O Tom da Tropicália

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para Henry Bergson, criar exige intenso trabalho intelectual, que seja voltado à subversão do sistema representacional-ordinário em proveito da melhor adequação entre uma origem e seu destino. um movimento de constante tensão. assim se pode definir o ato criativo de Tom Zé, um dos maiores compositores e pensadores da forma musical em solo nacional. em sua música não há um esforço operacional para criar engrenagens e fazê-la funcionar, tudo funciona de acordo com as tensões criadas a partir de seus temas e conceitos e da efetivação de suas ideias na prática.

o que mais admiro em Tom Zé, agora com 75 anos, é:

1 – sua coragem e postura ao não diluir seus conceitos para que se tornem “acessíveis”, eles nos chegam da maneira como foram criados e assim devem ser estratificados pelo ouvinte, sem uma condescendência pedinte.

2 – o fato de que ele, ao contrário dos seus conterrâneos de movimento, não se cristalizou, preferindo manter-se em constante movimento e vibração. ousa, expõe e cria com uma lógica sempre assustadora, até para os mais radicais.

em seu mais novo trabalho (Tropicália Lixo Lógico, 2012) ele propõe uma visão, uma teoria sobre a Tropicália. mais um de seus riquíssimos estudos sobre nossa música, contribuição valiosa e de uma coerência e ousadia ímpar. ao estudar a tropicália, Tom Zé não mede esforços linguísticos experimentais para narrar o quê, o como e, principalmente, o onde desse movimento. nesse douto estudo douto estão presentes; a força dos sertões além de Euclides; a potência criadora da vida no mato; a hibridização genética de árabes e portugueses que deságua com maior força no Nordeste e o papel alienante da escola que nos introduz ao mundo aristotélico, base da civilização ocidental – um papel que Michel Foucault sempre apontou como alienante – e que transforma as experiências sensoriais anteriores a ela em lixo lógico. teorizando sobre a herança árabe no sangue, Tom Zé torna visíveis em si certos traços da Falsafa (filosofia árabe), de pensadores como Avicena e Averróis, mas que, ao invés de usar a Filosofia grega para legitimar os ensinamentos do Corão, une-a com o aprendizado pré-socrático e pré-escolar de uma região para explicar o progresso e a evolução musical e social de um período. trata-se de um método muito interessante: ele vai ao cerne da filosofia ocidental para criticá-la, opondo-a ao conhecimento dos quintais e dos terreiros interioranos que, em sua visão, foi responsável pela tropicália e pela saída do Brasil da Idade Média.

foi desse lixo, descartado pelo córtex e depositado no hipotálamo após o início da alfabetização ocidental, que surgiram os elementos determinantes para o movimento que nos levou, segundo Tom Zé, direto para a Segunda Revolução Industrial, a caminho da tecnologia, do progresso, da semiótica etc. foi da cultura oral esquecida, da bagagem imaginária da cultura dos mouros e da “creche tropical” com seus “analfatóteles (ou analfabetos em Aristóteles)” que nasceu a possibilidade do movimento musical mais reformador que já tivemos, um movimento que após aderir às tecnologias que até então eram rejeitadas por outros movimentos, como a Bossa Nova, construiu uma plataforma onde as ideias de progresso e evolução social pudessem existir de maneira eficaz.

Marcha-Enredo da Creche Tropical by gustavo-tirelli

toda a teoria do Lixo Lógico se desenvolve em faixas de tom epopéico que vão se misturando às músicas que não tratam dela mas que deixam o disco mais palatável. quanto aos convidados, pode-se até dizer que as participações do álbum (Rodrigo Amarante, Mallu Magalhães, Pélico e Emicida) visam à atenção do público “moderno” e “pop”, mas cada um atua de maneira a contribuir e embelezar o trabalho tanto quanto Washington Carlos, cantor não profissional de Caruaru, que também dá a sua colaboração ao disco.

Tropicália Lixo Lógico é uma teoria que merece respeito, atenção e também manutenção; uma rica colaboração ao pensamento musicológico e uma ferramenta útil para se pensar a cultura ocidental e a história do Brasil. devemos pensar Tom Zé agora e talvez de maneira ainda mais profunda que pensamos Caetano e Gil, e cuidar para que não cometamos a injustiça de pensá-lo somente depois da morte, pranteando um artista e pensador genial sob o efeito do tempo-passado; tampouco sob o peso de estrangeirismos coloquiais, esse tempo já passou. nós o temos aqui e o temos agora.

por Jocê Rodrigues.

 

 

Foto de capa por Marcelo Rossi.

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Jocê Rodrigues Escrito por:

Jornalista, escritor e poeta, autor dos livros "As Máquinas de Deus" (ed. Multifoco) e "Luna: o canto que também provoca maremoto".

2 Comentários

  1. 7 de outubro de 2013
    Responder

    Excelente análise. Adorei o álbum, é como um cotonete musical e intelectual, limpando toda a sujeira que escutamos atualmente. Parabéns.
    E Viva ao artista mais criativo do Brasil!!

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