Grandeza de Biu Roque

trajetória

João Soares, mais conhecido como Biu Roque, nasceu em 1934 no Município de Condado e faleceu aos 76 anos em abril de 2010. Foi um dos músicos mais respeitados e admirados na Zona da Mata Norte, Pernambuco. Sabe-se que sua mãe, Dona Maria Guilherme, trabalhava como cozinheira em um dos muitos engenhos de cana-de-açúcar da região, e cultivava o costume de organizar rodas de coco na região. É neste contexto que se inicia a trajetória do pequeno João, ainda aos sete, oito anos de idade, destacando-se por sua voz clara e aguda. 

Como não poderia deixar de ser, o início é duro. A proliferação de bandas de música e de sopro na Zona da Mata tornava comum um ambiente no qual muitos artistas estudavam música e aprendiam a ler partituras. Percebendo o talento do menino, a mãe o autoriza a frequentar as aulas de música, estimulando-o também a se alfabetizar. Esta audácia, contudo, não estava nos planos do Senhor do Engenho onde sua família trabalhava e onde Roque desempenhava a função de colher as frutas do pé. Segundo seu próprio relato, testemunho contundente das relações escravocratas do Brasil rural, o senhor teria dito: “Não quero menino meu tendo aula de música não, menino meu tem que catar fruta”. 

A frustração, entretanto, não o impediu de prosseguir cantando e aprendendo a manejar os instrumentos musicais de que tanto gostava. Mesmo a contragosto de seus patrões, tornou-se um notável cantor e percussionista, reconhecido pelo domínio sobre gêneros tradicionais da região, como o Cavalo Marinho, a Ciranda, o Coco de Roda e o Maracatu de Baque Solto. Já aos 12 anos, arrimo de família, fazia algum dinheiro tocando nos cabarés da região. Cresceu cortando cana, sempre exposto às necessidades materiais, mas com casa e trabalho garantidos no Engenho, onde se casou, teve filhos, netos e bisnetos.

Sidrak, Mané Roque, Biu Roque, Mané Deodato, Luiz Paixão e Mestre Batista. Foto: John Murphy. <https://jazz.unt.edu/murphy/brazil>.

registros

Desde os anos 80, a voz e a percussão de Biu Roque vinham sendo registradas em vídeo de maneira esporádica, pelo menos uma dúzia de vezes. Principalmente, participando no “banco” do Cavalo Marinho do Mestre Batista — o “banco”, isto é, a formação característica com rabeca, pandeiro, mineiro e bajes. No início da década de 90, conhece Siba, artista que o projetou para o mundo. Primeiramente, no terceiro disco de Mestre Ambrósio em “Caninana”, coco que constava de seu repertório; depois, nos dois primeiros discos da Fuloresta lançados em 2002 e 2007, respectivamente. Até que em 2008, os músicos pernambucanos Alessandra Leão e Caçapa aprovam um projeto no Banco do Nordeste para gravar o que seria o primeiro disco de Biu Roque. Como introdução para o trabalho, fizeram uma sequência preciosa de entrevistas em 2008; em seguida, começaram as gravações, que ocorreram durante o ano de 2009; infelizmente, em 2010, Roque vem a falecer. Contudo, o que é feito não se apaga, em 2019 estamos aqui comentando esse disco, que é um dos mais importantes lançados na última década no Brasil. 

disco

Produzido por Alessandra Leão, Caçapa e Missionário José entre 2008 e 2010, o disco é lançado pela Garganta Records em 2018. O conceito estabelecido pelos produtores, tomou como horizonte, em primeiro lugar, a ideia de realizar um trabalho no qual Roque se reconhecesse como autor, inclusive como detentor dos direitos autorais. Procuraram evitar também a estética de preservação que marca os registros etnomusicológicos, incluindo instrumentos incomuns na prática desses ritmos, como a guitarra com efeitos. A participação de amigos e admiradores, em sua maioria instrumentistas, emprestou os ares de festa e renovação que atravessam as gravações. Outro fator que contribuiu para a sonoridade do disco, foi a decisão de não gravar Maracatu nem Cavalo Marinho, por uma série de motivos técnicos e estéticos, concentrando o repertório no Coco e na Ciranda, dois gêneros nos quais era mestre. Vale mencionar que Roque chegou a escutar o trabalho pronto e na íntegra, aprovando o resultado final.

Retomo aqui um fator sonoro importante: a presença de músicos do Recife, a maioria de classe média, artistas portanto que não viveram plenamente dentro da tradição do coco e da ciranda, mas que tinham Roque e esses ritmos como referência e inspiração. Dada a complexidade específica dos ritmos e técnicas que constituem a sonoridade da Zona da Mata, como compatibilizar a estética de Biu Roque com a presença desses músicos que não faziam parte do universo musical do autor? A resposta não poderia ser mais precisa: mantendo Roque a par de todos os movimentos possíveis, desde a concepção até a gravação e mixagem. Dois exemplos do grau de participação e abertura com que o artista encarou os dias de gravação: quando Juliano Holanda começou a sobrepor camadas de guitarra sob o coco tradicional “Corto cana, amarro cana”, Roque escutou as guitarras e exclamou: “olhe, quem quiser botar falta que bote, mas tá muito bom, viu?” Já em outra gravação, “Os Amorosos do Poço do Quebra-Mar”, quando Lula Marcondes, acostumado ao rufar do tarol do frevo, imprimiu o mesmo toque no coco, Roque teria dito: “Não, pode parar: coco não tem rufo, não!” 

É possível perceber, entranhada em cada som e cada sílaba emitida por essa voz, a força de uma vivência intransferível, talhada no trabalho pesado do Engenho de Cana de Açúcar, tomando parte nas festas longas e duradouras, no toque dos instrumentos e ritmos originários da região. A voz aguda e texturalmente rica, outrora considerada uma das mais belas da Zona da Mata, permanece expressiva, realçada pelos arranjos precisos e as participações especiais de Siba, Iara Rennó, Renata Rosa e dos produtores do disco, todos presentes em sua trajetória e em seu trabalho.

perguntas

A emoção que nos toma quando escutamos Mestre Biu Roque cantando e tocando leva a uma pergunta desconcertante: como seria possível que uma só voz detivesse o poder de nos transportar a toda uma paisagem? Como seria capaz de evocar sons, festas e personagens característicos desta região que é das mais complexas e originais em termos de produção cultural do Brasil? Gravado, prensado e devidamente assimilado quase dez anos depois, o disco nos leva a outras perguntas, desta vez, incômodas: como foi possível, nesse brasilzão de meu deus, que esse gênio da música viesse a gravar um disco apenas em 2009, às vésperas de fazer sua passagem para a eternidade? 


AGENDA: O show de lançamento do disco “A Noite Hoje é a Maior” será uma celebração à vida e à memória de Biu Roque, com direção artística de Caçapa e Alessandra Leão. A banda será composta pela Fuloresta (sopros e percussão), Caçapa (viola e guitarra) e Juliano Holanda (guitarra), com participação de Mestre Luiz Paixão (rabeca) e Helder Vasconcelos (fole de 8 baixos), que também atuará como dançarino. Revezando os vocais, Alessandra Leão, Siba, Renata Rosa, Mestre Anderson Miguel e dois filhos de Biu Roque: Mané Roque e Maíca Soares. As apresentações acontecerão no sábado (20), às 21h, e no domingo (21), às 18h, no Teatro do Sesc de Vila Mariana, em São Paulo. Os ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$30 (inteira).

CAVALO MARINHO ESTRELA DE OURO – Aliança, Pernambuco (1988) TV Viva. Nesse vídeo, Biu aparece tocando baje e cantando, de camisa branca, com bigode e chapéu, ao lado do grande pandeirista e cantor Mané Deodato.


MARACATU ESTRELA DE OURO – Aliança, Pernambuco (1988) TV Viva. Aqui Biu toca caixa, de boné verde e amarelo. Mané Roque (filho dele) aparece junto do terno, de boné vermelho e camisa florida.

CAVALO MARINHO DA DÉCADA DE 80.

Parte 2 https://youtu.be/j5zTj8-TRdI Parte 3 https://youtu.be/o34q062aYdc Parte 4 https://youtu.be/M7GbhQjpW-M Parte 5 https://youtu.be/UMq_z8ahejA

Nesses aqui, Biu Roque aparece tocando baje e cantando, de bigode e chapéu cinza, sentando no banco, provavelmente num Cavalo Marinho na cidade de Condado, Pernambuco. Tem imagens muito interessantes do pessoal dançando no início, sem fantasias (uma dança em roda chamada “mergulhão”). Além desses, temos os vídeos que o etnomusicólogo norte-americano John Murphy fez do Cavalo Marinho de Mestre Batista em 1991, em Aliança, Pernambuco. Biu Roque também aparece cantando e tocando baje, de camisa florida e chapéu preto. Também aparecem Mané Roque (camisa vermelha e chapéu preto, no baje) e o grande Luiz Paixão (rabeca). Disponível em: https://jazz.unt.edu/mestre-batista-and-his-banco

Agradeço a Alessandra Leão, Siba e Caçapa pelas informações preciosas e, especialmente, a Caçapa pela seleção e descrição dos registros em vídeo.

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Professor de filosofia da Faculdade de Educação/UFRJ, crítico musical e pesquisador.

Um comentário

  1. 17 de abril de 2019
    Responder

    Belo artigo! Estou feliz que os vídeos do Biu Roque que gravei podem ser útil. Tenho mais gravações em áudio.

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