Leros, leros, boleros ou Ao mestre com carinho

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Escrevo essa coluna ouvindo Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, primeiro álbum do cantor e compositor Sérgio Sampaio, lançado em 1973 e que, para mim, é um petardo da música brasileira. Dificilmente aceitaria uma crítica negativa desse disco ou do próprio Sampaio. Gênio e incompreendido, ou seriam essas palavras sinônimos? Esse disco foi impulsionado pelo estrondoso sucesso da música homônima no Festival Internacional da Canção de 1972, depois que o compacto chegou a vender 500 mil cópias. Ironicamente, apesar de ampla divulgação da canção, sucesso no rádio, convites e mais convites para shows e aparições na televisão, o álbum foi mal nas vendas e nas críticas.

Não demorou muito até que as sombras recaíssem sobre esse compositor, sendo logo taxado de maldito. Alcunha que recebeu durante toda sua curta vida, que foi encerrada precocemente aos 44 anos de idade, quando acometido por complicações de uma pancreatite. Essa fora adquirida pelo abuso de álcool e outras substâncias, tanto que o Maluco Beleza, amigo e parceiro, declarava-se careta diante do Sampaio teimoso. Além de teimoso, era dono de um humor ferino, sarcástico, sendo lembrado até como irascível por alguns, não conseguindo se adequar ao mercado, como chegou a declarar sobre o fato de não ter ‘acontecido’: “O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar, profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas eu não fazia isso conscientemente, era apenas uma postura de vida”. Boêmio, dado a excessos, e dono dessa personalidade temperamental, não aceitou as pressões que exigiam uma nova ‘Bloco’. Um canção do seu segundo álbum, “Ninguém Vive Por Mim”, descreve perfeitamente sua condição.

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O segundo álbum, Tem Que Acontecer (1976), também foi lançado por uma gravadora, a Continental — o primeiro saiu pela Philips. Apesar de ter sido tratado em outra coluna como um disco de sambas pífios, foi bem recebido pela crítica, mas, novamente, um fracasso em vendas. Gostaria de apontar algumas incongruências em relação à crítica a que estou remetendo. A primeira é que, conhecendo um pouco mais a carreira de Sérgio Sampaio, poderemos perceber que o samba sempre foi uma grande influência para o artista, sendo formada desde seus primeiros contatos com a música quando escutava as canções de Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves, através do rádio e dos discos do seu primo Raul Sampaio — também músico e compositor com mais de 200 obras gravadas, entre elas “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na voz de Roberto Carlos. O samba sempre apareceu nos discos do cantor, seja no disco “Sessão das 10” (junto com Raul Seixas, Edy Star e Miriam Batucada), seja no “Bloco” com “Cala a boca, Zebedeu” (música de seu pai), “Odete” ou a própria “Raulzito Seixas”. Mesmo podendo falar que o seu segundo disco seja mais dedicado ao samba, há outros gêneros, claro, afinal, estamos falando de um artista de difícil classificação, como “Que Loucura” (feita em homenagem ao poeta Torquato Neto) um mezzo-jazz; “Cabras Pastando” é um blues sem tirar nem por; ou a faixa que dá nome ao disco, que lembra a melhor fase de Fagner.

Além disso, não são os únicos discos do cantor — Sessão das 10, Bloco, Tem que acontecer, em ordem —, devemos lembrar do independente Sinceramente, de 1982. O disco foi bancado pela família de sua ex-mulher e distribuído pela Baratos Afins, rompendo um silêncio de seis anos, mas que, novamente, não conseguiu alçar o cantor ao estrelato. E talvez nem fosse esse o seu objetivo. Talvez ele só quisesse um mínimo de reconhecimento e conseguir viver com um pouco de dignidade, coisas que sempre lhe foram negadas durante a vida. Daí então, seu companheiro fiel, o ostracismo, não mais o abandonou. É importante ressaltar que somado à sua discografia ainda temos Cruel (2006), disco póstumo realizado por Zeca Baleiro através da recuperação de fitas que ele gravou e que esperava lançar em 1994.

Gostar ou amar Sérgio Sampaio não é uma questão de colecionador, ou de ser indie, isso é muito redutor. É questão de dar uma chance aos que nunca tiveram como Itamar Assumpção, Walter Franco, Jards Macalé ou até mesmo Tom Zé. É sentir prazer com um mundo de novas possibilidades que se abrem e, sendo um musicófilo, apresentar uma sensibilidade para notar que há algo de, no mínimo interessante, ali. Claro que isso é um relato pessoal e que a primeira procura por Sérgio e tantos outros se deram dentro de um contexto de sociabilidade e identidade. Que certas reivindicações, disputas e julgamentos de valor passarão pelo meio em que vivo e onde ajudou a moldar minha identidade, ou até lembrando John Dewey que afirmava que a experiência estética está intimamente ligada à interação do indivíduo com o meio ambiente. Mas, refuto o fato de que prefiro Sérgio Sampaio a Raul Seixas por ele ser um ilustre desconhecido. Prefiro Sampaio por admirar seu jeito torto de compor, com letras cheias de sarcasmo e sinceridade; por não poder dizer que ele é um sambista, rockeiro ou artista da mpb; por me identificar com a pessoa, o músico e compositor. Acho até que os dois se revirariam no caixão quando soubessem dessa disputa, já que Raul além de ter sido o ‘descobridor’ de Sampaio e produtor do seu primeiro disco solo, criou uma relação de grande amizade e influência mútua. Sérgio Sampaio pode não ter uma discografia tão extensa quanto a do seu amigo — quantidade realmente importa? — ou ter virado um mito depois de sua morte, mas é certo que tinha a admiração de muitos músicos contemporâneos a ele e influenciou diversos artistas de gerações posteriores.

Lembro que na minha época de graduação na UFPE, assim que o CDU/Várzea fazia a curva no posto, ao final da General Polidoro, tinha um trailer chamado Hambúrguer do Raul, se não me engano, com vários grafites remetendo ao universo do Pai do Rock nacional, onde você poderia pedir um Sociedade Alternativa no capricho. Hoje, de volta ao universo acadêmico, meu sonho seria encontrar um fiteiro qualquer, chamado Sampaio Burguer, sentar na cadeirinha de plástico e pedir um Cruel sem cebola — e prometo que não deixaria de gostar do músico que inspirou tal empreendimento. Pelo simples fato de Sérgio Sampaio ser MAIÚSCULO.

[audio:https://outroscriticos.com/wp-content/uploads/2013/05/Sergio_Sampaio_-_Mai_sculo.mp3]

por Rafael de Queiroz.

Fotos disponíveis no blogue viajeidetrem.

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Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

6 Comentários

  1. 4 de maio de 2013
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    Bela lembrança de Sergio Sampaio. Mas ele não ganhou o FIC de 72… infezlimente!

    • 6 de maio de 2013
      Responder

      Marcelo, obrigado pelo comentário e pelo esclarecimento. Realmente ele não foi o campeão daquele ano, apesar do sucesso estrondoso da canção. Iremos corrigir esse erro. Um abraço.

  2. 5 de maio de 2013
    Responder

    sérgio sampaio é sem dúvida nenhuma um dos grandes cantautores da música popular brasileira. cantor foda, compositor personalíssimo, letrista ácido e pungente, se ainda não é considerado ao lado dos medalhões globais é por pura injustiça histórica.

  3. 6 de maio de 2013
    Responder

    Para encontrar um fiteiro qualquer com o nome de Sérgio Sampaio ele teria de ter uma obra popular-cult-brega como a de Raul. No mais , sempre nos resta a possibilidade de tentar abrir um fiteiro com o nome de músicos que embalam nossas memórias afetivas, poderíamos até imaginar Irará’s Burguer ou Lá vai uma vela aberta cruel com cebola, mesmo que possa soar meio indie(gesto).

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