O baque solto na Lapa

Numa manhã de domingo, um sujeito sorridente apareceu numa das pacatas esquinas do bairro da Lapa, em São Paulo, e amarrou um estandarte em que se lia “Lapa de Urso” na placa que indicava o cruzamento entre as ruas Tito e Marco Aurélio. “Fundamos esse bloco para que os pernambucanos que não podiam viajar pro Recife durante o carnaval pudessem matar a saudade”, explicou Mestre Nico, então com 43 anos, posando ao lado do estandarte. Bastante magro, usava uma camisa florida de botão e uma calça azul. No rosto, um grande par de óculos aviador transparente. “É aqui que começamos”. Esta frase podia explicar tanto onde a gandaia começaria como o local de surgimento do bloco, em 2005. Atrás dele, o Bar Antenor ainda estava fechado. “Hoje não sou eu quem vai tocar”, completou, com a ansiedade do jogador que se machuca antes da decisão.

Uma banda de percussões e metais ensaiava diante de duma mangueira, no quintal de uma casa a menos de vinte metros do ponto de encontro. Apesar de ser músico, Mestre Nico naquele dia cuidava apenas da organização: precisava passar num mercado com urgência. “A alfazema não pode faltar”, afirmou. “A gente precisa ficar cheiroso”. Como numa cidadezinha de interior, cumprimentou quase todas as pessoas que viu na rua. Depois de duas tentativas infrutíferas, encontrou numa farmácia. Na volta foi abordado por um homem troncudo, de voz grossa.

“Ô, Mestre Nico, que pinga vocês tomam mais?”

“Rapaz, a que tiver”, respondeu sem hesitar.

“Então vou comprar um Velho Barreiro…”

“Velho Barreiro não!”, interrompeu. “Velho Barreiro dá uma dor de cabeça dos infernos.”

Nascido Márcio Sérgio Costa, Mestre Nico extrai música de praticamente qualquer instrumento de percussão e, seja numa apresentação profissional ou num samba de laje, gosta de improvisar com os objetos à vista – garrafas de cerveja vazias, utensílios de cozinha, uma bacia cheia de brita. “Não sou capaz de recusar um convite para tocar”, afirmou, explicando as diversificadas colaborações com outros músicos. Isso talvez justificasse seu desassossego: dessa vez estaria no lado de fora da banda.

Mestre Nico apresenta-se principalmente com seu conterrâneo Siba, da geração do manguebeat, com quem também canta e toca instrumentos de sopro. “Hoje em dia Siba é um dos que estão na frente”, soltou, referindo-se às habilidades do amigo enquanto letrista e visionário da música. Além de participarem juntos de ensaios, turnês e gravações, moram perto um do outro, ali mesmo na Lapa.

Sua alcunha de “mestre” veio de Pernambuco; o apelido lhe foi dado em 1993 por Mestre Tácio, que pertencia ao mesmo grupo de maracatu que ele. Apesar de nascido na capital, sua família é de Nazaré da Mata, cidade de 30 mil habitantes a 70 quilômetros de Recife. O lugarejo é reconhecido como o epicentro do Maracatu Rural, ou “de baque solto”, tradição originada no fim do século XIX, que contrasta com o Maracatu Nação, “de baque virado”, mais comum na metrópole. Seu grupo, Cruzeiro do Forte, é o único de Maracatu Rural em Recife. Diferenciam-se os maracatus principalmente pelos personagens que “brincam” na festa, pelo tipo de versos cantados, pela velocidade de cada um e, no caso do “baque solto”, por incluir metais na banda.

“De maracatu eu faço tudo. Já saí até de mestre de apito”, contou, citando uma das funções no desfile. “Mas eu gosto mesmo é de manobrar”. Sua mestria é em caboclo de lança, principal personagem do Maracatu Rural. Ele baila com um lenço na cabeça, a face pintada de urucum, um cravo branco na boca, chapéu e lança cobertos de fitas coloridas, e a gola, um grande manto brilhante bordado com lantejoulas. Escondido em suas costas fica o surrão, quatro ruidosos chocalhos que “simbolizam os sinos da igreja”. Durante o ano, Mestre Nico é responsável por desenhar e produzir sua vestimenta. Ao fim, a roupa de mais de vinte quilos é usada durante três dias de carnaval.

O bloco Lapa de Urso, por sua vez, toca frevo e tem uma mítica própria. “Escolhemos o urso por uma questão prática”, explicou o pernambucano, um dos membros fundadores, enquanto abençoava com a alfazema as pessoas, os estandartes, os acessórios e os instrumentos, que já estavam na mão dos músicos. “Era uma fantasia que não custava muito caro pra fazer”. Pior para o urso da vez, que tem que aguentar o calor da couraça peluda enquanto festeja. Além dele, desfilam personagens como o caçador, a mulher de biquíni e o guarda.

“Vamos nos lembrar de quem já morreu e agradecer pela presença de tantas crianças aqui, para perpetuar a brincadeira”, discursou ele, antes de puxar um Pai Nosso. “Quem não quiser rezar, peço que pense nessa coisa maior que é a vida”.

Quando o bloco saiu, pessoas à toa na rua eram chamadas para ver a banda passar tocando frevos de amor. Motoristas buzinavam e acenavam para os foliões. Mestre Nico acrescentara tinta vermelha ao rosto, um lenço na cabeça, um avental e uma capa de couro de bode, e levava no cocoruto uma máscara de jacaré – traje que usaria até o fim da tarde. Volta e meia experimentava um gole de cachaça. Com um apito, dava uma de guarda de trânsito, delineando a posição do bloco. Uma dupla de jovens aproveitava a ocasião para colar cartazes nos postes, mensagens como “Lugar de mulher / pergunte a ela”. A banda seguia tocando versões instrumentais de canções nordestinas. Numa avenida mais movimentada, Mestre Nico coordenou a multidão de mais ou menos cem pessoas, para que seguisse pela faixa de ciclistas. Controlava para que as garagens não ficassem bloqueadas. No bloco também ia seu filho, ainda bebê.

“Seu Antenor que aceitou a ideia dessa loucura aqui”, explicou, na esquina da qual haviam partido, onde a festa continuaria até o fim da tarde. O nome do bar faz referência a seu antigo proprietário, falecido há alguns anos, que estava com eles durante a fundação do bloco. Alguns casais dançavam forró. Do outro lado da rua, Siba improvisava versos rimados e tocava tambor. Aos poucos a festa se acalmava. A banda ainda tocava, mas Mestre Nico continuava de fora, agora em companhia de sua família. Após cuidar para que o vatapá e o caldo de feijão fossem distribuídos, ele finalmente tomou conta de uma zabumba. Demoraria até alguém tirá-la de sua mão.

“Seu Antenor que aceitou a ideia dessa loucura aqui”, explicou, na esquina da qual haviam partido, onde a festa continuaria até o fim da tarde. O nome do bar faz referência a seu antigo proprietário, falecido há alguns anos, que estava com eles durante a fundação do bloco. Alguns casais dançavam forró. Do outro lado da rua, Siba improvisava versos rimados e tocava tambor. Aos poucos a festa se acalmava. A banda ainda tocava, mas Mestre Nico continuava de fora, agora em companhia de sua família. Após cuidar para que o vatapá e o caldo de feijão fossem distribuídos, ele finalmente tomou conta de uma zabumba. Demoraria até alguém tirá-la de sua mão.

Ilustração: Murilo Silva

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Paulo Raviere Escrito por:

Nasci em Irecê, Bahia, em 1986. Trabalho como professor, jornalista, tradutor, intérprete e roteirista de cinema. Em 2015 comecei a colaborar com matérias jornalísticas para a revista piauí. Em 2017 com ensaios para o Blog do IMS. Também escrevo ensaios na revista Barril.

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