MetaL MetaL

Capa MetaL MetaL

“A filosofia do candomblé não é uma filosofia bárbara, e sim um pensamento sutil que ainda não foi decifrado”.

isso o antropólogo Roger Bastide escreveu em 1944 enquanto pesquisava o candomblé no Brasil (foi seu primeiro contato com o candomblé em terras nacionais). hoje em dia não podemos falar de uma decodificação das religiões africanas em nossa terra, mas sim de uma constante descoberta que se movimenta com as engrenagens da descoberta e invenção do homem.

depois do primeiro registro, lançado em 2011, o Metá Metá de Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal (agora com o reforço de Marcelo Cabral no Baixo, Samba Sam na Percussão e Sergio Machado na bateria), lança MetaL MetaL. gravado no já mítico estúdio El Rocha e mixado por Fernando Sanchez, o CD traz parcerias de Kiko Dinucci e Douglas Germano e também cantigas de pontos de terreiro, além de “Tristeza Não”, parceria de Alice Ruiz com o Nego Dito, Itamar Assumpção.

após Exu abrir os caminhos, chega a tempestade de Oya, com vigor, raios e muito improviso coletivo (elemento que se perpetua ao longo das nove faixas). a cosmogonia de matriz africana, apresentada em uma ontologia-quase dos mitos e seres que habitam o etéreo e as cabeças dos filhos d’África que habitam terras tupiniquins, é o ponto central do trabalho do Metá Metá.

Oya by Metá Metá

Thiago frança vai ponteando as músicas com fraseados livres, que em certos momentos lembram Pharoah Sanders na energia, em meio a ritmos que lembram a congada e umbigada. Kiko eletrifica com a guitarra (o instrumento da vez) todas as linhas melódicas enquanto Juçara arrepia espinhas e energiza (que é diferente de eletrificar) Orís. assim é a marcha desse segundo trabalho do trio Marçal/Dinucci/França.

é impossível não se emocionar com Juçara Marçal entoando “Man Feriman”, uma belíssima cantiga de Oxun. lembro-me da primeira vez que a ouvi cantá-la: foi com o Sambanzo (um entre os milhares de grupos dos seus parceiros Thiago e Kiko) no Goma Laca, evento que aconteceu no Centro Cultural São Paulo e que tinha o objetivo de resgatar antigos pontos de macumba do acervo da Discoteca Pública Municipal, criada por Mário de Andrade. lembro de todos os pelos do meu corpo se eriçarem enquanto o peito queria explodir em canto e os pés em dança.

Man Feriman by Metá Metá

como o nome já diz, o que encontramos como roupagem das letras de MetaL MetaL, são variações entre suavidade de transe e quebradeira atonal (marca da música que vem se instaurando principalmente na cena paulistana desde o início de 2000 e que carrega grande influência da música de Chicago e do Free Jazz). algumas harmonias são desafiadoras e o enlace entre os instrumentos torna-se o ápice de algumas composições (como as explosões presentes em “Oya” e “Rainha das Cabeças”) e todo o CD é uma celebração da música atual com as raízes ancestrais africanas (principalmente com a religião iorubá).

por Jocê Rodrigues.

Imagem de capa por Fernando Eduardo.

 

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Jocê Rodrigues Escrito por:

Jornalista, escritor e poeta, autor dos livros "As Máquinas de Deus" (ed. Multifoco) e "Luna: o canto que também provoca maremoto".

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