Guia prático para a crítica cultural: cenas locais

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O músico Hugo Linns, além de manter o seu trabalho solo, tem dialogado como músico ou produtor musical com diferentes projetos musicais, como: Renata Rosa, Maciel Salu, Caçapa, Geraldo Maia, Wassab, entre outros. Foto: Olga Wanderley

Lendo textos que citam Will Straw, autor de artigos e livros sobre cenas musicais, retiro de suas ideias uns pequenos recortes, como: “construção de alianças musicais”, “fronteiras musicais” e “cultura musical”, para compor breves apontamentos sobre a construção de cenas locais. É sabido que a união de músicos, quando há verdadeiramente um interesse artístico mútuo, só tem a enriquecer artisticamente a quem se envolve e se deixar levar para fora de seu habitat estético natural. As fronteiras musicais que supostamente afastam determinados artistas, deviam, na verdade, servir de ignição para a descoberta, mas muitas vezes alimentam rixas e uma cultura de separação por estilos. Fortalecer a cena local não pode ser apenas discurso do que é extrínseco à criação musical, mas também se fortalecer pelo diálogo na práxis dos músicos locais.

O Brasil tem uma cultura musical riquíssima e reconhecida por sua diversidade, Pernambuco, e suas diferentes cenas locais, absorvem há muito tempo grande parte dessa riqueza. Numa recente entrevista do jornalista Marcus Preto ao blog Banda Desenhada, se era discutido como a cena atual de São Paulo está conseguindo figurar tantos bons artistas e trabalhos atualmente; dentre outro motivos, Preto afirmou: “Tenho certeza de que muito da grandeza que há nos trabalhos dos novos paulistas vem da convivência com os artistas pernambucanos (Nação Zumbi, China, Mombojó, Karina Buhr etc.) e cearenses (Cidadão Instigado) que vieram morar na cidade na década passada. Eles nos ensinaram muito, nos ajudaram a perder preconceitos musicais, entraram no nosso DNA”.

Se concordarmos com a opinião de Marcus Preto, de que os músicos de São Paulo ganharam ao dialogar e “aprender” com os músicos pernambucanos, imagine o que podemos conseguir se a cena local estiver aberta ao que lhe é estranho? De tal forma, reconhecer o valor da tradição e sua cultura musical não pode servir de desculpa para a manutenção irrestrita de fronteiras.

A música pernambucana é afeita ao diálogo, seja na conquista artística de diferentes músicos que souberam muito bem se apropriar das tradições, como do caráter cosmopolita que muitos deles, em diferentes níveis, conseguem alcançar com o seu trabalho. O rural e o urbano, o natural e o artificial, o acústico e o elétrico, entre tantas outras dualidades – para a música contemporânea nas diferentes cenas locais de Pernambuco – são elementos que impulsionam a criação, sem com isso necessitarmos de hierarquias culturais de qualquer parte. O maracatu, a viola, o coco, e todas as suas variações artísticas, muitas vezes são articuladas de uma forma mais criativa que a de uma infinidade de bandas que emulam sonoridades de cenas musicais dos Estados Unidos ou Europa, como se influenciar-se pelo contemporâneo chancelasse o status de moderno, original, singular, ou tantos outros termos que, de tão usados, tornaram-se lugar-comum.

No entanto, tratar a canção de modo bipolar ainda figura nos salões da defesa do regional contra a maldade da música invasora e estrangeira. Essa conversa, apelidada de defesa da cultura local, já vem de longa data, estender o cortejo não nos levará a um lugar melhor.

por Júlio Rennó.

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Júlio Rennó Escrito por:

Heterônimo. Assinou a coluna "guia prático para a crítica cultural" na revista e site Outros Críticos. Não era um guia.

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