GOEMON: cachaça rock banchá

Figura menos conhecida da Vanguarda Paulista, Goemon lançou um álbum homônimo que só vim a conhecer recentemente através do músico Graxa, mas que logo que ouvi, me causou deslumbramento. O músico é oriundo do movimento que ocorreu no fim dos anos 1970, mas que também percorreu os anos 1980, e contava com nomes importantes como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Patife Band, Língua de Trapo, entre outros. Esse agrupamento pode ser caracterizado como cena, apesar da profusão de estilos diferentes que cada um carregava na sua sonoridade. Porém, podemos observar uma característica predominante em quase todos os grupos de uma preocupação estética desafiadora em relação a todo o tipo de música brasileira produzida até então, seja na sonoridade, como a presença de elementos da dodecafonia e música atonal em Arrigo, e até nas releituras do Grupo Rumo a grandes compositores da música nacional, dando uma carga extremamente cosmopolita ao nosso cancioneiro popular; a ironia e acidez também tomam conta das letras de muitos deles, desde a quase cômica “Os metaleiros também amam”, do Língua de Trapo, às críticas sociais mais contundentes de “Nego Dito”, de Itamar Assumpção.

Além desse compartilhamento de referências estético-comportamentais — a performance ao vivo desses grupos era um traço marcante —, a cena foi nomeada e mapeada pela imprensa cultural à época; envolvia a demarcação territorial de lugares de um grande centro urbano, como o teatro Lira Paulistana; existia um processamento de gêneros musicais diversos como rock, música erudita, samba, reggae, funk e até pop, e eram marcados por uma forte dimensão midiática. Esse último, apesar de terem sido taxados como malditos, dialogavam com a mídia de uma maneira totalmente oposta ao mainstream: foi aqui que a cultura do mercado independente de discos se consolidou no Brasil. Produziam, gravavam e distribuíam seus próprios discos, sem contar com a interferência das grandes gravadoras, e até foram personagens, além de compositores da trilha sonora do filme Cidade Oculta, de 1986, do diretor Chico Botelho. Rui Mifune, ou Goemon, até fez uma participação no filme citado acima. Ele era o cantor de um karaokê japonês localizado no bairro da Liberdade, sendo isso um dos poucos registros audiovisuais do músico.

Goemon era uma lenda japonesa paralela ao Robin Hood, roubava dos ricos para dar aos pobres e tinha habilidades ninja; quando foi preso, foi condenado a ser queimado vivo num caldeirão de água fervente junto com seu filho. A história trágica do herói parece permear as temáticas durante todo o primeiro e único álbum do músico, onde encontramos composições nada tradicionais, junto de temáticas bastante incômodas como um todo. Sua maneira visceral de escrever, mistura crítica político-social, relações amorosas não convencionais, e ataques constantes à moral e aos bons costumes e à falsa religiosidade, misturados a citações constantes ao universo da cultura pop.

Há, a todo momento, um desconforto geral com os moldes da sociedade em que vivia, sendo a mais emblemática “Adeus Vitrines”, seguida pela ótima “Sacana’s Blues” e uma relação direta com o submundo do sexo, drogas e rock’n’roll. O lugar de fala é muitas vezes dado a personagens desse lugar underground que o disco parece habitar: em “Eu senti o cão”, um ladrão justifica seu ato pelo nojo que a vítima demonstrou pela sua pessoa, como se fosse um bicho; “Paola”, uma das melhores canções do disco, quem a protagoniza é um travesti, que além de criticar os valores nucleares da família burguesa, reclama da falta de glamour na vida dessas pessoas e pede a volta de Monroe e Garbo. Até no constante medo que sua vida lhe oferece, como encontrar um Chico Picadinho pelo caminho, ela preferiria que se fosse morrer pelas mãos de um psicopata, que fosse Jack, o estripador, na fog londrina, ao som do Big Ben.

“De porrada em porrada” fala de uma relação que pode parecer contraditória (será?), citando atos de violência e amor: “Um murro na boca, de puro ódio/ Sinto que você me quer”; “A boneca do meu sonho” fala da relação ideal de amor, sexo e poder que mantém com uma boneca inflável, que pode ser lida como uma crítica ao machismo e me soa como uma solução perfeita aos homens que ainda insistem em viver nesse mundo chauvinista: “Depois, você me dá sem frescura/ E eu tomo o que é meu de direito”. Há um tributo ao demônio em “Belzebu, Satan Tinhoso” e uma ironia aos falsos profetas (ou líderes religiosos) em “Bom Guru”. “Cachaça, rock e banchá” é um resumo do submundo de uma São Paulo — e por que não dizer de grandes metrópoles contemporâneas como um todo? — que Goemon tentou demonstrar e que sempre fora varrida para debaixo do tapete.

Nunca reconhecido e sendo, erroneamente, considerado por alguns como música trash, Rui Mifune chegou a morar no Japão por anos, onde trabalhara como produtor e lançava discos de artistas brasileiros exclusivos para o mercado nipônico. Também foi produtor de discos e shows de Itamar Assumpção, na década de 1980. Além do disco tratado aqui, chegou a lançar uma fita demo em 1993, com quatro músicas, batizada de Levemente Perverso. Morreu na cidade mineira de Poços de Caldas, em 11 de junho de 2012 e quase ninguém noticiou o fato. Que agora ele esteja tomando uma cachaça com Satã, do jeito que queria!

Publicado originalmente em janeiro de 2014, na 1ª edição da revista Outros Críticos.

Arte de capa: Rei Porco, de Daniel Liberalino.

 

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Rafael de Queiroz Escrito por:

Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

2 Comentários

  1. Alex Theodoro Mifune
    8 de agosto de 2017
    Responder

    Sou primo dele. Descobri essa matéria agora e gostaria de elogiar a publicação: muito perspicaz e bem fidedigna. Na minha opinião, GOEMON foi um dos melhores talentos do rock nacional. Tive a honra de gravar a Demo (baixo) com ele.

  2. cleber souza
    2 de abril de 2018
    Responder

    volta Monroe, Hallow, Garbo…
    puta disco, conheci esse album em 2009 no programa do joao gordo, chamado gordoshop…faz tempo…

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