Notas de uma jornada de estudos

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“French jaz”, de Mark Kazav

por Fred Lyra.

No início de fevereiro, em uma jornada de estudos sobre a crítica musical no jazz, foram levantadas muitas questões sobre as atualidades deste estilo na França. Foi interessante observar uma discussão de dois dias sobre uma música essencialmente instrumental. Boa parte dos convidados era de ex-críticos que publicavam nas revistas mensais que aqui existem ou existiram. Todos oriundos de uma época talvez mais romântica e idealizada. Nostálgica. Com certeza, de um momento em que essa música se fazia mais presente na sociedade francesa. “O jazz não representa mais ninguém além dos músicos.” Concluiu um deles.

A crítica quase que exclusiva ao disco, ao ente material, foi o principal aspecto abordado. Segundo os debatedores, nos anos 60 a 80, o dominante era a crítica aos concertos. Essa que alimentava a imaginação poético-musical dos leitores, buscando descrever com palavras um evento musical que tomou forma sonora em um determinado tempo e espaço e ficou guardado na mente daqueles que lá estiveram presente. Era um belo exercício dialético. Se lembrarmos que, ao contrário da música dominante na atualidade, o foco dessa é a improvisação; podemos imaginar o quão desafiante e criativa poderia ser essa crítica. Ao escutar um disco, podemos comparar o que lermos com o que ouvimos. A leitura de um concerto é imaginação. Esses últimos, porém, morrem no passado, os cds vendem. Um dos jornalistas contou que a gota d’água para sair deste trabalho foi no momento em que alguns músicos começaram a ligar-lhe reclamando que os seus discos ainda não haviam sido criticados. Ficou claro que, por um momento, as revistas voltadas para o jazz eram uma espécie de contraponto ao mercado desta música.

Apesar de situações totalmente distintas, podemos traçar um paralelo com a música instrumental no Brasil, que até o momento do cinquentenário golpe militar e da instalação da ditadura militar no Brasil, em 1964, vivia uma boa situação com várias orquestras em todas rádios, a bossa nova, o apogeu do samba-jazz e música nas escolas. Não é mera coincidência que após o golpe a situação começou a degringolar.

A falta de rigor técnico da crítica, desta vez abarcando a música de uma forma geral, foi outro ponto discutido. Se compararmos com a crítica a outras artes, como literatura, cinema e artes plásticas, observamos que faltam critérios técnicos na crítica musical. Falaram até que nos anos 60 e 70 colegas seus conseguiam acompanhar com sucesso o desenvolvimento da música erudita. A crítica da Ópera praticamente desapareceu. E a parte mais importante da música não pode ser descrita em palavras. Para todo o resto podemos e devemos ser rigorosos e precisos.

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Fred Lyra Escrito por:

Musicólogo e doutorando em filosofia na Universidade Lille 3.

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