Música Grega

A nossa primeira lembrança, quando falamos da herança grega na nossa música, são os famosos “modos gregos”, bastante difundidos, mas, de forma geral, mal estudados e observados. Neles se encontram os fundamentos das técnicas melódicas e harmônicas que a música ocidental desenvolve há séculos. Estruturas precisas, porém flexíveis, capazes de modular, se transformando sutilmente em outra para em seguida retornar ao ponto inicial, demonstrando um certo pensamento funcional com as suas subdivisões em tetracordes, que evidenciam as suas duas dominantes, a de cima e a de baixo. Modos que possuem modos de ser, de soar, um ethos próprio de suas microestruturas intervalares. Há uma enorme riqueza de pensamento harmônico e, sobretudo melódico, nesta sofisticação modal. Eles consideravam ritmo como o elemento dinâmico da música e este funciona como uma repartição de durações, ele é quem ordena e estrutura do movimento. Eles o pensavam como sucessões de frases, davam uma grande importância ao caráter deste. Devido à predominância da música vocal o ritmo era quase que confundido com a métrica da língua, havia uma relação direta entre os gêneros poéticos e os musicais e, além disso, não podemos esquecer que eles possuíam sistema próprio de notação e de afinação.

Os gregos praticavam várias modalidades de música e ela estava presente em todas as principais atividades do dia a dia, inclusive possuindo espaços reservados para concertos. Vários artistas engajavam turnês no mundo grego, e o conhecimento musical e a sofisticação pressuposta em cada membro da sociedade elevava o nível musical, não se aceitava qualquer coisa. Pitágoras, Arístides Quintiliano, Plutarco foram alguns dos primeiros a pensar sobre a música. Aristóxenos de Tarente, porém, foi primeiro a formular uma teoria propriamente musical e a refletir sobre um discurso lógico desta arte. Suas ideias eram fundadas na relação entre a melodia, a palavra e o movimento do corpo. Os gregos possuíam um pensamento dialético musical que se integrava na totalidade do pensamento filosófico e político, não havia separação na essência deste e com essa sofisticação teórica já indicavam direções que continuamos a seguir.

Este é um breve artigo em homenagem à Grécia e aos gregos pela decisão que tomaram neste domingo 05 de julho de 2015. De uma forma que não deixa margens a contestações ou a um cinismo emudecido, eles tomaram a decisão mais corajosa e a mais correta. Decisão que com certeza deve inspirar todos os países e povos do mundo, encontrem-se ou não em situação semelhante. A Grécia que além de ser o berço da democracia e da filosofia, também é o berço do nosso sistema musical, a nossa forma de pensar e fazer música, esta arte do movimento do som, devemos a este país. Podemos ir além e lembrar que o início deste pensamento musical foi um dos pontapés iniciais para o desenvolvimento da matemática e da filosofia. Mais uma vez eles nos dão um alívio e energia para continuarmos seguindo nessa luta pela igualdade, pela justiça e, porque não, uma arte autêntica e verdadeira que é o que todos nós queremos. Este dia 05 de julho, independentemente das consequências práticas que terá, é um marco. Assim como existe a verdadeira arte – consequentemente a verdadeira música – existem as verdadeiras lutas e momentos de verdades políticas. Todos estes abrem um espaço vazio que apontam para uma direção que não sabemos ainda qual, mas que podemos apostar nela pela simples razão de sabermos que é o que deve ser feito. No fundo, a criação artística e política tem no mínimo este aspecto em comum: a aposta no desconhecido. Seguiremos na luta.

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Fred Lyra Escrito por:

Musicólogo e doutorando em filosofia na Universidade Lille 3.

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