Muitos Itamares a navegar…

Dizer que Itamar Assumpção é um dos artistas mais importantes do Brasil não é exagero algum se levamos em conta a importância da música popular para a cultura brasileira e o altíssimo grau de inovação que ele introduziu nos padrões estéticos relativos à composição e performance de canções. Ao longo de sua carreira de pouco mais de vinte anos, Itamar inaugurou e consolidou uma maneira única de compor, misturando elementos do reggae, do rock, do funk e do samba. Logo no primeiro disco, o hoje legendário Beleléu, Leléu, Eu, de 1981, ele já apresentava um estilo muito bem definido e totalmente inédito baseado na sobreposição de diversos padrões rítmicos e linhas melódicas, com letras tão ácidas quanto irreverentes. As levadas do contrabaixo estruturavam todo o arranjo (era este o instrumento que Itamar utilizava para compor) e a verve percussiva contaminava também o trabalho melódico, desenvolvido sempre a partir da interação de várias vozes – quando digo “várias vozes”, estou pensando nas vozes de Itamar e suas vocalistas, nas vozes dos personagens que vão se desdobrando e se sobrepondo nas canções, e nas vozes das várias tradições musicais com que ele travava diálogo. Diferentemente do que se poderia esperar, esta complexa estrutura formal não tinha como resultado um trabalho hermético, e várias canções destes primeiros tempos (“Beijo na boca” e “Embalos”, por exemplo) comprovam este fato com muito suingue.

Desde os primeiros trabalhos, as letras de Itamar apresentavam um universo urbano, marginal e caótico, sempre pronto a ludibriar os “prezadíssimos ouvintes” e contrapor qualquer tentativa de interpretação com novas interrogações. Suas canções podem soar como crônicas (“Venha até São Paulo”), delírios lisérgicos (“Sampa Midnight”), desabafos violentos (“Nego Dito”), arroubos românticos (“Mal menor”), ou misturar tudo isso e muito mais, a ponto de nos fazer desistir do esforço interpretativo para simplesmente curtir o som. Os jogos cancionais propostos por Itamar passam pelos desencontros da identidade biográfica (Itamar? Nego Dito? Pretobrás?) e expõem questões conjunturais importantes, como a luta pela produção independente nos anos 80: único recurso disponível àqueles artistas que não tinham vez nos grandes esquemas da indústria fonográfica. Aliás, até nesse ponto a personalidade complexa de Itamar parecia se contradizer: por um lado ele dizia querer “cantar na televisão”, por outro, era um artista conhecido por sua intransigência e absolutamente determinado a não fazer concessões relativas ao seu projeto artístico.

A ênfase na questão da marginalidade, a personalidade forte, a complexidade do estilo e outros elementos parecem ter sido em grande parte responsáveis pela fama de maldito que ganhou ainda no início de sua carreira. Mas, apesar de ainda ser relativamente pouco conhecido do grande público, esta fama parece fazer cada vez menos sentido, principalmente quando ouvimos suas obras cantadas por grandes nomes como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, que já emplacou uma canção de Itamar em trilha de novela da Globo e acaba de lançar um disco inteiramente dedicado às suas composições. A ligação de Itamar com Arrigo Barnabé e outros compositores da dita Vanguarda Paulista sem dúvida agregou muitas notas dissonantes às suas criações, mas a atitude iconoclasta e a preocupação com a originalidade nunca fizeram com que a vontade de comunicação com o público ficasse em segundo plano. No encarte do disco Intercontinental…, de 1988, o poeta Paulo Leminski (também amigo e parceiro de composições de Itamar) escreve que a vanguarda proposta por este artista sempre foi uma “vanguarda popular”, opinião que apenas se comprovou no amadurecimento de sua obra. O músico e pesquisador Luiz Tatit, também ativo participante destes tempos vanguardistas, percebe esta preocupação quando diz que o estilo personalíssimo de Itamar, que incluía arranjos instrumentais intrincados e elaboradíssimas performances de palco, parece ter sido paulatinamente decantado no interior das canções, cada vez mais centradas no binômio voz e violão, tão importante na história da música popular urbana no Brasil. Esta mudança facilitou a tarefa dos atuais intérpretes das canções de Itamar, e hoje faz com que suas composições continuem ganhando novos ouvintes.

Conheci a obra de Itamar com a trilogia Bicho de Sete Cabeças, de 1993, na qual ele era acompanhado pela banda Orquídeas do Brasil, formada apenas por mulheres musicistas. Com as Orquídeas, ele revelou vários talentos, entre vocalistas e instrumentistas atuantes em São Paulo naquela época. Aliás, este é um aspecto interessante da obra de Itamar: ele tinha uma capacidade notável de reunir artistas talentosos em torno de seus projetos, artistas que foram marcados por sua música e hoje exibem essas marcas em suas carreiras: basta ler as fichas técnicas dos discos para ter uma ideia de quanta gente boa já atuou ao seu lado. Além das influências audíveis nas obras dos músicos e vocalistas, vários depoimentos de colegas profissionais, amigos e parceiros de criação sobre a convivência com Itamar estão reunidos nos dois volumes do songbook “Pretobrás: o livro de canções de histórias de Itamar Assumpção” (2006) e no filme “Daquele instante em diante” (2011). Estas duas obras oferecem vários exemplos de como a famosa “personalidade difícil” de Itamar também não dá conta de toda a história: ela vinha misturada com relações de amizade e companheirismo que ultrapassaram em muito a lida profissional.

Em 2007, quatro anos após o falecimento de Itamar, resolvi experimentar outra relação com sua obra ao desenvolver minha dissertação de mestrado tendo suas canções como objeto de estudo. Neste período, crescia a olhos vistos o interesse do público em sua obra e isto se materializava em novas publicações, matérias de jornal, relançamentos de discos e também na quantidade de pessoas que me procuravam para saber mais sobre este artista. A pesquisa me levou a escrever artigos e apresentar comunicações em diversos encontros acadêmicos pelo Brasil afora e fora dele, sempre encontrando muito interesse e a identificação carinhosa de vários fãs que fui conhecendo pelo caminho. Também travei contato com algumas pessoas muito próximas a Itamar, como a baixista Clara Bastos, que atuou ao seu lado nos palcos durante anos, transcreveu suas canções em partituras e, como eu, também estudou sua obra em um mestrado. É verdade que terminei minha pesquisa com muito mais perguntas que quando comecei, e minha principal descoberta foi a incrível mistura de complexidade e singeleza que faz com que as canções de Itamar sejam inesgotáveis fontes de prazer e fascínio. Tudo isso é sintoma da grandeza deste artista: como bem sabia Arrigo Barnabé, Itamar é mesmo um gigante. Um gigante negão.

por Conrado Falbo.

Conrado Falbo é doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE e mestre em Teoria da Literatura pela mesma instituição com Beleléu e Pretobrás: palavra, performance e personagens nas canções de Itamar Assumpção (2009). Artista participante do Coletivo Lugar Comum desde 2011, e professor substituto do curso de Licenciatura em Teatro na UFPE, a cargo da disciplina “Voz e Movimento” desde 2013. Principais áreas de pesquisa acadêmica e criação artística: Performance, Corpo e Vocalidade, Intersemiose (poesia, música e artes cênicas) e Música Popular. 

Daquele Instante em Diante documenta em profundidade a vida e a trajetória artística do músico e poeta Itamar Assumpção, morto em 2003 de câncer aos 53 anos. Ele foi um dos pilares de um momento da música popular brasileira que se convencionou chamar de “Vanguarda Paulista”. O documentário é uma realização do Instituto Itaú Cultural e Movieart, com direção de Rogério Velloso.

Foto de capa do site Depredando, textos da referência disponíveis no Lattes do autor vimeo.com/rogeriovelloso

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Conrado Falbo Escrito por:

Músico, performer, professor e pesquisador.

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