O Peso do Limbo

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“A máquina sonha” – Impressões sobre o Limbo. Foto por Hugo Sá.

por Jeder Janotti Jr.

Adentrar as texturas sonoras do Limbo, álbum recém-lançado da Rua, exige uma entrega: a escuta densa. Isto não é novo para quem conhece o trabalho anterior do grupo, do absurdo (2011).

Mas Limbo é uma obra, uma “ópera”. Labuta que violenta a mesmice com intensidades sonoras que podem sangrar os ouvidos. Não há aleatoriedade, tudo é prensado para injetar no ouvinte um mergulho profundo . Não serve como música de fundo. É um disco Rock, pesado. Estocadas sonoras que preenchem quaisquer espaços disponíveis do corpo. É música que corrói os fígados, amassados pela violência estética que só deixa duas opções: negar o embate ou aceitar o enfrentamento.

Não é rock on the road. É on the trip, drop in. São camadas sonoras que envolvem polirritmias e polifonias amarradas pelos arreios melódicos de Caio Lima (vocais). Não adianta procurar sentidos esgarçados no tempo. As letras que amarram o disco são efeitos de presença. Materialidades que compactam experiências poéticas: “O afeto é a cola da memória/ O sentido é um cavalo arisco”; “A miragem é só miragem”. Frases que parecem iscas sensíveis a abocanhar os peixes mais afoitos, enganados pelos sentidos do óbvio: “Os deuses são animais”.

Para quem precisa de referências, são tessituras sonoras que podem evocar Radiohead, Good Speed Black Emperor, alguns ritmos locais e o que restou de escuridão no rock. Inicialmente, não há corrimões em que se apoiar no Limbo. A cozinha de Hugo Medeiros (bateria) e Yuri Pimentel (baixo) flerta com zonas abissais, brincando com as comodidades do 4×4; cozinhando em fogo lento os apoios tradicionais dos tempos forte e fraco, realçando os patchworks sonoros. As cabeças de tempo são acionadas somente quando o peso dos dizeres musicais exigem facadas.

Como obra, o Limbo é um trabalho orgânico de cinco músicos. Se as primeiras texturas que se sobressaem são as argamassas dos vocais e da cozinha, as sonoridades do inusitado cavaquinho de Nelson Brederode afirmadas pelo design sonoro Bruno Giorgi são peças fundantes do jogo proposto pela Rua.

Comumente associada aos lugares da morada, a Rua desabita os lugares comuns dos cancioneiros que nos espreitam nos bailes da esquina. “Se a saudade insiste em bater na porta da canção com a boca cheia dos clichês”, responde-se com o Limbo, à margem daqueles que não vivenciaram os pecados da mesmice e dos efeitos estéticos fáceis.

Um disco difícil? Só para os que insistem em amaciar as escutas nos ruídos pop cult descolados que nos assombram. Um disco de rock? Certamente, para quem ainda namora as centelhas de formas de reinventar sonoramente os modos densos de habitar o mundo. Um disco para onívoros musicais. Para quem engole, mastiga e defeca o mundo através do peso das existências.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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