Fim de festa, músicos a pontapés

por Germano Rabello.

Todos os anos, durante o carnaval, Recife e Olinda entram em frenesi. As multidões ocupam as ruas. Para os locais, talvez seja a manifestação mais característica de nossa identidade cultural. Para as pessoas de outros lugares, torna-se um ímã, exalando fascínio e curiosidade. E a esse poder de atrair, congregar pessoas, corresponde uma movimentação financeira. Nesse contexto, o valor da música ganha outros contornos. É uma festa convulsionada e megalomaníaca, de grandes proporções, em que se pode analisar algo de nossa relação com a música e a cultura.

Não seria nossa cultura o que temos de mais forte? Nossa tradição cultural, ou sendo mais otimista e mais amplo, a capacidade de reinventar e ressignificar essa tradição? É nesse momento em que a cidade (entendida aqui como Região Metropolitana) mostra um outro tipo de valor ao mundo: a originalidade. Por mais que não se procure aqui defender nenhum tipo de purismo, deve-se notar a diferença causada pela egrégora criativa. Em cidades em que o desenvolvimento econômico surge sem uma produção cultural à altura, a tendência é a dominação por micaretas (no carnaval), por bandas cover (o resto do ano), enfim, por soluções fáceis e com menos personalidade. Sim, o Recife não está isento disso, mas ao menos aqui existem outras opções.

“Fazer dos shows um eixo principal carnavalesco é fenômeno recente. No passado, as orquestras de frevo, oriundas das bandas marciais, conduziam a festa sozinhas.”

Fazer dos shows um eixo principal carnavalesco é fenômeno recente. No passado, as orquestras de frevo, oriundas das bandas marciais, conduziam a festa sozinhas. Dos trios elétricos e freviocas, foi se fortalecendo a ideia de polos de animação com palcos e programação estruturada. Nesses shows, cabe o multiculturalismo (slogan do PT a partir da gestão do ex-prefeito João Paulo): um show de Devotos pode preceder um de Alcione. Nada de errado, desde que não se sufoque a iniciativa dos blocos de rua, e do carnaval feito espontaneamente pelo povo fantasiado, que faz parte da nossa originalidade.

Claro que a interferência do poder público na cultura nem sempre é bem intencionada ou bem realizada. Basta observar o desmando administrativo que foi a contratação do Karametade no carnaval 2014, nove shows por R$ 75 mil cada, dando margem a vários questionamentos (verba liberada por emenda parlamentar, sem processo de curadoria).

Outro desmando foi o boicote aos músicos populares da Zona da Mata. Quando o Ministério Público estabeleceu um toque de recolher às 2h da manhã e a Polícia Militar interrompeu os festejos dos brincantes do maracatu rural – espetáculo ritualístico e artístico que tradicionalmente acontece até o raiar do dia –, a própria essência da brincadeira ficou ameaçada.

“A diferenciação entre a cultura popular e a cultura pop existe na nossa política pública: os grupos de cultura popular recebem menores cachês, um tratamento visivelmente menos respeitoso. “

O carnaval de Pernambuco não é só frevo. É também maracatus de baque solto e baque virado, caboclinhos, afoxés, escolas de samba. A diferenciação entre a cultura popular e a cultura pop existe na nossa política pública: os grupos de cultura popular recebem menores cachês, um tratamento visivelmente menos respeitoso. Nós (artistas, espectadores, contribuintes) precisamos ser respeitados, precisamos sedimentar essa noção de respeito. A mobilização e discussão em torno desses temas foi grande e imediata.

O valor da música enquanto mero cachê é um assunto técnico, discussão de sindicato, mas do valor da música enquanto identidade cultural é algo que nos atinge a todos. Pois sentimos como algo vital. Se os brincantes da Zona da Mata ainda fazem sua brincadeira, nunca foi por dinheiro, mas por uma força visceral que afirma: isso é nossa vida.

“A função do Estado na cultura e na música seria o de incentivar a produção local.”

A existência do mercado carnavalesco de shows, seja para as bandas dos palcos ou para as orquestras de rua, é uma alternativa que ainda deve se estruturar melhor para os músicos. É nítido que ainda vale aquele ditado: “Fim de festa, músicos a pontapés”. Os instrumentistas e cantores sofrem para receber seus pagamentos, esperando meses, anos, da Fundarpe, das Prefeituras. Em especial, quem não passou por favorecimento ou apadrinhamento. Porém, não é incomum que bandas nacionais mais famosas recebam adiantado. Por mais que a administração pública possa ecoar com justiça as leis de oferta e procura do mercado (em que se baseiam as licitações), e que isso justifique grandes diferenças de cachê, causa repulsa ver os músicos locais tratados como cidadãos de segunda categoria. A função do Estado na cultura e na música seria o de incentivar a produção local. Terão os secretários e burocratas a noção exata de quantos quilos de feijão um trombonista precisa comer antes de subir as ladeiras de Olinda?

Na marcha de bloco “Valores do Passado”, Edgar Moraes menciona antigas agremiações já extintas: Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes, entre outras. Há um elemento saudosista muito forte, presente no que hoje se convencionou chamar blocos líricos. E no Carnaval, como um todo: em todo Brasil, as marchas e frevos que escutamos são praticamente as mesmas todo o ano, escritas há mais de quarenta anos. Com exceções de Salvador (onde a indústria do axé sempre apresenta novos hits) e das escolas de samba do Rio e suas derivações pelo Brasil afora (embora os sambas-enredo, obrigatoriamente novos, não tenham vida pós-sambódromo). Que a tradição não nos faça criar arte de museu! Que a arte reflita a nossa vida, e que nos faça repensar nossos contextos, mentais, sociais, políticos! Que nos desafie a criar novos contextos, que porventura nos levarão a novas direções da arte, novas valorizações da arte.

 Publicado originalmente na 2ª edição da revista Outros Críticos.

 Arte de capa do site: Daaniel Araújo.

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Germano Rabello Escrito por:

Jornalista, músico e ilustrador.

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