Frevo e Baião como espaços de erosão latente

por Marina Suassuna.

Há muito tempo que ritmos tradicionais como frevo e o baião – responsáveis pela construção de nossa identidade dentro da música popular brasileira – deixaram de fazer parte do cotidiano do Recife. Antes prestigiados pelo grande público e com amplo espaço nas emissoras de rádio e tv, esses gêneros musicais hoje sobrevivem como nichos de resistência. “Eu vejo a música regional passando por uma grande crise, uma crise de expressão, que nos impede de acessar grandes públicos através de nossas matrizes. A crise é também educacional e cultural, e isso corrobora para uma maior dificuldade de colocarmos a nossa música à disposição das novas gerações”, observa o músico Bruno Lins, vocalista da banda Fim de Feira. Reconhecida como banda de forró pé-de-serra atrelada à poesia de cordel, a Fim de Feira não perde de vista o papel do baião como mola mestra da música popular brasileira. Assim como o compositor e músico Cláudio Rabeca que, em 2011, lançou o disco Luz do Baião, cujo repertório prioriza o gênero disseminado por Luiz Gonzaga. “O Baião não é um ritmo morto, mas vem sendo pouquíssimo usado. Me sentia incomodado ao perceber que ninguém mais estava gravando baião. Eu ia em alguns shows de artistas famosos, ditos defensores da música de Luiz Gonzaga e só o que eu via eram eles repetindo a fórmula do sucesso do momento, que é o xote romântico. São poucos os que mesclam o forró com o baião”, alerta.

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“O Baião não é um ritmo morto, mas vem sendo pouquíssimo usado. Me sentia incomodado ao perceber que ninguém mais estava gravando baião” – Claudio Rabeca. Foto: Beto Figueiroa

Cláudio também faz questão de manter o ritmo gonzagueano no repertório de sua banda de forró, a Quarteto Olinda. “Eu preciso forçar uma barra pra gente não deixar de tocar. O baião proporciona que você trabalhe mais harmonias e melodias, ele tende a ser mais lírico musicalmente. Mas os músicos não têm essa preocupação. Quando um movimento satura, o público tende a adotar outro em seu lugar. Isso aconteceu com a Jovem Guarda, com o Tropicalismo. As gravadoras investiram o quanto puderam no baião enquanto ele dava dinheiro, espremeram-no como o bagaço da laranja, até sair a última gota, até que ele ficou sufocado”.

Embora já existisse desde os anos 1920 como uma cadência das cantorias de viola, o baião só estourou como canção popular em 1946, graças ao processo de estilização feito pelo cearense Humberto Teixeira e o pernambucano de Exu Luiz Gonzaga, que resultou no “baião urbano”, incluindo letra num ritmo que, até então, era só instrumental. Através da composição “Baião”, Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga colocaram o ritmo nos bailes e festas incorporando a instrumentação desenvolvida pelo pernambucano — triângulo-zabumba-sanfona — que se tornaria a principal base instrumental do ritmo. Na época, o gênero foi tido como uma “redescoberta da vitalidade rítmica” num mercado musical “saturado de boleros e sambas-canções abolerados”, conforme escreveu o crítico musical José Ramos Tinhorão no livro Pequenas Histórias da Música Popular segundo seus gêneros.

Na sinopse do documentário O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, que homenageia a obra de Humberto Teixeira, pode-se ler: “Quando as pessoas pensam em música brasileira, pensam em samba e bossa nova. Entre esses dois ritmos, há uma década esquecida. Um período em que um ritmo nordestino foi levado ao Sul, tomou o país como um furacão, e logo se espalhou pelo mundo. É o mais excitante e autêntico de todos os sons brasileiros: o baião”. Não se pode perder de vista que, antes do surgimento da bossa nova, o baião foi o ritmo brasileiro mais difundido no exterior. Um dos entrevistados do documentário, Gilberto Gil não mede palavras para dizer que o baião é, depois do samba, “uma das grandes famílias reais da música brasileira.” Em 2014, ele reforçou a ideia em matéria de Henrique Porto, no portal Uol, afirmando que o ritmo nordestino, além de ser um dos elementos utilizados por João Gilberto na batida da bossa nova, é também de onde vêm todos os gêneros populares e batuques brasileiros.

No cinema, o gênero ganhou reconhecimento no Festival de Cannes de 1953, quando o filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, levou a Palma de Ouro, com menção honrosa para sua música, a toada “Muié Rendeira”, adaptada para o ritmo de baião urbano por Zé do Norte. No mesmo ano, a composição também foi agraciada na primeira edição do Grande Prêmio da Academia do Disco Francês.

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“Existe, sim, um desgaste do baião, mas também há compositores que resistem.” – Bruno Lins (Fim de Feira) Foto: Beto Figueiroa

“Existe, sim, um desgaste do baião, mas também há compositores que resistem. Eu vejo o trabalho de Lenine como um trabalho de renovação do baião. Ele é um grande divulgador do gênero e continua lançando discos”, aponta Bruno Lins. No entanto, o baião sempre esteve ligado à sonoridade dos músicos do interior do Nordeste, como Sivuca, Dominguinhos e o próprio Luiz Gonzaga, que atuavam junto à vertente estilística associada à tradição, o forró pé de serra. Ao contrário dos músicos de frevo, que de uns anos pra cá são requisitados apenas no Carnaval ou em eventuais ocasiões, os músicos ligados ao forró pé de serra — ainda que este seja um circuito independente e minoritário diante da força comercial do forró eletrônico — fazem apresentações praticamente de janeiro a janeiro. “Alguns conseguem grande projeção comercial e se ocupam politicamente de reposicionar a vertente no cenário cultural da cidade, com algum êxito”, aponta o professor do Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, Felipe Trotta, no artigo Tradicional é na capital: a circulação do forró pé de serra no Recife.

Ainda assim, são poucos os que aproveitam esta visibilidade para recuperar o prestígio do baião. Aqueles que se comprometem com o ritmo gonzagueano, como o Quarteto Olinda e a Fim de Feira, atuam em circuitos alternativos. “Acredito que tudo é cíclico. O baião pode voltar à tona, não sei em qual intensidade e se volta a ser uma moda. Tem ritmos que fazem mais sucesso numa determinada época. Infelizmente, a galera vai atrás dos sucessos. Se algum artista do mainstream fizer um disco com baião, acho que ele pode voltar a ser o que era antes”, acredita Cláudio Rabeca.

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“Se refletirmos sobre a paisagem sonora das cidades, observaremos uma escuta que nos indica fases do calendário e estados festivos e afetivos associados.” – Felipe Trotta. Foto: Mário Arruda

A sazonalidade é algo inerente à música, que se apresenta com maior ou menor relevância em nossa vida cotidiana, dependendo da temporalidade. Felipe Trotta explica: “Se refletirmos sobre a paisagem sonora das cidades, observaremos uma escuta que nos indica fases do calendário e estados festivos e afetivos associados.” Com o frevo não é diferente. Desde a sua origem, o mais genuíno dos ritmos pernambucanos sempre esteve associado às festividades momescas, por ter se fixado como música naquele contexto, em meio às bandas de rua do Carnaval recifense no início da década de 1880 até os primeiros anos do século 20. No entanto, a demanda pelo gênero chegou a ultrapassar o período carnavalesco, sobretudo em meados de 1950 e 1960, quando viveu seu apogeu.

Com apoio da gravadora Rozenblit, o frevo passou a ser consumido no Recife como música autônoma do eixo Rio-São Paulo. No livro Do Frevo ao Manguebeat, o jornalista José Teles conta: “Antológicos discos de frevo foram produzidos na Rozenblit, com boa resposta comercial, alguns inclusive com grandes tiragens, a exemplo dos LPs em que Claudionor Germano interpretava Capiba e Nelson Ferreira. Abriu-se, assim, um mercado para compositores, músicos, maestros, dando uma revigorada no frevo”. Diretor musical da Rozenblit durante anos, o maestro Duda conta que a produção em torno do ritmo começava desde o período de São João: “No meio do ano, gravávamos todos os frevos novos que eram compostos. Em outubro e novembro, os discos já estavam prontos. Era quando entregávamos nas rádios para que fossem divulgados. Quando chegava o Natal, muitas pessoas ganhavam os discos de presente e no Carnaval todo mundo já sabia cantar as músicas. Naquela época, havia uma programação musical local nas rádios e tvs. Hoje, a programação local desses veículos se resume a jornalismo, futebol e programa policial”.

Com a falência da Rozenblit no início da década de 1980, o frevo passou a respirar com dificuldades. A demanda de mercado para o ritmo deixou de existir. Consequentemente, o gênero se distanciou das novas gerações de compositores pernambucanos e também do público. Nem o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, dado pela Unesco em 2012, foi capaz de evitar o descaso com o ritmo, que se reflete, principalmente, nos espaços de circulação e consumo do gênero, que não vigoram mais como antes. Sobre suas “ruínas” não incidem ações de preservação em grande escala ou noções de memória coletiva a serem trabalhadas que tragam o frevo novamente ao cotidiano dos recifenses. Ele está no museu Paço do Frevo o ano inteiro. Nas ruas, nas casas e nas “audições coletivas”, apenas no Carnaval. Um dos maiores representantes do gênero na atualidade, o maestro Spok se apresenta mais no exterior do que em sua própria terra natal, sendo considerado, por isso, o “cônsul” do frevo pernambucano.

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“Todo ano eu componho novos frevos, mas não adianta. Nas apresentações, tenho sempre que apelar para os frevos antigos.” – Getúlio Cavalcanti

Vistos pelos músicos como uma oportunidade de estimular o surgimento de novos compositores e arranjadores, os concursos oficiais de frevo que acontecem todo ano não têm seus discos inseridos nas programações das rádios recifenses. A única que inclui o frevo na sua programação normal é a rádio Universitária, cuja audiência passa longe do grande público. “Depois que a Rozenblit acabou, a gente só ouve frevo novo quando algum músico de porte, por exemplo, Alceu Valença, grava em seu disco”, disse o maestro Duda em 1989. De acordo com ele, a afirmação ainda é atual. “Os músicos continuam gravando, mas de maneira independente. O povo não toma conhecimento porque os meios de comunicação não tocam. Só dão espaço para a programação de fora.” Compositor de frevos que se tornaram clássicos, como “Último regresso” e o “O bom Sebastião”, Getúlio Cavalcanti testemunha: “Todo ano eu componho novos frevos, mas não adianta. Nas apresentações, tenho sempre que apelar para os frevos antigos. Se as rádios demonstrassem interesse como nos anos 1970, teríamos uma programação de frevo sempre renovada”.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: Gil Vicente/Divulgação

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Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

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