Fitas demo, videoclipes, psicodelia e um elefante chamado Dumbo

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A ideia de usar os elefantes psicodélicos do filme Dumbo como videoclipe não é exclusiva de Stela Campos. Os australianos da Tame Impala fizeram o mesmo com a canção “Elephant”. Se você não viu o clipe de Stela ainda, vá ver, assim como o do Tame Impala, e constate a felicidade criativa que pode surgir das referências cruzadas entre Campos, a banda australiana, elefantes e Walt Disney. Capa do disco: Juliana Pontual. Foto de capa do site: Silvia Costanti

por Guilherme Gatis.

Uma das cenas do filme infantil Dumbo, da Disney, sobre o elefante que queria ser estrela de circo, mas sofria com a chacota de todos por ter orelhas muito grandes, nos mostra uma série de alucinações psicodélicas sofridas por Dumbo com bolas de sabão que viram elefantes em forma de camelo, trombas em forma de trompete tocada por elefantes que pisoteiam outros elefantes que viram um elefante andando em pé com seu corpo de diversas cabeças de elefante. O trecho, do tempo em que os processos de animação tinham fortes traços de experimentação – mesmo em títulos voltados para o público infantil, como nesse caso – foi aproveitada pela produtora Estúdio Vranda como videoclipe da música “Take me Back to the Planet Earth Alert”, a nona faixa do álbum Dumbo, de Stela Campos.

Outra paisagem sonora proposta por Stela Campos para Dumbo é o videoclipe da canção “Work”, última faixa do álbum. Gravado em parceria com a cineasta Maria Clara Escobar, o clipe é uma colcha de retalhos de um arquivo de imagens pessoais coletadas pela própria Stela. Um aquário, uma exibição de manobras automobilísticas, um golfinho, um garoto andando de skate com o pai, gatos e muitas paisagens capturadas das janelas de trens e carros fazem parte do repertório visual do vídeo. Essa costura de arquivos de tempos e locais diferentes, junto com o psicodelismo do desenho animado, são dois registros que unidos conceituam o elefante de Stela Campos. As duas referências imagéticas, tal como fotografias sobrepostas, mesclam elementos e texturas que resultam numa nova imagem diferente da anterior, com novos sentidos e referências.

Algumas das composições do álbum são o primeiro registro gravado de canções que estavam arquivadas apenas em fitas cassete. São músicas da época da fita demo, que existiam apenas como uma ideia, como “Be a Bad Son”, primeira faixa de Dumbo, com uma levada que lembra PJ Harvey, menção confessada pela própria Stela, ou “I Walk Alone” e “Red Alert”. Além de PJ, referências como Stereolab, em “Candy Shop Fire” ou a guitarra de “Travelling Man”, que lembra o Lemonheads, podem ser citadas para tentar enquadrar as músicas do álbum às referências ao rock de garagem dos anos 1990. Mas as canções de Dumbo não soam datadas. Apesar dos vários anos com essas canções guardadas, ele não é um álbum coletânea de sobras e demos. Essa unidade evidente nas canções vem da proposta da cantora, que em alguns casos refez as letras, os arranjos e acrescentou novas músicas nesse processo de sobreposição de referências entre o novo, as fitas demo e os arranjos psicodélicos. O trabalho de garimpagem e criação foi tão prolífico que algumas músicas ficaram de fora – uma parte do material produzido não entrou em Dumbo, que poderia ser álbum duplo, mas que foi enxuto para não encarecer o projeto. As sobras, quem sabe?, podem (ou poderiam) surgir num projeto posterior, que já tem apelido: Mogli.

O álbum foi gravado em quatro meses, no segundo semestre de 2012, no Estúdio Casa do Mancha, em São Paulo, e teve a produção de Diogo Valentino, da Supercordas. O guitarrista Felipe Giraknob, da mesma banda, também participou das gravações, junto com o tecladista Léo Monstro (da banda de Lulina). Clayton Martin, baterista do Cidadão Instigado, também fez parte do time Dumbo, que teve ainda a participação da ala feminina das cantoras-compositoras Lulina, Laura Wrona e Juliana R. Vitor, de nove anos, filho da cantora, também empresta a sua voz em “Take me Back to the Planet Earth”. Lançado em vinil e disponível para download no site da cantora no sistema de “pague o quanto quiser” – para baixar de graça, basta digitar “0” na área que especifica o valor – o álbum é o quinto da carreira de Campos e o primeiro que registra canções apenas em inglês. Pela naturalidade com que canta e constrói suas canções, fica a impressão de que ela já poderia ter lançado antes o seu álbum em inglês.

A trajetória musical de Campos, iniciada na década de 1990, é peculiar: oriunda da cena alternativa de São Paulo com o Funziona Senza Vapore, banda remanescente do grupo Fellini, Stela liderou no Recife o Lara Hanouska, espécie de lado B do movimento manguebeat, onde Campos também iniciou sua carreira solo de discos como o Céu de Brigadeiro (1998) e participou de trilhas sonoras de filmes e coletâneas.

Publicado originalmente na 2ª edição da revista Outros Críticos.

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Guilherme Gatis Escrito por:

Jornalista e DJ.

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