Guia prático para a crítica cultural: cânone

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Chico Buarque e MPB-4 cantando “Roda Viva” no Festival da Record de 1967.

O debate deflagrado nas últimas semanas em torno da produção de biografias gerou, a reboque das diversas opiniões sobre o tema, uma tensão que a meu ver é salutar para a música e produção cultural brasileira: a dessacralização do cânone cultural. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento, que fazem parte do grupo Procure Saber, sobretudo os três primeiros, tiveram que lidar com a crítica massiva e de diversos setores por conta de seus posicionamentos, muitos deles, entre a ignorância e o compadrio.

Enquanto alguns jornalistas, escritores e editores usam a sua capacidade crítica e de argumentação para refletirem sobre a situação posta (não de agora) sobre as biografias, os músicos preferem assinar textos descuidados, confusos e, em muitos casos, incoerentes. No entanto, tenho preferido ler os autores e não os veículos, pouco me interessa o que tem a dizer a Folha de S. Paulo ou O Globo, que por trás de sua pretensa imparcialidade têm procurado esconder suas biografias, são censores de si mesmos, mais acostumados a apontar vilões do que a refletir verdadeiramente sobre o seu papel na sociedade.

Dado o momento da dessacralização dos cânones, como é natural no processo democrático pelo qual tantos lutam, hordas obscuras de trolls e de todo o tipo de jornalista e blogueiro, saem de suas tocas para trocarem o debate de ideias pelo ataque pessoal. “Eles nunca me enganaram”. “De censurados a censores” etc. Acredito que esse tipo de abordagem ajudará mais a quem está interessado a vender jornais e espaço publicitários em suas páginas e sites, do que a quem realmente quer que todos os setores saiam fortalecidos dessa discussão. Não me interessa desqualificar Caetano Veloso, Chico Buarque ou quem quer que seja. Tenho interesse por debater e refletir sobre os seus argumentos (mesmo que mal escritos) e a convencê-los intelectualmente de que a maioria dos autores de biografias são pesquisadores interessados na memória crítica e cultural do país. Para a minoria de aproveitadores, em qualquer setor da sociedade, a justiça igual para todos.

No meio desse debate, a voz da qual mais sinto falta é a do público leitor que consumirá essa memória escrita, que ouve os discos desses artistas, leem sobre suas obras. Durante todos esses anos, os fãs desses músicos já os vaiaram ou aplaudiram, está na hora de falarem o que pensam, substituirem os uhs e palmas por um pouco mais de sensatez e opinião. A hora é essa.

por Júlio Rennó.

Capa do site – Foto: Programa “Divino Maravilhoso”, da TV Tupi, em 1968, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas.

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Júlio Rennó Escrito por:

Heterônimo. Assinou a coluna "guia prático para a crítica cultural" na revista e site Outros Críticos. Não era um guia.

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