O Paradoxo de Matheus Mota

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por Bruno Vitorino.

A primeira audição de qualquer trabalho musical costuma ser marcada por uma espécie de mescla entre a curiosidade latente ante o ineditismo da obra e a expectativa de se reconhecer de alguma forma no emaranhando de notas, imagens sonoras, sinestesias e arcabouço de palavras (no caso específico da canção) que a composição traz de modo imanente em si. Nesse recorte temporal do processo de apreciação estética, que adquire contornos de eternidade enquanto acontece, a música vai sendo esmiuçada pela sondagem crítica e racionalizante da consciência do ouvinte e significada, do ponto de vista emotivo, segundo os ditames de sua memória, pois, ao cerrar o ciclo artístico que se inicia com o labor solitário e reflexivo da composição, e termina justamente com a perspectiva ativa e espontânea de sua vinda em direção ao trabalho, estabelecendo assim uma comunicação invisível, o interlocutor conecta seus sentimentos, suas experiências às intenções expressivas, mas não previamente significadas, do artista. Logos e eros juntos a absorver o imaterial da essência humana. Contudo, nem toda obra musical se revela assim com tanta clareza logo na primeira ocasião, deixando suspenso no ar certo estranhamento. Exigente, demanda do ouvinte reiterados contatos e tentativas de diálogo, para que mostre a potencialidade de seu discurso e a infinidade de veredas que comporta. Assim o é com a música do pianista recifense Matheus Mota.

Outsider, o compositor não se enquadra nos jargões da taxonomia cultural da cidade, tais como pós-mangue ou Cena Beto. Essas categorias não bastam para lhe definir. Sua música grandiloquente é uma miríade de referências: ecos das tessituras orquestrais de Bartók, reminiscências da fase pós-Revolver dos Beatles, os voincings espinhosos em armação fechada de Monk, as experimentações sonoras da Vanguarda Paulista; tudo absorvido e processado de uma maneira bastante pessoal, que não faz concessões se não a suas demandas internas. Arquiteto sonoro meticuloso e certamente senhor dos materiais expressivos que manipula, Matheus constrói com singular desvelo suas estruturas a partir de um manancial de ideias bastante vasto, sobrepondo encadeamentos de acordes que caminham para lugares inesperados, belos contornos melódicos, liberdade rítmica para flertes com a polimetria e o assimétrico, delicadas e precisas harmonizações vocais, amalgamados por um tino para a sofisticação nos arranjos que arrematam precisamente seus intentos artísticos, tornando-os materialmente acessíveis. Mas, em contraponto a todas essas qualidades, há um grande problema que, se não as anula, agride-as frontalmente: a propensão do compositor em se autossabotar com a deliberada infantilização que vez por outra aparece nas suas letras, as quais remetem, de certa forma, às narrativas desconexas de um jovem imaturo diante das coisas do mundo; consagrando, dessa forma, a bobagem em recurso estético.

Seu mais recente trabalho, Almejão (2014), gravado, produzido e lançado com recursos próprios, algo raro na terra dos altos coqueiros e fartos editais, vale ressaltar, tem como marca essa luta entre o Belo e o Grotesco. A bem intencionada pretensão de denunciar como a televisão se apossou do imaginário humano definindo modos de vida, promovendo a cultura de massa e o culto ao efêmero, logo sucumbe às piadas nonsense e sem graça que permeiam o disco, como na montagem da voz do Faustão anunciando o músico enquanto atração principal do espetáculo em “Energias Positivas”, na colagem do prólogo de Lion Man em “Super Herói” ou na desnecessária vinheta publicitária em “Comida de Cachorro”. Já o lirismo singelo e profundo da camerística “Contato Y”, bem como a tensão angulosa da linda balada de cores impressionistas “Gafanhotos Caramujos” não resistem às bobagens constrangedoras de “Gorda” (Ei, você não parece gorda/ andou fazendo regime…) ou à crônica fragmentada sobre um dia qualquer de “Rua das Creoulas”. Portanto, ao se valer desse paradoxo, Matheus vandaliza os próprios templos que constrói.

Por todas essas razões, conclui-se que quando (ou se) se levar a sério, o promissor músico permitirá que sua prolífica imaginação criativa liberte-se plenamente dessa tendência à excêntrica autoflagelação artística que cultiva para, então, certamente alçar voos impossíveis a lugares incomuns. Mas, até que isso aconteça, deve o ouvinte se contentar em lidar com o dual estranhamento que é perceber, após a audição do álbum, como tão desmesurado talento pode ser dominado pela ingenuidade pueril de seu detentor.

Publicado originalmente na 6ª edição da revista Outros Críticos.

Foto de capa do site: Renata Pires

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Bruno Vitorino Escrito por:

Compositor, baixista e colunista do blog Variações para 4.

Um comentário

  1. 1 de março de 2015
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    Boa discussão. O que me instiga nele é exatamente o lúdico, as piadas nonsense, a bobagem, a falta de seriedade e a fina ironia que recobre tudo isso. Acho bem conservadora essa dicotomia entre “talento desmesurado” e “ingenuidade pueril” na qual o texto se sustenta (romantismo, o gênio do artista, sofrimento, expressão da VERDADE, século XIX).

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