Formas de habitar a cidade

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Feira “Independente Disso” realizada na Orbe Coworking. Foto: Josivan Rodrigues

por Carlos Gomes.

Agendas culturais podem ser armadilhas para quem parte às cegas acreditando tão somente no que dizem os releases filtrados pelos jornais, contagem de “presenças” em eventos ou curtidas do Facebook, ou ainda pelas raras postagens de sites e blogs, sobretudo quando não há tempo para o editor ir além do óbvio: Quem, onde e como?

Ontem, com sorte, pude presenciar dois eventos e suas formas distintas de habitar a cidade. Ao me encontrar, de alguma forma, num entrelugar onde cabe o espectador, o crítico e o produtor, pude ter vista privilegiada para observar como os ambientes também produzem afetos.

Diante dessa hipótese, não rara, é mais fácil perceber e refletir sobre certas sutilezas presentes na estreia da feira “Independente Disso”, produzida pela designer Mayra Melo, no Orbe Coworking, situado no 8º andar do Edf. Pernambuco, na Av. Dantas Barreto – O Edf. Pernambuco tem se tornado referência em como a cultura e economia, a classificada como criativa, podem conviver e gerar diferentes produtos culturais – e na 10ª edição do festival “No Ar Coquetel Molotov”, produzido por Ana Garcia e Jarmeson de Lima, que com a mudança para a Coudelaria Souza Leão, no bairro da Várzea, mesmo com a alcunha que carrega de “festival consolidado”, teve também o seu ar de estreia.

Estreias são sempre difíceis. Essa máxima serve para quase tudo na vida. Para as produções culturais não é diferente. Feiras, culturais ou não, são costumeiramente realizadas na rua, ao ar livre. São testemunhos – sonoros, materiais, estéticos – daquele pedaço da cidade, de como os habitantes de seu entorno, assim como os passantes de ocasião, tratam o lugar. Deslocar a rua para o 8º andar de um prédio no centro da cidade será sempre um risco.

Os desavisados das feiras, público que não reconhece determinada produção artística, aquela mesma filtrada aleatoriamente (será?) pela imprensa, à margem das rádios e TVs, não teve a chance de topar no meio da rua com livrinhos de papel finíssimo, telas da Gráfica Lenta, revistas, livros, dobrinhas, quadros, mariposas cartoneras, fotografias, discos, muitos deles, e o que muito mais cabia. O simples ato de adentrar o edifício, apertar o 8º andar e circular pela feira, por si só já é uma conquista de uma parcela significativa de quem tem procurado não ficar de braços cruzados diante do que está posto. Ingenuamente, pus a vista pela janela da Orbe, a observar a multidão atravessando desesperadamente as ruas, correndo e adentrando nos ônibus, e me perguntei: Por que eles não sabem o que estamos fazendo aqui em cima? Por outro lado, não foram poucas as pessoas que saíram com sacolas cheias daqueles produtos que mencionei, eu mesmo, entre presentes e compras, saí com minha mochila de achados. Haja tempo pra leitura!

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Foto: Flora Pimentel

Estreias são sempre difíceis, é bom que se repita. No entanto, é nessa dificuldade que está o prazer e o ímpeto a que tantos se arriscam diariamente: lançar coisas novas no mundo. O festival No Ar sempre foi, para mim, uma expressão da escuta que cerca a música que faz parte do consumo diário dos produtores do Coquetel Molotov. Seja em que época for. O frescor e imprevisibilidade sadia que cercou os três principais festivais da cidade, o Rec-Beat, Abril Pro Rock e Coquetel Molotov, a cada ano tem à sua prova a crítica posta diante de um público, majoritariamente local, que tem preguiça de fechar os jornais, desligar a TV, dessintonizar a rádio e sair da internet para descobrir por si mesmo o que há lá fora que não nos dizem.

Para os três festivais mencionados, conseguir manter-se em atividade e com a importância simbólica que ainda têm, não deve ser nada fácil. Mesmo assim, e, principalmente por isso, desconfiar criticamente, a cada ano, do que é posto à prova para um público, em sua maioria, exigente com o que é menos importante, e desleixado para o que deveria ser A Questão: a música. Sobre ela, invariavelmente temos pouco a falar. O sucesso já é dado, não adquirido pelas experiências individuais. Cada escuta, percepção, modo de lidar com ambientes e coletividades, deve ser respeitada. Esse tempo de maturação sobre o posto em cada ano ou edição deveria ser mais longo, cuidadoso.

Desse modo, não sendo a descrição cronológica dos eventos de ontem, na feira e no festival, encerro este texto acreditando que, por um lado, fico satisfeito pelas promessas de invenção de cada evento, por outro, me preocupa, na maioria das situações, que embalagens grandiosas escondam no fundo de sua promessa de arte, nada mais que a repetição massiva de uma única nota.

Foto de capa: Coudelaria Souza Leão, No Ar Coquetel Molotov. Por Caroline Bittencourt.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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