Incauta Olinda: DUB SOUNDSYSTEM P.A.

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Leon Selector abriu a festa se apresentando com Samuel Negão e o grupo percussivo Nyabinghi. Foto: Catharina Galdino

por Rafael de Queiroz.

Olinda, 10.11.2013

Mais uma vez, o repórter que vos fala foi conferir outro evento de música em Olinda. Mas dessa vez, posso afirmar, estava me sentindo incauto. Eu e outros presentes ali tínhamos apenas uma noção do que nos aguardava, apenas uma noção. Cheguei meio desconfiado, admito, quando percebi a quantidade de gente, mínima, pela frente do Xinxim da Baiana e, quando uma pessoa da produção avisara que tinha tido um pequeno atraso, eu já podia ouvir uns batuques meio descompassados vindo de dentro do bar. Sem pestanejar, nos dirigimos ao bar vizinho para degustar uma cerveja de milho de 600 ml no capricho, afinal, a vida de reportagem-guerrilha não paga Heineken longneck noite a dentro.

Cerveja vai, cerveja vem, e aos poucos vamos escutando um dub nada careta; conta paga e lá vamos nós trabalhar. Ainda haviam pouquíssimas pessoas lá dentro, dez gatos pingados, eu diria, e o som estava legal. Esse estranhamento quanto ao público presente durou por toda a noite e um dos motivos óbvios eram os artistas que deveriam ter atraído uma audiência maior, pelo menos o já conhecido adubador de som das Olindas, Buguinha Dub, e os pioneiros da cultura sound system no Brasil, Digitaldubs, direto do Rio de Janeiro. Esses últimos já vêm de uma turnê onde passaram por E.U.A., México, Costa Rica, Peru e outras cidades brasileiras, antes de aportar na Marinha dos Caetés. Acredito que todos esses fatores seriam, no mínimo, algo para se chamar atenção.

Talvez o ingresso estivesse caro, você me perguntaria. Mas não. Extremamente barato, custando módicos R$ 15,00, o que não representa nem de perto o peso que essa festa teve e que eu vou tentar explicar. Ainda presenciei uma espectadora desavisada que, no meio do show de Buguinha Dub, pediu o microfone para reclamar dos preços do ingresso e da dose de Professor, mas logo levou uma vaia e ouviu palavras de discordância do próprio artista, que ainda afirmou que todos estavam ganhando menos do que deveriam para fazer aquilo acontecer, destacou a importância do evento e mandou um forte “Jahmarraparai!” (você pode, você consegue, tudo é possível) “Celebrai!”, seu tradicional jargão, com todos reverbs e delays possíveis.

Pecaram na divulgação? Acredito que sim. Mas de quem é a culpa? Eu não posso afirmar com certeza, porém, o site para o qual escrevo recebeu em seu e-mail a sugestão de pauta e acredito que outros meios também o tenham recebido, inclusive a tradicional mídia impressa. Ainda temos que lembrar que foi um evento totalmente independente, produzido nas coxas pela Culture Lion, o que já impossibilitaria uma assessoria de imprensa mais eficiente. Mas como fui agraciado com essa missão! Como disse no começo, eu não podia esperar ou prever a energia que iria emanar daquele lugar; podia antever a importância desses shows, tanto que topei de primeira fazer a cobertura, porém, o efeito que causaria em mim, isso seria impossível.

Brevemente, seria bom dar uma passeada pelo gênero dub. Se me perguntassem hoje em dia qual seria o gênero mais influente da música popular, não só em termos de vendagem e inserção midiática, mas onde estão surgindo, há muitos anos, as possibilidades mais criativas de exploração estética, na minha humilde opinião, este seria o rap. E de onde vem o rap? Ele é filho direto e assumido do dub, onde na sua própria estrutura percebemos a influência do seu pai: os DJs são os selectas e os MCs, os toasters. O dub começou no final da década de 1960 com produtores (selectas) que começaram a experimentar em cima de faixas pré-gravadas do reggae roots, até então a música mais popular na Jamaica. Eles usavam mais o instrumental e adicionavam efeitos como reverbs, delays e até barulhos de sirene, animais etc., muitas vezes mixando as faixas ao vivo e influenciando, até hoje, técnicas de gravação, mixagem e discotecagem. Logo depois, começou a surgir a figura dos toasters que cantavam improvisando em cima dos remixes dos seletores e logo ajudaram a promover e popularizar o estilo pela terra de Bob Marley. Logo, com a imigração de jamaicanos para os E.U.A. e, especialmente em Nova Iorque, esse gênero e suas técnicas, junto com o sound system, ajudaram a formar o embrião do rap: as block parties.

Apesar da importância do dub e da cultura sound system — inclusive influenciando a bastante popular aparelhagem no norte do país — para a música contemporânea, ainda é um gênero muito guetificado no Brasil, não gozando do imenso prestígio do reggae e onde não temos muitos representantes. Isso já seria motivo suficiente para uma celebração como a “Soundsystem P.A.” não ser perdida, mas não foi o que aconteceu. Com apresentações impecáveis e os representantes de peso já citados, a plateia vibrou a cada batida executada e lembrou-me a experiência que descrevi em outro texto sobre a apresentação da Abeokuta Afrobeat, durante o Fela Day. A música era diferente, claro, mas a experiência de quase transe e da música reverberando e, praticamente, mandando os corpos acompanharem-na, foi de extrema semelhança. Conversei com muitas pessoas durante a noite e todas foram unânimes em afirmar como aquela noite estava sendo fantástica e que poder aquela música exercia sobre nós.

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Foto: Rodrigo Édipo

Realmente, o que se experienciou durante a festa foi algo quase indescritível. Talvez o efeito surpresa tenha contribuído positivamente para as impressões deixadas, mas isso seria um pouco redutor; nada redutora foi para mim a grande surpresa da noite: a banda de abertura, um projeto de Leon Selector com Samuel Negão e grupo percussivo de Nyabinghi — egressos da finada Tonami Dub. Lembra dos batuques descompassados? De descompassados nada tinham. Era apenas um momento da passagem de som e realmente eles deixaram todos de queixo caído. Eu tive muita sorte de ter assistido a primeira apresentação desse grupo e poder dividi-la aqui e agora: três percussionistas posicionaram-se a frente e o seletor atrás disparava as batidas, os batuques precisos e hipnóticos tornaram mais orgânico e especial aquele dub; quando Samuel Negão se levantava para rimar em cima da música, como um grande toaster que é, a apresentação se engrandecia ainda mais.  Sendo uma das sonoridades mais interessantes que escutei em Pernambuco nos últimos tempos, espero sinceramente que esse projeto continue e que ganhe um nome a sua altura, pois ainda não fora batizado.

Após essa grande apresentação, que colocou todos para dançar e em fina sintonia com o dub o resto da noite, foi a vez do influente produtor Buguinha Dub fazer as honras da casa. Acumulando várias experiências durante sua carreira com trabalhos com a Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Racionais MCs, Instituto e tantos outros, o artista não decepcionou e fez uma ótima apresentação. Era clara sua felicidade por estar tocando naquele dia e recebendo o pessoal da Digitaldubs, coisa que ele declarou para todos os presentes. Com toda sua originalidade e misturando equipamentos analógicos e digitais, o selecta criou uma ambientação sonora para ninguém botar defeito e mais do que segurar a onda, continuou com a tradição de bons shows que nunca se repetem. E ele não poderia deixar de estar presente, pois foi um dos pioneiros do gênero no Estado. Cresceu em meio a sistemas de som que seu pai construía e que ele logo começou a trabalhar também, o Buga Som. Intuitivo, recebeu o “Dub” do nome pelo pessoal da Nação Zumbi, quando os mesmos perceberam que ele gostava de adicionar ecos e outros efeitos utilizados no dub quando sonorizava outras bandas, mesmo sem nem saber do que se tratava.

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Foto: Rodrigo Édipo

Dessa maneira, não poderia ter sido outra pessoa pra abrir o aguardado show da Digitaldubs com o toaster Jeru Banto. Como já foi dito, foi uma das primeiras equipes de sound system do país formada desde 2001 por Marcus MPC e Nelson Meirelles, o coletivo já lançou quatro álbuns e diversos singles. Gravou com artistas jamaicanos e europeus, além de ter singles distribuídos por várias gravadoras também estrangeiras. O profissionalismo dos músicos fica muito evidente e não deixa nada a desejar frente a um legítimo dub jamaicano. Com uma apresentação pujante e sem deixar ninguém parado por um minuto, a Digitaldubs fez a cabeça do público, fechando a noite em grande estilo. É uma pena que um evento dessa importância tenha atingido pouquíssimas pessoas e que tenha que ser algo garimpado para ser descoberto. A sinergia entre sons e corpos transformou aquilo que poderia dar errado em uma catarse coletiva, uma verdadeira experiência estética. E, para você que perdeu, eu só posso lamentar.

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Rafael de Queiroz Escrito por:

Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

3 Comentários

  1. 28 de novembro de 2013
    Responder

    Boa Rafael, você conseguiu definir muito bem a sensação de um soundsystem. Tive a felicidade de conhecer esse som, que salva, há pouco mais de 2 anos em São Paulo, onde moro, pelo sistema dubversão, do selecta YellowP. De lá pra cá não perco nenhum JAVA, festa mensal de dub que acontece no bairro da Liberdade.
    O dub é sim uma musica vanguardista, estimulante e seus ambientes são sempre agradáveis. Lamentável a cena ainda estar pouco difundida por aí. Mas também estimulante. Olinda tem muito a contribuir com o dub, muita coisa ainda será feita, misturada, mixada e agregada. O futuro de Olinda tem 8 canais e um “reverb de mola”. Salve Buginha, salve Leon Selector e todos os selectas e toasters da região. Dubwise.

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