O anti-clímax do bemônio

por Gabriel Albuquerque.

O drone é um gênero de música minimalista caracterizado pelo uso de clusters e notas prolongados ao máximo, criando um som repetitivo, com algumas leves variações harmônicas. Desenvolvido na segunda metade da década 1960 a partir de artistas como Terry Riley, Eliane Radigue e principalmente La Monte Young e seu grupo Theater Of Eternal Music, a sonoridade é diretamente ligada ao mantra e ao estado de transe e meditação.

O trio carioca Bemônio leva ao drone as suas influências de música industrial e heavy metal (mais precisamente as vertentes do doom e black metal), criando climas densos e obscuros. O caos da bad trip. Formado em 2012 por Paulo Caetano (sintetizador) por “uma questão espiritual e mental, uma válvula de escape para os problemas”, a banda hoje é completada por Gustavo Matos (bateria) e Eduardo Manso (guitarra e sintetizadores). Apesar de seu pouco tempo de carreira, o grupo já gravou dez discos. Desgosto é o seu mais novo trabalho, lançado em parceria com o selo Quintavant/QTV – principal articulador da rica cena de música experimental do Rio de Janeiro, com nomes como Cadu Tenório, Negro Leo, DEDO e Chinese Cookie Poets em seu catálogo.

Desde a estreia com vulgatam clementinam, o Bemônio faz um contorno abstrato, quase metafísico, lançando um olhar indefinido e sensações ambíguas para espiritualidade e mais incisivamente a religião católica. A temática se repete compulsivamente em SANTO (2013), congregação (2014) e Lodo (2014), discos repletos de lacunas (no sentido de “deixar em aberto”), com desordem e ruídos em dissenso esparso. A música cria um ambiente sombrio, mas também reflexivo e imersivo. Lágrima de Sangue e Fezes (2014), feito por Paulo em homenagem ao seu pai, falecido alguns meses antes, apontou novas direções para a música do trio. Desgosto dá continuidade a esse processo de amadurecimento que permitiu à banda explorar matizes sonoras mais amplas.

O álbum é mais direto e seco. A foto da capa (a cabeça de um bode morto, com a carne exposta) e a sequência das músicas (os títulos formam uma receita de buchada, começando com “Limpar as Vísceras”, passando por “Picar em Tirinhas as Tripas e Demais Vísceras” e concluindo com “Cozinhar em Fogo Brando Durante 4 Horas”) desnudam a brutalidade e perversidade naturalizadas pela experiência cotidiana. Após uma árdua travessia de 40 minutos por faixas excessivamente agressivas, o resultado não é nenhum canibalismo impressionante, mas sim um prato que poderia ser servido em qualquer mesa farta. O que está em questão é desterritorializar os lugares (in)comuns despercebidos.

A banda vai construindo o tormento com ambiências pesadas e vagarosas. O som se arrasta em fluxos lentíssimos – monotonia inquietante que arranha, corta e gera desconforto projetado ao infinito.

Os cantos lamentosos de Juçara Marçal e Ava Rocha em “Esfregar o Limão por Dentro e por Fora” se perdem em meio à avalanche noise. Os sussurros tenebrosos de “Juntar o Sangue Coagulado” se desmancham no turbilhão abrasivo de barulhos elétricos e espirais eletrônicas. As músicas são cascatas massacrantes de violência e crueldade.

Não se trata de uma crítica ou denúncia, como a icônica capa de Meat is Murder, dos Smiths. Também não está na mesma ordem de A Carne é Fraca, documentário-manifesto contra o consumo de carne. E ainda vai mais além do simples “ressaltar” ou “evidenciar” a crueldade que envolve a alimentação humana. Aqui não há soluções, respostas ou caminho a seguir. O Bemônio é inconclusão e suas rotas são as incertezas. Desgosto é um reverso, anti-clímax por excelência. A eterna espera por um desfecho, uma ânsia desenfreada por um ultimato – que não chega. Emerge daí a angústia, entrelaçada ao desespero, que instauram um clima tenso e nervoso. O ar é preenchido por inquietude e sensação de vigília, ameaça e perigo, mas que está sempre à espreita, prestes a eclodir, mas nunca é revelado. É incômodo latente.

Nos sete minutos e meio de “Aquecer o Azeite e Adicionar o Toucinho” a banda traça um detalhado desenho sonoro, quase cinematográfico. Os sinos de bois em ritmo lento e descompassado sob o fundo drone, o chiado estático e os gritos histéricos compõem a imagem da fila para o abate. O ouvinte é inserido na marcha, confrontando-se com o terror dos momentos finais.

Mas o golpe fatal não chega. A música cíclica prolonga o terror e estica o medo para horizontes sem fim. Desconforto incessante, permanente dissabor na língua. No lugar de exclamação ou ponto final, o Bemônio coloca interrogações e reticências. O abate está sempre por vir. Desgosto é então potência em devenir, em ponto de transformação. Reside aí a sua intensidade.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Gabriel Albuquerque Escrito por:

Estudante de jornalismo, integrante do grupo de pesquisa LAMA (UFPE).

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