Leitmotiven

Cancelamento Pré-AMP
Vivemos em um período bem interessante para quem possui uma banda. Os recursos para gravar, editar, mixar e masterizar um disco estão bem mais que acessíveis. As plataformas para divulgação são as mais diversas possíveis, basicamente todas gratuitas. Para formar e manter contato com um público cativo, as redes sociais são uma mão na roda. Um cenário quase perfeito para quem tem seu projetozinho musical, né verdade? Por um lado, sim, mas talvez seja menos fácil do que parece.

A grande verdade é que as bandas hoje são bem mais cobradas. Tudo leva a crer que quem toca hoje em dia precisa se ocupar também com a função de produtor, empresário, assessor de imprensa, engenheiro de som, roadie e, se sobrar um tempo, fazer aquele cafezinho esperto para levantar o ânimo da moçada. Ah, claro, e também cumprir uma função que parece ser bem menos requerida que as outras, que é a de compor e ensaiar um repertório digno de nota, ou nem tanto, já que não se andam falando muito de música hoje em dia, mas que garanta ao menos a realização de um disco ou de um show.

Claro, quem está na música independente sempre soube que se virar como pode nunca foi uma grande novidade. Mas, enquanto quem toca busca se aperfeiçoar em outras áreas que antes não lhe diziam muito respeito, qual a contrapartida disso tudo dada pelo outros agentes desse processo todo? Eles também estão realmente se virando em funções multifacetadas? Ou pelo menos estão oferecendo um serviço do mesmo nível que as bandas tentam oferecer?

Para tirar algumas dúvidas, vamos agora com um pequeno quiz com certas situações que não parecem ter mudado muito de uns bons anos para cá. Se você que está lendo esse texto tem, já teve ou conhece algumas histórias de amigos envolvidos em projetos musicais, tente ver quantas alternativas você marcaria como verdadeiras e frequentes:

( ) Casas de shows que mal oferecem as condições mínimas para se tocar, muitas vezes resumindo isso tudo ao espaço físico cedido;

( ) Concursos de bandas que não estipulam regras claras ou que possuem um regulamento nebuloso que pode mudar conforme a vontade de seus organizadores;

( ) Técnicos de som que não fazem questão de cumprir suas funções na hora de uma apresentação ao vivo;

( ) Produtores e jornalistas não muitos dispostos a dar qualquer tipo de retorno para quem lhes entregam algum material;

( ) Veículos de comunicação que continuam apresentando os mesmos artistas e bandas consolidadas de 15 ou 20 anos atrás como se fossem o retrato atual da cena local.

É aí que podemos chegar ao x da questão: qual o motivo dessa cobrança unilateral em relação às bandas, enquanto certas atitudes de outros sujeitos do processo aparentam não terem mudado?  Por que é exigida das bandas toda uma série de funções, se elas ainda tem que lidar com situações de tempos em que não se tinha estrutura alguma e tudo era feito na base da gambiarra?

Agora, vamos a uma questão crucial: faz sentido então, já que as bandas estão sendo mais cobradas, que produtores, jornalistas, técnicos de som, proprietários de casas de shows e demais figuras representantes da…errr…cadeia produtiva (termo um tanto quanto gasto, não?) sejam igualmente cobrados. “Ah, mas em relação aos produtores e jornalistas, eles acompanham os shows”, diria alguém. Pois tem que acompanhar mesmo e que eles façam isso cada vez mais e, se não for pedir muito, que a falta de uma presença vip não os impeçam de fazer isso.

Algumas coisas ainda precisam caminhar. Novamente, no caso específico de jornalistas e produtores, o “mande seu material que iremos analisá-lo com o devido carinho” (ou não!) parece ser uma saída bem democrática, e, de certa forma, é mesmo, mas também não deixa de ser um jeito deles se manterem distanciados de certos processos. Essas pessoas precisam estar constantemente envolvidas, seja indo às apresentações das bandas ou trocando ideias e conhecendo verdadeiramente o trabalho, as propostas estéticas e o plano de carreira das bandas. Se a música é o real leitmotiv que impulsiona essa parada toda, então esse conhecimento de causa deveria ser de interesse de todos. Por que raios alguém vai se envolver de alguma forma com música e não se preocupa em conhecer profundamente o que anda rolando na cena local?

E por falar em cena, é bom ressaltar da maneira mais clara que ela não se constitui apenas de um bocado de banda se juntando para fazer show por aí; para que ela exista de verdade deve haver, além de gente fazendo música, é claro, a participação de pessoas produzindo, escrevendo a respeito e, acima de tudo, consumindo tudo aquilo. É necessário que haja um real diálogo entre todas essas partes. É preciso que todas as partes queiram essa aproximação. E é justamente nesse querer, ou na falta dele, que se encontra um dos principais problemas.

por Tiago Barros.

Foto da Rua da Moeda (Recife) por Marcelo Soares, para a Folha de Pernambuco, na noite do cancelamento de um festival de música. O evento foi remarcado e aconteceu na quarta-feira de cinzas.
Imagem de capa por Patty.

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Jornalista e músico.

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