Glauco e o duplo de si

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Foto: Tiago Guillen

A princípio, uma pauta em branco é um obstáculo quase intransponível. O silêncio altivo que emana de seus pentagramas intocados parece lançar ao compositor o desafio da transgressão do vazio. Pôr a primeira nota no papel exige de quem escreve um impulso capaz de quebrar a pausa inicial e estruturar, assim, suas urgências internas. Justamente devido a esse caráter personalíssimo da música, o compositor, ao olhar para dentro, vai buscar a centelha que desencadeia o processo da criação em duas esferas que habitam o seu âmago: a emoção e a razão. Nas condições ideais, ele sabe transitar por estes campos e os sobrepor de modo complementar para erigir a partir deles uma realidade formal baseada na técnica, contudo voltada para um ideal subjetivo e essencialmente expressivo. Mas, existe o risco dele se perder nessa varredura e alcançar os extremos tanto de um lado quanto do outro.

Se o autor descambar para o máximo racionalismo, ele fatalmente acabará por reduzir o ato de compor a um método científico de organizar sons e espaços baseado em regras tão constritivas e rígidas no qual as próprias escolhas do compositor soam artificias, resultando em uma música intrincadamente fria que enfatiza o mecanicismo da execução. Em contrapartida, se, ao escrever, o autor negligencia a forma e mergulha livremente na pura imaginação intuitiva, periga cair na incoerência da justaposição de emoções brutas e ideias não desenvolvidas, transformando sua obra numa névoa incompreensível e ilógica. Inteiramente consciente dos caminhos tortuosos que é a composição, essa “extenuante travessia de uma passagem imaginária”, o pianista Glauco César II consegue se estabelecer nesses dois universos e criar em cada um deles um artista único. De um lado, o Glauco erudito com treinamento clássico e formação acadêmica; do outro, o Glauco psicodélico que desdenha dessa bagagem e foca no aspecto sensorial da canção. Um duplo de si.

Com “O Trem”, seu projeto mais conhecido do público recifense, Glauco se liberta do olhar opressor da disciplina acumulada ao longo de anos de estudo para se permitir ser justamente o inverso: o espírito livre. Esteticamente, Glauco e o Trem éo fruto da epifania daquele estudante de música que, depois de ouvir, reouvir e investigar “O Cravo Bem Temperado” de Bach, escuta Raul Seixas pela primeira vez e percebe que as muralhas estilísticas que o cercavam eram imaginárias e mais tênues do que ele supunha. Música é, sobretudo, movimento, e o aspecto estático das categorizações não passa de uma presunção do intelecto. Abraçar o outro lado – o intuitivo – era, portanto, irresistível, inevitável. Por isso, nesse trabalho, Glauco busca uma música de arquitetura simples, impregnada pela atmosfera psicodélica, para alicerçar sua poesia rica em jogos de palavras, aliterações e significâncias, e deixar ecoar seu grito mais primevo.

Tu by Glauco César II

Compreender essa emancipação de si mesmo promovida por Glauco, permite ao ouvinte descortinar a real dimensão de suas canções e entender que o aparente lugar-comum de sua estética lisérgico-retrô-setentista é, na verdade, a exposição de sua faceta mais íntima e menos controlada (o que de certa maneira justifica e redime, inclusive, seu canto desafinado). Puro impulso emotivo. Em “Tu”, por exemplo, o pianista canta as inseparáveis dicotomias que emanam de uma paixão numa valsa inebriante. Já em “Medo-me”, Glauco enfrenta seus demônios internos e o horror de se perceber um indivíduo frágil de “mãos estranhas, braços finos, com tremor nas pernas e olhar desconfiado” a enfrentar um mundo hostil que pode trucidá-lo num instante. O turvo movimento cromático descendente do acorde de D7 para o Db que inicia a composição e se repete ao longo de seu desenvolvimento suspende a ideia de certeza tonal. Tal artifício reforça a sensação de pavor que ecoa da letra e só é aliviada quando a música encontra um momentâneo repouso no mesmo Db após um giro harmônico. É como se depois de muito lutar com seu medo, Glauco conseguisse finalmente aplacá-lo.

Medo-me by Glauco César II

No lado diametralmente oposto, está o erudito Glauco César II, um compositor inquieto, metódico e complexo que conhece profundamente o legado musical da Europa Ocidental, a opulência da cultura popular de sua terra, as abissais rupturas estéticas do modernismo e a liberdade improvisativa trazida pelo jazz. Todavia, ao se utilizar desses matizes, ele assume riscos e busca sua própria identidade artística sem se render à tirania das convenções e ao marasmo das zonas de conforto. As tradições e as normas são para ele referências que devem ser assimiladas, mas, antes de ser o fim em si da composição, funcionam como o princípio da busca pelo novo. Em última instância, cabe ao artista a responsabilidade moral de ser fiel à sua própria visão e forjar dentro dessa integridade criativa seu estilo, e Glauco o é até as últimas consequências.

Combinando destreza técnica, uma capacidade imaginária que parece não ter fim e a habilidade de sentir cada filigrana de seus escritos em interpretações arrebatadoras, Glauco resplandece. Muito além da leviandade do exibicionismo virtuosístico ou das láureas catedráticas, sua produção instrumental aborda questões fundamentais sobre o sentido da arte hoje e sua relação com o indivíduo – no caso, tanto aquele que escuta quanto o que produz. Aqui, ele não quer apenas a transitória experiência sensível da realidade. Busca a verdade sublime da transcendência; tocar o éter; conectar, ainda que momentaneamente, o Homem ao infinito. “Grito Negro” com toda sua polirritmia estrondosa, seu encadeamento harmônico mais livre, suas mudanças de direção inesperadas (exposição/variação/reexposição) é uma excelente ilustração do talento de Glauco em transmudar a realidade objetiva dos sons na realidade astral das essências. Tal profundidade é algo raro num mundo regido pela banalidade e pela aparência.

Para a coletânea no mínimo era isso, Glauco apresenta sua composição “O Amor”, uma interseção desses dois Eus num diálogo entre o instintivo e o cerebral. Por um lado, a métrica uniforme que dá coesão aos versos declamados como um mantra, através de uma melodia estacionária que gravita em torno de uma singela harmonia de quatro acordes (Cm, Gm, DbMaj7, AbMaj7). Do outro, o intérprete que transpõe ao piano o indizível para comunicar sentimentos que emanam das vicissitudes irracionais do amor. Um olhar mais ao longe, no entanto, revela uma tenaz construção imagética que reside sob a aparente simplicidade da composição. Glauco relaciona cada acorde às estruturas internas do coração (átrio direito, átrio esquerdo, ventrículo direito e ventrículo esquerdo), sendo a melodia o sangue que lhes perpassa e a dinâmica expressiva, a força e o sentido com que o músculo se inquieta em seu ardor amoroso. O órgão símbolo do amor é pintado com sons, palavras e silêncios.

01. Glauco César II – O amor by outros críticos

Se a busca da identidade artística é um processo árduo, Glauco teve a ousadia de se construir não uma, mas duas vezes, sem temer o impossível da empreitada. E é justamente essa audácia que o separa como artista inovador do vácuo conformista tão em voga. O que se teria perdido se ele não tivesse tentado? Ao abrir em si dois caminhos que correm em paralelo e eventualmente se tocam, Glauco realiza suas aspirações mais elementares por meio da experiência ora sensitiva, ora metafísica. Não se pode e nem se deve ignorar tal comprometimento com a arte. Que venham mais de seus Eus.

por Bruno Vitorino.   

Publicado originalmente na coletânea no mínimo era isso: 10 bandas, 10 ensaios

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Bruno Vitorino Escrito por:

Compositor, baixista e colunista do blog Variações para 4.

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