Nazaré da Mata, a Capital Estadual do Maracatu Rural?

Em 2015, escrevi para o site Outros Críticos um relato de indignação sobre o péssimo tratamento que os brinquedos de Maracatu Rural receberam em algumas cidades da Zona da Mata Norte durante o carnaval daquele ano. O texto discorria sobre os cachês irrisórios, dificuldades nos pagamentos e desprezo das prefeituras pelas agremiações. Hoje, 2019, aqui estou eu novamente indignado escrevendo sobre essa tensa relação entre poder público e a arte do Maracatu Rural. De lá para cá, a situação pouco mudou.

Começo a escrever na segunda-feira de carnaval, dia que eu jamais imaginaria estar sentado na frente de um computador porque, normalmente, nossa agremiação estaria se apresentando nos palanques das cidades ou estaria dentro de um ônibus cruzando as estradas da Mata Norte na comemoração dos seus 20 anos de vida. O fato (devastador, por sinal) é que nosso brinquedo, o Maracatu de Baque Solto Leão Africano de Nazaré da Mata, “dormiu” este ano. Não saiu. Foi deletado do carnaval pela própria prefeitura de Nazaré da Mata.

Foto: Eduardo Jerônimo. Ednaldo Gomes (esq.) conversa com Lula Marcondes.

O motivo: o repasse da verba do município se deu às 17:30hs da sexta-feira de carnaval, dia 01 de março, duas horas e meia depois do encerramento do expediente bancário (os bancos fecham às 15:00hs na cidade). Não houve sequer um aviso prévio por parte da Prefeitura via Secretaria de Cultura ou qualquer comunicação sobre o atraso no repasse da verba. Nessas circunstâncias, a diretoria do Maracatu Leão Africano se viu impossibilitada de garantir o adiantamento das verbas que seriam utilizadas para o transporte (um caminhão baú, um ônibus e uma van), bem como para o adiantamento dos pagamentos de personagens estruturais do brinquedo, como o mestre e contramestre e alguns músicos do Terno (orquestra). Diante desse impasse, a direção não teve outra opção a não ser desistir de brincar o carnaval, apesar das tentativas em vão de convencer os parceiros e prestadores de serviço a receberem na íntegra o pagamento dos seus serviços após o término do carnaval. Esses acordos não funcionam desta forma na Mata Norte. Não sem o adiantamento de pelo menos 50% do valor combinado.

Nesse processo, alguns grupos foram avisados com antecedência sobre a liberação do pagamento antes do encerramento do horário bancário e puderam sacar os valores em tempo. Os que conseguiram sacar puderam garantir a saída das suas agremiações no carnaval. Outros conseguiram garantir a saída com recursos próprios. Infelizmente, não foi o caso do nosso brinquedo.

Diante da notícia devastadora de que não iríamos desfilar no carnaval de 2019, os mais de 90 componentes do brinquedo se sentiram lesados pelo município de Nazaré da Mata que, apesar de se vangloriar como a capital estadual do Maracatu Rural, foi incapaz de garantir o repasse das verbas com antecedência e com o mínimo de respeito para com alguns de seus Maracatus. O interessante é que esses mesmos grupos levam o nome da cidade para além de seus limites geográficos, conquistando espaço na mídia nacional e internacional.

É importante frisar que, mesmo sendo parte de um rico patrimônio cultural coletivo, os 16 grupos de Maracatu Rural de Nazaré da Mata têm tratamentos diferenciados diante da Prefeitura do município. Os cachês não são iguais e variam sobremaneira. Essa discussão sobre o repasse igualitário das verbas para os Maracatus da cidade ainda é um tabu entre os próprios grupos. Para se ter uma ideia, o repasse ao Maracatu Leão Africano é o menor entre as 16 agremiações. Alguns grupos recebem até 60% a mais que o nosso brinquedo, outros recebem gratuitamente do município o ônibus para o transporte. Estas são as agremiações do seleto Grupo Especial e dos Grupos I e II, são maiores e mais antigas e, por essa mesma razão, já recebem um bom subsídio da Prefeitura do Recife para o carnaval. Não estamos querendo nos comparar a esses grupos consagrados, nem querendo desvalorizar os mesmos, estamos apenas trazendo uma reflexão sobre a possibilidade de uma distribuição mais igualitária dos recursos dentro do município de Nazaré da Mata, pois foi a força de todas as agremiações que tornou a cidade a capital estadual do Maracatu Rural. Neste cenário, fica fácil de entender a dificuldade que o Leão Africano enfrenta para subir de categoria no concurso de agremiações do carnaval do Recife. As barreiras começam em casa e, assim, continuamos estacionados no grupo de acesso desde a nossa fundação há 20 anos, mesmo sendo um dos últimos três grupos de Maracatu ainda com sede em engenhos localizados na zona rural da cidade e mesmo tendo crescido e se organizado nessas duas décadas. O bloqueio para a ascensão do nosso grupo às categorias maiores nos parece intransponível nesse contexto.

Assim, o mais triste de termos sido boicotados no carnaval de 2019 é lembrar que, como os outros diversos brinquedos de Nazaré da Mata, o Maracatu Leão Africano trabalhou muito duro em 2018. Aprovou, via Fundo Estadual de Cultura de Pernambuco (Funcultura), um projeto de manutenção do Maracatu com a produção de cinco eventos públicos, entre sambadas e ensaios, que enriqueceram a agenda cultural da cidade, movimentaram a economia local e deram oportunidades de visibilidade a outros grupos convidados.  A complexidade da produção do projeto aprovado, somada ao extensivo trabalho de preparação do brinquedo para o carnaval de 2019, trouxeram uma sobrecarga de atividades aos seus integrantes.  Além das idas e vindas ao Recife para lidar com os trâmites burocráticos do projeto, contato com pessoas, brincantes, órgãos do governo, fornecedores de material, entre outros, foram meses de trabalho de confecção de indumentárias, com investimento físico, mental e espiritual com foco no embelezamento e crescimento do brinquedo; foram meses de trabalho comunitário, de envolvimento presencial de diversos atores locais no trabalho de criação e execução artística; além disso, foram investidas enormes somas de recursos financeiros na preparação do Maracatu para o carnaval. 

Por tudo isto, achamos lamentável a postura do município de Nazaré da Mata em 2019. Cremos que há uma completa insensibilidade do poder público ao que realmente se passa na intimidade desses diversos brinquedos de Maracatu Rural espalhados pelo estado. Há uma dificuldade de entendimento e uma insensibilidade sobre as sutilezas presentes nas dinâmicas desses grupos. As estruturas burocráticas de poder desconhecem o hercúleo esforço dessas milhares de pessoas que anonimamente trabalham pela cultura do Maracatu Rural. Não têm a mínima ideia sobre o riscado de uma gola e o paciente processo compositivo de bordar lantejoula por lantejoula para a sua confecção; nem do corte e amarração precisos das centenas de fitas de uma guiada; ou sobre as dezenas de camadas de chicote para a elaboração de um funil; muito menos sobre o tempo que essa dedicação consome. É muito trabalho! Eles realmente não têm noção das dificuldades existentes no seio dos Maracatus. Nós, do Maracatu Leão Africano de Nazaré da Mata, vimos e sentimos na pele esse descaso há anos. E não participar ativamente do carnaval de 2019 foi um golpe profundo nas costas do brinquedo e de seus brincantes que tanto vem fazendo pelo munícipio e pelo estado de Pernambuco. Está sendo difícil ficar de fora deste carnaval e aceitar este tratamento de desprezo e descaso por parte das estruturas públicas de poder. Esperamos que outros grupos venham se colocar e denunciar esses abusos sofridos há anos com o uso indevido e sem respeito da imagem do Maracatu Rural no marketing cultural do estado. De uma coisa nós temos certeza: continuaremos firmes na nossa luta por autonomia dos Maracatus, fiéis à arte e à poesia! O Maracatu Rural resiste!

Essas linhas aqui escritas representam a voz de todos os brincantes do Maracatu de Baque Solto Leão Africano de Nazaré da Mata. Eles concordaram com o conteúdo, colaboraram com informações e aprovaram o texto na íntegra.

Fotos e vídeo por Eduardo Jerônimo.

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Lula Marcondes Escrito por:

Tarolzeiro de Maracatu Rural desde 1995, arquiteto e artista visual. É membro do Leão Africano desde 2009.

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