Fela Day n’A Casa do Cachorro Preto

 photo IMG-20131027-WA0015_zps2ed5218f.jpg
A Casa do Cachorro Preto. Foto: Rodrigo Édipo

por Rafael de Queiroz. 

Sábado, 26/10, e mais uma vez um destino que está se tornando praxe para se vivenciar a vida cultural local mais relevante: A Casa do Cachorro Preto, Olinda. O lugar vem produzindo ou abrigando uma série de acontecimentos vitais para a circulação de ideias e vivências em diversas linguagens artísticas da Região Metropolitana do Recife e, na minha humilde opinião, já corre por vias de se tornar um lugar mítico: ponto para os donos e produtores que vêm segurando a barra pesadíssima de uma região com inchaço de produção e com poucos espaços de escoamento.

No fatídico dia, o repórter foi conferir o Fela Day, evento que, oficialmente, ocorre no dia 15/10 em várias cidades do mundo, por se tratar da data de nascimento de um dos músicos mais importantes da história da música popular: Fela Kuti. Porém, por ter caído em uma terça-feira e ter acontecido o Coquetel Molotov no fim de semana subsequente, o Fela Day PE precisou ser adiado para não sofrer com uma possível baixa de público. A estratégia foi bem sucedida e conseguiu arrebatar um bom número de pessoas, mesmo embaixo de uma chuva torrencial, que, como me foi dito por um amigo, aconteceu o mesmo no Fela Day do ano passado, sugerindo uma possível relação mística entre a música do africano — por hora, também litúrgica — e a precipitação.

Falei de religião porque esse era um assunto tão importante quanto a política no universo musical de Fela, até porque, querer conectar-se com seus antepassados e construir uma ideia de uma música realmente africana, anticolonialista, também fez com que o músico nigeriano buscasse as raízes de seu povo antes da dominação e exploração ocidental que seu país sofreu: nesse percurso, encontrar-se com os orixás do povo Ioruba, negando o protestantismo adotado pelo seu pai, era também um ato político. Fela Kuti era filho de uma família tradicional e abastada e, até passar uma temporada, na década de 60, nos Estados Unidos, não comungava com quaisquer das ideias que o tornaram famoso. Somente depois que namorou uma integrante do movimento dos Panteras Negras, Isidore, que o apresentou o livro de Malcolm X e a música de James Brown, que ele voltou à Nigéria decidido a criar uma música extremamente politizada e realmente africana. Surge então, o Afrobeat, que tem elementos da música nigeriana tradicional, do highlife ganês, do jazz e do funk norte-americanos.

Além do universo musical, Fela também resolveu romper com estilo de vida ocidental imposto a partir da época colonial como, por exemplo, casar-se com 27 mulheres, a maioria cantoras e dançarinas da sua banda, e fundar uma comuna chamada de República de Kalakuta, onde morava também com os integrantes da sua banda. O músico declarou o local como independente do governo nigeriano, onde fazia suas próprias leis e também possuía um estúdio de gravação. Nas suas letras, além da decisão de cantar em um inglês pidgin, fazia duras críticas ao governo militar vigente, fato que o fez ser preso e torturado diversas vezes e ter sua comunidade invadida com certa frequência pelos soldados, acarretando, inclusive, na mais violenta delas, o estupro de suas mulheres e a morte de sua mãe, que, já idosa, foi arremessada do primeiro andar por um dos invasores.

 photo CarlosampFela_zps2a666aed.jpg
Carlos Moore e Fela Kuti.

Esse acontecimento mexeu muito com o músico que passou a ser cada vez mais radical nas suas letras e declarações e, segundo seu amigo e biógrafo, Carlos Moore, tornou-o cada vez mais paranoico, com mania de perseguição. Mudou seu nome do meio, Ransome, quando passou a considerá-lo nome de escravo, para Anikulapo, que quer dizer “Aquele que carrega a morte no bolso”. Fela passou a se considerar imortal e dizer que era protegido pelos espíritos, tanto que, quando os sintomas da Aids começaram a abalar sua saúde, ele rejeitou ajuda médica. Mas, por um lado, podemos dizer que Fela é, de fato, imortal, e eventos como o Fela Day só provam que sua música e seus ensinamentos continuam vivos e atuais. Segundo Miguel Jorge, vocalista da banda Abeokuta Afrobeat, uma das atrações do Fela Day, esse mesmo evento em Los Angeles é garantido por lei.

Além da Abeokuta, a celebração contou com os sets do DJs Vinicius Leso (Agito Pesado), 440 (Terça do Vinil) e Ravi Moreno (ACasadoCachorroPreto), que tocaram um repertório legal, em sintonia com a música do músico nigeriano e, como se costuma dizer, soltaram ‘altas pedradas’. Porém, sem medo de cometer injustiças com os DJs, posso afirmar que o grande momento da noite foi o show da Abeokuta Afrobeat, banda que foi formada exclusivamente para o evento, tocando pela primeira vez, ano passado. Segundo Jedson Nobre, baixista e um dos fundadores do grupo — além de ser participante ativo da Articulação Nacional Fela Kuti — a banda existe desde maio do ano passado e foi formada por ocasião de um show do baterista de Fela e co-criador do afrobeat, Tony Allen, no Rio de Janeiro. No dia posterior ao show, Miguel Jorge foi convidado para participar de uma jam em uma casa de Santa Tereza, junto com Allen e outros músicos, como BNegão, por exemplo, e levou Jedson junto: “Depois que a gente participou da Jam com Tony Allen e OgheneKologbo, voltei determinado a montar a banda, e montei em uma semana.Um mês depois fiz a festa África Brasil, lá na Casa   do Cachorro Preto, que teve participação de dois africanos nos vocais e André Sampaio, dois meses depois veio o Fela Day. Mas, quando voltei do Rio já tava pensando no Fela Day mesmo. A partir dessa experiência que surgiu a vontade de montar a banda e mostrar através de shows o que era Fela Kuti para os pernambucanos.”, acrescentou Jedson.

 photo IMG-20131027-WA0013_zps7fa3cca2.jpg
Banda Abeokuta Afrobeat Foto: Rodrigo Édipo.

Apesar da clara importância que a banda tem, por tentar manter viva a música de Fela Kuti e por mostrar para muitas pessoas que ainda não tiveram contato com as ideias libertárias de Anikulapo, a banda não consegue circular de uma maneira satisfatória. Há dificuldades na própria estrutura: muitos músicos — a complexidade do afrobeat requer isso — e alguns deles morando em outros estados; soma-se a isso a falta de interesse dos poucos lugares onde poderiam circular pelas bandas de cá, não existindo convites. Porém, eles ainda não pensam em desistir desse projeto e planejam um EP para o ano que vem, com músicas próprias e, mesmo com todas essas dificuldades, a banda apresentou um repertório expressivo e bem ensaiado, conseguindo transformar aquele pequeno espaço de Olinda em um terreiro de Abeokuta, em uma República Kalakuta, quase deixando parte da plateia em um transe coletivo. A energia emanava pelos corpos e criava um ambiente de entrega e fervor. Isso é um dos trunfos dessa música, ou talvez até uma relação contraditória possa ser percebida, já que o afrobeat, apesar de ser extremamente complexo e denso, com músicas de, no mínimo, dez minutos e arranjos de difícil digestão, consegue entrar tão intensamente e gerar uma catarse na audiência. Para o vocalista Miguel Jorge, isso se deve a um projeto bem sucedido de reunir elementos de vários gêneros da música negra e angariar essa identificação do público; opinião que também é compartilhada pela estudante de biologia, Priscila Souza, de 24 anos. Na ocasião, ela era uma das mais empolgadas e dançava freneticamente, até parecendo uma dançarina de afoxé, porém foi apenas mais uma arrebatada pela música de Fela.

Além de citar todo seu envolvimento de vida e espiritual com a música negra, onde o afrobeat de Fela e seus seguidores também tinham um lugar especial, Priscila citou a importância da cidade de Olinda em sediar um evento de tamanha importância, já que a relação da música local com seus maracatus e afoxés dialogam diretamente com a matriz africana e o pan-africanismo buscado por esse gênero. Miguel Jorge também faz uma colocação parecida e afirma que Pernambuco talvez seja o lugar que mais tenha ouvido para esse tipo de música, incluindo até o frevo como um possível elemento de mistura e semelhança com a música que nasceu em Lagos. Por esses motivos, o Fela Day deveria ter mais apoios financeiros e parcerias para que pudessem chegar a mais pessoas, a subúrbios e pudesse espalhar a mensagem de luta e orgulho negros contra um sistema opressor. Esse ano, além do evento na A Casa do Cachorro Preto, ouve uma exposição de fotos na Biblioteca Pública de Olinda, porém, ainda é muito pouco, dada a importância de se comemorar esse dia. Palestras, debates, oficinas e uma maior aproximação com o movimento negro e manifestações de matriz afro locais se fazem necessárias para ser possível a criação de uma rede mais forte e expressiva. Mas talvez essa seja apenas a semente de algo maior. Em tempo: a banda Abeokuta Afrobeat fará outra apresentação dia 28/11 no Festival Cine Chinelo NoPE.

Arte de capa do site: Fela Kuti por Daaniel Araújo.

Categorias

Rafael de Queiroz Escrito por:

Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

seja o primeiro a comentar

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.