O sabor da constante novidade

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Foto: Louise Vas

“Pessoas não são tipologias (…) Relações sociais são encontros fluidos fora de comportas, represas. Elas escorrem, se encontram, se tendem, se esbarram e se abraçam (…)”

O excerto acima é um escrito de Filipe Barros, guitarrista e compositor da Bande Dessinée. O contexto em que ele está inserido: um bate-papo com a banda após o show realizado no último domingo (20), no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura do Shopping RioMar). Falávamos sobre a necessidade quase que primordial de categorização perseguida pela mídia/imprensa pernambucana para conseguir explicar/decifrar sonoridades, dar-lhes definições, conceitos e atribuir a movimentações culturais e a todos os seus artífices etiquetas classificatórias, enquadramentos e rótulos. Será esse o trabalho da mídia? “Você é punk! Já você é regional! Você é Cena Beto! Você é pós-mangue?”

Atentem: essa última pergunta é proposital. Acredito eu que também é preciso analisar e descobrir o artista a partir de sua singularidade. A categorização de um grupo de artistas dentro de um “rótulo” é, em alguns casos, apenas o serviço mais objetivo para facilitar a vida de jornalistas, de possibilitar uma compreensão mais palatável para o leitor e tentar impor uma chancela que só existe no campo midiático. É óbvio que artistas e suas obras desabrocham e se desvelam a partir de um determinado contexto cultural e social. Mas acredito que, por vezes, pode-se incorrer num equívoco quando se tenta explicar um artista ou uma “cena” referenciando-a a partir de outra: o de que sempre quem vem depois ou é um adesista ou tenta ser uma negação/contraponto de quem veio anteriormente.

Faço todo esse preâmbulo para tentar falar da Bande Dessinée, que, ao meu ver, é um dos projetos mais originais feito no estado nos últimos anos. E por quê? Nascida em um território que, dizem, é assombrado pela “maldição mangue” (algo que talvez fosse mais assustador há uns 15 anos. Portanto, não sejamos anacrônicos. É preciso dar um F5), a Bande Dessinée não se identifica, esteticamente falando, com nenhum tipo de referência que possa nos remeter àquele período. E, muito menos, por ela seguir um caminho diferenciado (apresentar ao público recifense, desde 2007, canções que permeiam o cancioneiro “pop” francês – mais especificamente dos anos 1960), não se configura necessariamente uma tentativa de contraponto aos “caranguejos com cérebro”. Não há (nunca houve) esse tipo de preocupação para eles. Fato que, na verdade, deve afligir mais os jornalistas do que os artistas em si.

Apesar de serem de uma geração que, em sua adolescência, conviveu de perto com a sonoridade hegemônica de uma época que já está começando a ficar remota, a Bande Dessinée apostou suas fichas na ousadia e no pioneirismo, ao fazer da língua francesa – com incursões também pelo espanhol e italiano – e de referências tão distantes da nossa realidade – Serge Gainsbourg, France Gall, Brigite Bardot – seus trunfos para se firmar como uma banda que tinha um diferencial, algo a mais para mostrar, percorrendo caminhos inexplorados. Em um contexto – olha ele novamente – que não apresentava quaisquer sinais desse tipo de influência e que, por isso, era uma incógnita, dado o grau de ineditismo disso.

“Toda inovação tem dois caminhos: o de se diferenciar e ser pioneiro em algo, traçar um direcionamento e sair na frente. Ou, por ser não-viável comercialmente, diferente de tudo, pode ser dificultoso”,

diz o baterista Thiago Suruagy, ao comentar que, muito além da língua, o que os atraiu a dar vida à banda foi a musicalidade dos artistas desse período – que vão do cha cha cha, bolero, reggae, twist até a bossa nova.  O fato de ser em francês, foi um feliz detalhe. “Na verdade, a gente utiliza a língua francesa muito mais como um elemento sonoro também”, complementa Filipe.

No entanto, a banda que apresentou ao Recife – e aos supostos “órfãos dos caranguejos com cérebro” – essa musicalidade tão particular, não dormiu no ponto. Logo, veio a necessidade de começar a compor suas próprias músicas, conferir mais autoralidade ao grupo – que, de certa forma, já imprimia sua marca às releituras que fazia. E boa parte do repertório foi ganhando cada vez mais a cara da banda, com as composições de Filipe e parceiros.

“Estamos sempre nos desenvolvendo como banda, com nossas peculiaridades e originalidade. E acreditamos, sim, que o público pode, simplesmente, não somente consumir coisas que ele já está habituado a ouvir. O papel do artista que quer contribuir para o cenário com sua visão de mundo é o de trazer elementos novos pro jogo. É o que tentamos fazer”.

Esse é um caminho de reinvenção de si mesmo, típica dos músicos pernambucanos (independente dos que ainda insistem em usar chapéu de palha – o que eu duvido – ou não).

Com um CD já lançado, Sinée qua non (2011), composto somente por canções “originais de fábrica”, a Bande Dessinée já mostrou que a sua sonoridade amadurece a cada dia, e que a língua, de fato, é elemento constitutivo de um todo, e não um fim em si. Músicas em português começaram a dar o ar da graça, e não fizeram o conjunto perder sua unidade (nem mesmo quando da troca gradativa e quase total dos seus integrantes, permanecendo apenas Filipe e Thiago da formação original). Recentemente, dando mostras de que continuam focados num trabalho comprometido, o grupo fez uma turnê por nove cidades brasileiras – para encerrar o ciclo de Sinée qua non – e já começou a apresentar novas canções que estarão em seu novo álbum – batizado, provisoriamente, de Chanteclair -, a exemplo de “Isabelle” e “Destemida”, que estavam no repertório do show deste domingo.

É possível observar que a Bande Dessinée ainda mantém o seu DNA. No entanto, em palco, a sonoridade da banda passeia por momentos mais rock e pop, mostrando uma evolução natural. Tudo isso demonstra ser fruto de um desses encontros fluidos que Filipe cita na frase que abre o texto. Não há tipologia, rótulo ou enquadramento que venha a definir ou a determinar a natureza de qualquer trabalho artístico, única e exclusivamente, a partir de sua inserção numa realidade mais ampla, quando se perde de vista o prazer que é degustar a evolução desse artista a partir da sua singularidade, do seu próprio caminho (ainda assim que ele se justifique singular e original justamente por contrastar com esse contexto). A Bande Dessinée escolheu percorrer o seu de forma determinada e, por isso, especialmente, a partir do momento que representa um tipo de música inédita para nós, que vem se renovando constantemente e abrindo novos rumos para si mesma, foge de padrões, rótulos ou etiquetas. Ela é o resultado desses encontros que geram funções criativas e originais. Não o tempo, e sim algumas pessoas é que vão querer se encarregar de definir esse tipo de coisa.

por Leonardo Vila Nova.

Foto de capa do site: Carol Hollanda

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Leonardo Vila Nova Escrito por:

Jornalista e músico.

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