercas. Não há cães ao redor das cercas. Apenas um jeito delicado e furtivo de pensar: OK, computer! Nós somos ladrões. Mas do quê? Do quê?

por Carlos Gomes.

Imagem de capa: Recorte da arte do álbum OK computer, de Radiohead.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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