O muro

Para Nina

Entre 1982-1986, eu morei em Berlim. Ao menos, foi o que as pessoas sempre me disseram. Não tenho, no entanto, nenhuma lembrança disto. Minhas recordações da cidade e da Alemanha são todas emprestadas. Suponho, porém, que a não ser que eu esteja envolvido em alguma conspiração maligna (existe conspiração benigna?), este dado biográfico seja verdadeiro.

Meus pais e demais parentes insistem em corroborar esta história. Suas versões sobre o tema não carregam muitas contradições – isto parece ser um bom sinal. Além disso, há sólidas fontes documentando o fato. Primeiro, tenho um passaporte cuja foto estampa um bebê sorridente, embora meio cabeçudo. A esta imagem está vinculado o meu nome e todos confirmam Cristhiano Aguiar / Acervo Família/ Berlim que eu fui aquele bebê. Em outra foto, tudo leva a crer que sou aquela criança comemorando, com os amiguinhos do Kindergarten, um aniversário cuja tema era a Liga da Justiça. Há semelhança física entre nós dois, é certo, embora não definitiva. O mesmo garoto, cabelo cortado no formato de uma cuia, posa, um pouco mais velho e vestindo suspensórios, sentado em um triciclo saído diretamente do filme O Iluminado. Meus pais estão próximos da criança – mais jovens do que eu agora sou.

Se pudermos confiar nas minhas fontes, saí do Brasil com a idade de um ano e alguns meses. Meu pai, já trabalhando como professor de Engenharia Elétrica na então Universidade Federal da Paraíba, se mudou para Berlim para fazer o seu doutorado – minha mãe e eu o acompanhamos.  1982 era ainda a época do Muro, o aspecto mais visível da divisão da Alemanha entre um lado comunista, chamado de Oriental, e um lado capitalista, chamado de Ocidental. Parem um pouco para imaginar esse conceito: devido a impasses políticos, de uma hora para outra um gigantesco muro rasga uma cidade ao meio, dividindo-a em duas metades inconciliáveis, separando famílias, amigos. Em pleno 2016, uma situação como esta nos parece absurda? Penso no Muro como se ele fosse um fantasma, uma assombração me espionando de forma zombeteira.

Alemães do lado ocidental e estrangeiros podiam visitar a parte oriental. O contrário era bem mais difícil. Passei minha infância ouvindo histórias de alemães tentando fugir de Berlim Oriental. Tentava-se escalar o muro, corromper guardas, entrar escondido em carros, construir túneis, nadar em rios gelados… Milhares conseguiram atravessar ilegalmente, mas às vezes as coisas davam errado. Ocorriam prisões, acidentes e execuções. Em 17 de Agosto de 1961, por exemplo, um jovem alemão de 18 anos chamado Peter Fecher tentou atravessar o muro. Acabou baleado, mas não mortalmente. Os guardas o deixaram sangrando no chão até morrer. Apesar das toneladas de concreto, dos guardas e seus cães, dos arames farpados e das torres de vigilância com armas apontadas em nossa direção, não demorou para que o Muro se tornasse uma atração turística. Aquele lugar significava morte, conflitos políticos, photo Cristhiano Aguiar-AcervoFamiacutelia-Berlim 8-edit_zpsnez1z569.jpgintransigência, falta de diálogo. Visitá-lo implicava uma mistura de sentimentos contraditórios: parcelas de assombro, fascínio, revolta. Como não tirar uma foto, no entanto, e dizer posteriormente: “estive lá?”. Ao menos na parte ocidental, havia muitos grafites e pichações no Muro. Estas intervenções eram coloridas, extravagantes. Além de atrair a curiosidade dos visitantes, os grafites se revelavam um sintoma do quanto a cidade tentava integrar o Muro à sua própria vivência cotidiana. Grafites e pichações são tanto um gesto de corrosão dos muros, das casas e dos prédios, quanto um gesto de readequação, de reescritura destes mesmos espaços na cidade. Adaptação e revolta em uma mesma imagem, em uma mesma palavra.

O quanto as Berlins Ocidental e Oriental, na mente dos seus cidadãos e do próprio mundo, foram consideradas imagens invertidas uma da outra? No próximo texto, falarei um pouco mais de Mundos Paralelos em diversas narrativas, mas um dos tipos mais tradicionais consiste no Mundo Invertido Sombrio, cuja última representação assistimos recentemente no supremo seriado nerd Stranger Things. A Berlim Ocidental era o mundo invertido dos comunistas; o contrário também é verdadeiro. O medo é o combustível alimentando o Mundo Paralelo: Do Outro Lado, está aquilo no qual tememos nos transformar. Xenofobia, racismo e radicalização, quando se cruzam com a política, a religião e o Estado, precisam criar os Mundos Paralelos a fim de consolidar seu poder e seu terror.

Toda vez que algum brasileiro nos visitava na Alemanha, o Muro virava uma parada obrigatória. Mas aos três anos de idade, a gente não se impressiona com qualquer coisa, por isso eu reclamava dizendo o quanto não aguentava mais ver o muro. Não entendia por que todo mundo queria tanto vê-lo. Qual a graça, afinal? Quem sabe eu nada lembre não somente porque mais de três décadas se passaram, mas também porque aquela criança decidiu apagar tudo da sua mente. Se alguém disser a palavra “Berlim”, será muito difícil eu de imediato não lembrar do Muro e dos seus grafites, por exemplo. Entretanto, as imagens surgindo na minha cabeça não são as das nossas visitas, e sim as de um livro alemão dedicado ao tema, folheado por mim volta e meia ao longo da infância e adolescência. A anedota das reclamações das visitas turísticas ao Muro é uma das minhas melhores recordações, mas só a conheço porque meus pais contam esta piada há pelo menos 30 anos. Se eu não lembro da minha passagem pela Alemanha, que diferença isto faz na minha vida? Um sonho, uma ansiedade, um pesadelo, um temor ou uma preferência gastrônomica, até que ponto coisas assim podem ser conectadas a experiências que não posso mensurar ou capturar?

 photo Cristhiano Aguiar-AcervoFamiacutelia-Berlim 6-edit_zpsjwgaehv2.jpg

Não cabemos em quem somos. Pelo contrário, “eu sou” ou “eu estou” não dizem respeito apenas ao pronome “eu”. Somos o resultado de interfaces e de compartilhamentos. Hoje falamos do armazenamento de dados como algo que não se encontra apenas em dispositivos eletrônicos, mas também na “nuvem”, no compartilhamento difuso da internet e dos meios puramente digitais. O mesmo não poderia ser dito sobre as nossas identidades individuais? A minha Alemanha só pode ser conhecida através de tudo localizado para além da minha vida interior. Falas, cenas e imagens, preciso acessá-las fora de mim mesmo, porque minha vida em Berlim se projeta toda para o lado de fora. As memórias das nossas vidas, não as carregamos todas conosco. Por isso interagimos, amamos e odiamos: há sempre um rosto incompleto diante do espelho.

Multiplicados os Mundos Paralelos, que são justamente os mundos da memória, podemos deslizar por tempos e espaços diferentes, embora um tanto frágeis. É preciso cruzar a fronteira com frequência, reencontrando a si mesmo na vida compartilhada com outras pessoas.

Categorias

Cristhiano Aguiar Escrito por:

Escritor e crítico literário. Atualmente é professor dos cursos de Letras e Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Edita o site literário Vacatussa. No primeiro semestre de 2017, lançará seu próximo livro de contos.

seja o primeiro a comentar

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.