O avesso em Aninha Martins e Graxa

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Aninha Martins no palco do “Rec-Beat Apresenta”, no Estelita. Foto: Rodrigo Édipo.

por Carlos Gomes.

Os espaços culturais do Estelita e Boca da Mata reuniram nesse fim de semana um número grande de bandas e artistas, não fosse pela proibição do Som na Rural, na Rua da Aurora, a variedade de propostas e intervenções artísticas teria sido ainda maior. Tratar o Rural-Palco como Rural-Carro, pura e simplesmente, aplicando multa por estar estacionado na calçada, sem perceber o contexto cultural, o simbolismo que envolve essa ocupação artística, é mais um dos sintomas que nos indicam o lugar da cultura na cabeça dos gestores.

No palco do Estelita, a programação do “Rec-Beat Apresenta” fez suas apostas nas bandas Sem Peneira pra Suco Sujo, Pé-preto e na cantora Aninha Martins.  Com um bom show, do duo formado por DJ Novato e MC Anemico, a Sem Peneira pra Suco Sujo apresentou músicas do álbum Respira, a dupla reuniu Bateria e Baixo à sonoridade rap, com isso, ampliou as possibilidades de arranjo das músicas, sobretudo pelas intervenções de Novato que dialogavam com os outros músicos. A Pé-preto recentemente lançou duas ótimas faixas, mas ao vivo empolgaram muito mais a quem se jogou à dança, do que àqueles que esperavam um pouco mais da fusão de gêneros musicais a que eles se propõem a tocar.

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Além de se apresentar com seu set durante o “Rec-Beat Apresenta”, DJ Novato lançou o álbum “Respira” ao lado do MC Anemico, na banda Sem Peneira pra Suco Sujo. Foto: Rodrigo Édipo

Já Aninha Martins, que no dia seguinte também se apresentaria no festival Pai da Mata, no bar Boca da Mata, fez de cada canção uma descoberta. Na companhia de uma banda que toca cada vez melhor, e que parece se divertir mais do que qualquer outra coisa, faz do erro uma peça fundamental ao arranjo que a cada repetição parece se reinventar. Aninha não tem disco gravado, intitulou o show de “Esquartejada”, esteve presente nos discos e shows de Matheus Mota e D Mingus, e quando demos por notar, está escalada para tocar no palco do Rec-Beat no carnaval. Não ter disco, de nenhuma forma, parece ser desvantagem, pelo contrário, a melhor maneira de reconhecer o talento dela é ao vivo, a poucos metros de sua expressão. O disco já existe, permanece na memória daqueles que tem presenciado o crescimento vertiginoso da música que ela faz tão bem, e que ainda tem muito a crescer.

Por outro lado, o álbum Molho, de Graxa, que tocou logo depois de Aninha no festival Pai da Mata, é recheado de canções a que podemos muito bem chamar de hits, vide a reação da plateia para “Molho”, “Um Bando de Crocodilos”, “Boogie & blues”, “Tendo no espelho saudades do meu cabelo”, “Os sintomas da velhice de agora” e… Ao que parece, basta escolher uma faixa de Molho, esperar a reação do público, e ela será automaticamente alçada à categoria de hit, mérito da prosa singular do compositor Angelo Souza, a voz por trás da voz de Graxa. No entanto, Molho não se desenvolve no palco. A guitarra de Graxa pouco acrescenta à explosão sonora de Rama Om e da bateria precisa de Tiago Marditu, talvez fosse o caso de Graxa assumir o baixo de Hugo Coutinho, ótimo compositor, tecladista e cantor, e incluir um segundo músico tocando guitarra, ou melhor, fazer da sua voz, de suas estórias como canções, o instrumento principal de seu show, deixando para os outros músicos a liberdade para acompanhá-lo nos demais arranjos. A presença de Leonardo Vila Nova na percussão, se presente em mais faixas, acrescentaria outras possibilidades para a sonoridade do show.

Aninha e Graxa são como avessos, de um lado a pujança ao vivo, intensa; do outro, um vinil que mais parece um livro de memórias que sangra e chora como um poeta bêbado. Ao que parece, resta aguardar pelo disco de Aninha Martins e pelo show de Graxa, segundos passos de uma trajetória ainda imberbe, mas já bem sucedida.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

Um comentário

  1. 10 de fevereiro de 2014
    Responder

    Sensacionástico, cada vez mais bacana.

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