Guerrilha, Guerrilha

Palavras dispostas assim, lado a lado, soam naturalmente repetitivas. Mas não. A da esquerda significa uma forma de guerrilha, a da direita outra. Uma está na ordem da exceção, outra da regra. Como naquele filme-ensaio de Godard sobre a cultura como regra e a arte como exceção.

Os anos 1990 desentupiram as veias da cidade do Recife – reproduzo a analogia – e os 2000 conectaram a cidade aos sons de lugares bem mais distantes, dando-lhe voz e sendo a própria cidade uma voz relevante, ainda que repetitiva em muitas de suas fórmulas. Indie e Independente como discursos vazios, muitas das vezes. Em plena ebulição dos anos 10, me arrisco a escrever que a conexão de experiências, linguagens, mídias, identidades, espaços – e toda tensão gerada por esses encontros, eminentemente críticos – tenha começado a atingir certa maturidade. De longe, mas às vezes de perto demais, pude enxergar nessa última edição do Porto Musical como algumas dessas conexões se dão com rara felicidade.

A música de Hugo Linns e Helder Vasconcelos deve ser vista, ouvida, vivida, nas suas conexões com a tradição-modernidade, e o duo Leandro-Evandro, ou Emicida-LabFantasma, estão no campo da guerrilha como exceção. Os dois primeiros citados caçoam de rótulos, catálogos ou imposições de mercado. São os dois, nas suas noções singulares de arte, desenvolvimento de linguagens, artistas extremamente precisos. Aos muito jovens de São Paulo, a lição não se esgota nas experiências que eles contam. Eu com as minhas revistas na mochila de feira em feira, posso muito bem aproximar a ideia de que viver de música não se resuma somente a cantar, fazer shows, produzi-los. Escrever, apesar de perigoso, ainda pode ser bastante recompensador. Palavras são pesadas, como rimas também são. No entanto, não se deixam de fazê-las. A experiência deles nos mostra que as noções de periferia e centro estão mudando. Vendo a beleza de suas performances no palco, não consigo desfazer da conexão entre as periferias do Recife e no que, perigosamente, o Bairro do Recife e o centro da cidade podem se transformar antes mesmo dos anos 20. Higienização e especulação são rimas desagradáveis.

Das felicidades pequenas, ver material de divulgação de um músico que admiro muito sendo distribuído com todo esmero para os participantes do Porto Musical. Lá no meio das artes, infos, CD, um texto muito sincero que escrevi para ir estampado em seu futuro LP. Ainda a cantora/performer que mais me impressionou nos últimos dois anos imersa nas atividades do evento. Por fim, alguns novos leitores da OC que mal a conhecem, mas estranhamente levam a coleção inteira da revista, a promessa de conexão com outras formas de crítica, como a que comunga a revista Polivox, do Rio de Janeiro e a parceria cada vez mais constante entre os produtores culturais e nossas banquinhas de vender exceções, como as que vi na presença da Assustado Discos, Mi, Ripohlandya, Mariposa Cartonera, Edf. Pernambuco, entre muitas outras.

O Porto Musical é uma das extremas guerrilhas como exceção. No mais, a escrita crítica contra a cultura oficial da outra guerrilha que deseja ilhar o bairro do Recife, limitar as suas conexões. Leandro e Evandro não serão revistados em uma das pontes da cidade do Recife. Não serão porque nós não queremos. Sabemos quem eles são, ainda que demore para os demais saírem da condição de fantasmas. Como queremos, como há milhares de conexões ainda a serem feitas, a exceção saltará cada vez mais à vista. É nisso que creio.

Foto de capa  do site: Conferência – A Experiência do Laboratório Fantasma. Emicida e Evandro Fióti – Teatro Apolo (Crédito: Beto Figueiroa – Trago Boa Notícia).

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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